Sofazão | Oldboy – Crítica

Aproveitando que o diretor Spike Lee está responsável pelo remake hollywoodiano de Oldboy, o Pedrão foi conhecer a obra coreana em que o remake é baseado pra saber o que vem por aí.

O cinema oriental é conhecido por sua honestidade e por sua forma  única de enxergar o mundo. Por isso, fui empolgado para adquirir meu exemplar desse estilo único de contar histórias; comprei o Blu-ray de OldBoy (2003).

O diretor (que acaba de ganhar um fã fanático) Park Chan-Wook, adaptou, com a ajuda de mais 3 grandes roteiristas, um mangá  originalmente publicado em 1997. Dele foi extraído uma das histórias  mais impressionantes/perturbadoras/reflexivas da história do cinema pós-Hitchcock.

Oh Dae-su, coreano e beberrão, é sequestrado e passa 15 anos num pequeno quarto com televisão. Durante esse tempo, suas atividades foram assistir programas de baixa audiência, socar a parede para se manter em forma (para quando a hora da vingança chegasse) e escrever tudo isso numa espécie de diário, onde estavam todos os nomes de possíveis pessoas que ele aborrecera. Libertado, Dae-su recebe roupas, dinheiro e um celular, por onde o sequestrador se comunica. Com a missão de descobrir quem é seu sequestrador e por que, Dae-su começa uma caçada incessante até chegar a seu objetivo.

A direção de Chan-Wook é algo tão surpreendente que chega a assustar. Por vezes achamos que ali está um filme de Tarantino, ou Kubrick. Mas não, o que vemos é uma liberdade e honestidade que Hollywood não tem nos dias de hoje. Honestidade que deverá ser totalmente apagada no remake que já está sendo produzido. Infelizmente, comer um polvo vivo, arrancar dentes  com um martelo e colocar ideias que vão de encontro a qualquer doutrina cristã não poderá ser  adaptado, pois na terra dos processos,  quanto menos risco de fracasso, melhor.

A junção de violência extrema seguida de incesto, hipnose ligada a vingança de um ser contra o outro, (e muitos outros fatores que tornam  Oldboy um filme obrigatório a todos)  fazem  com que a repulsa do espectador se transforme numa reflexão sobre o verdadeiro sentido da família, do amor, do sexo, e da ignorância do ser. O que um homem (aqui colocado várias vezes como um animal)  é capaz de fazer para obter o que quer, ou até onde um ser humano (= animal) vai para se vingar e justificar sua existência.  Oldboy vai muito além dos 119 minutos de filme e se torna uma meditação. Uma frase do filme resume: “Se sorrir o mundo sorrirá com você. Se chorar, chorará sozinho”. É terminar de assistir, puxar seu tapete e esvaziar a mente ( ou enchê-la, no meu caso).

Mais perturbador que a história é a atuação de Choi Min-Sik ( Oh Dae-su). As cenas em que sua expressão fácil está em foco nos revela  um jovem senhor derrotado e exausto pelo tempo que fiou preso, ao mesmo tempo que pode derrubar vários homens e parecer um jovem garoto. Sua atuação vai do extremo ao ridículo em pouquíssimo tempo, numa intensidade pouco vista nos dias atuais.  As cenas de ação honestíssimas também são incríveis, e Choi Min se destaca mais uma vez por suas cenas sem muitos rodeios e com cara de macho. Se você gosta da quantidade de sangue vista em Kill Bill, ou Pulp Fiction, com certeza gostará de Oldboy, pois nada é escondido, ou maquiado. O sangue jorrará sem frescura.

Atentando para o início do texto, onde dissertei sobre a refilmagem hollywoodiana que está sendo produzida, fiquei com uma dúvida: Como é possível um filme com uma carga sangrenta, sexo entre familiares e tudo aquilo que torna Oldboy um filme único será adaptado por um cinema medroso como o hollywoodiano? Fica aqui meu apelo: Deixem o original vivo.

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