Review | Person of Interest – 5×12 – “.EXE”

João Paulo

  quinta-feira, 23 de junho de 2016

Review | Person of Interest – 5×12 – “.EXE”

Um mundo sem a “Machine”! Em seu brilhante penúltimo episódio, Person of Interest, mistura suspense, reviravoltas e ganchos poderosos para determinar o destino final de sua trama.

“O sacrifício da Rainha…” enfatizou Greer para Finch, ambos presos numa sala branca e preste a morrer sem ar. É com este clima que Person of Interest carrega a maior parte da narrativa neste penúltimo episódio da temporada. O fim está próximo e cada vez mais a sensação de nostalgia e de finalização toma conta da série, aqui em “.EXE” a jornada é conduzida com destreza e apesar de alguns pequenos equívocos na direção, o episódio consegue trazer o melhor da mitologia do seriado em momentos únicos e intensos.

A narrativa continua logo depois dos eventos de “Synecdoche” (5×11), com Finch e a “Machine” agora em posse do vírus ICE-9 e partindo para segunda fase da operação para destruir o “Samaritan”. Do outro lado, após o Logan Pierce entregar o paradeiro de Harold para Reese e Shaw, a dupla retorna ao metrô para discutir o próximo passado da missão.

Com um tempo tão curto, o roteiro assinado pelos veteranos Greg Plageman (também produtor e showrunner da série) e Erik Mountain não perde tempo em amarrar logo a narrativa, desta forma a “Machine” libera o nome do POI da semana, Philip Hayes, que no final das contas era apenas uma identidade falsa de Greer.

Desta forma a narrativa é quebrada em duas tramas principais e uma trama secundária com Fusco na delegacia. Começando a falar por Lionel, temos neste caso o desfecho do arco do detetive que começou lá na season premiere e chega ao seu derradeiro fim aqui. Achei esperto o “Samaritan” utilizar o caso dos corpos desaparecidos no túnel abandonado onde Fusco sofreu o atentado para colocá-lo contra a parede através do retorno do falso agente do FBI Martin LeRoux.

É interessante o quanto esta trama mostra o crescimento de Fusco como personagem não só neste episódio, mas ao longo desta quinta temporada, além de mostrar que o fato de saber a verdade sobre a “Machine” deixa o detetive ainda mais esperto para não cair em armadilhas. O confronto entre ele e Martin no final puxa um lado do personagem que lembra o antigo e inescrupuloso Lionel que trabalhava para H.R, algo que surpreendeu, mas que no final das contas soa bem coerente para o momento decisivo e perigoso que os personagens estão vivenciando.

Falando em momento decisivo, aqui em “.EXE” ganhamos uma nova perspectiva em relação a um mundo sem a nossa querida “Machine”. É incrível como roteiro de Plageman e Mountain consegue fazer a jornada de Finch ser também uma jornada de reflexão para o personagem, ponderando e colocando em dúvida tudo que ele está fazendo para destruir o “Samaritan”. Como citei na review anterior, a “Machine” serve como a voz da consciência para Harold e neste episódio mais uma vez, ela se utiliza de simulações (não para prever uma possível morte como no brilhante episódio “If-Then-Else” (4×11)) para mostrar um ponto de vista diferente de um mundo sem a presença dela, reforçando ainda mais a ideias levantadas em “B.S.O.D.” (5×01) e “SNAFU” (5×02) sobre a importância desta inteligência artificial para o futuro da humanidade.

Sendo assim ganhamos cinco brilhantes simulações focada nos personagens principais onde a “Machine” é removida da linha temporal da série. A primeira com Finch trazendo de volta sua relação com Nathan que provavelmente não morreria em um trágico atentado, porém podemos notar que para Harold a vida seria monótona, pacata e sem propósito. Talvez esta simulação não seja a melhor de todas, mas a simulação com Reese traz uma perspectiva mais chocante com o personagem evitando o destino trágico de sua amada Jéssica, porém sem um propósito acaba morrendo após estes eventos.

É incrível como a missão Ordos mostrada lá na primeira temporada influencia a trajetória de John, assim como o trabalho oferecido por Finch em 2011. São dois eventos que misturam o trágico e a ascensão que ajudaram a consolidar o herói que Reese é hoje, salvando vidas de pessoas comuns. As três simulações seguintes trazem boas surpresas, como a simulação de Fusco que continuaria com sua veia corrupta dentro da H.R e se tornaria um frustrado, além do que nesta linha paralela a detetive Carter estaria viva e teria derrubado a H.R. se tornando a chefe do departamento. No caso de Shaw, a personagem continuaria trabalhando para o governo sobre as ordens da Control e de quebra não teria perdido seu parceiro. Destas realidades alternativas a de Root no terceiro ato foi basicamente um presente para os fãs, mas aqui o interessante é perceber que mesmo que a máquina de Finch não fosse criada, o mundo ainda teria sido dominado com “Samaritan” e nossa hacker preferida seria uma de suas agentes.

O roteiro cresce muito com a presença dessas simulações, todas estas ponderações de prós e contras em relação a “Machine” adiciona mais camada e peso na decisão de Finch. Ao mesmo tempo em que somos levados a estas sequências, a narrativa guia seus personagens para um ponto de colisão da trama, que acontece dentro das instalações da NSA.

Durante a segunda e terceira temporada, Person of Interest várias vezes foi citada como a série que melhor se aproximava da realidade, todo aquele caso da NSA estar espionando a população norte-americana e mundial reveladas por Snowden foi como se tivessem promovendo a série de forma não intencional. A premissa da série era muito semelhante ao que estava acontecendo, a questão da vigilância nunca foi tão comentada nestes últimos anos, então é bacana o fato de trazerem a narrativa em seus momentos decisivos para ser passada dentro das instalações da corporação norte americana, seria algo como os roteiristas agradecendo e abraçando o lado mais realista da mitologia da série.

Enquanto a “Machine” guia Reese e Shaw até a NSA, Finch com ajuda da mesma utilizando-se de vários meios para viajar até a sede da mesma corporação agora dominada por Greer e seus agentes para instalar o vírus nas instalações do “Samaritan”. O roteiro é eficiente em criar cenas de tensão, emoção e consegue guiar as duas tramas principais de uma forma orgânica de uma forma que se cruzem em certo momento, porém minha única ressalva vai para direção.

Greg Plageman assina o roteiro e também assina pela primeira vez na série o trabalho de direção. Assim como Jonathan Nolan fez uma vez no épico episódio “Relevance” (2×16), Plageman tenta uma investida antes da despedida da série, talvez a decisão para este momento não tenha sido a mais acertada, porque apesar de gostar de sua direção em praticamente todas cenas, sinto falta de uma maior equilíbrio entre a urgência que o roteiro pede e uma certa objetividade em abraçar que este é o penúltimo episódio do seriado, desta forma o primeiro ato do episódio é um pouco devagar e só consegue se consolidar realmente na acelerada sequência final, quando você realmente tem sensação de que estão travando uma guerra contra um inimigo poderoso.

No geral Plageman consegue um trabalho sólido, afinal as sequências das simulações ficaram muito bem dirigidas e a sequência de diálogos entre Greer e Finch são simplesmente antológicas, somando a reviravolta final com Harold, Reese e Shaw se reencontrando e partindo para missão de soltar o vírus no sistema do “Samaritan”.

Desta forma podemos dizer que o penúltimo episódio de Person of Interest é sólido e tem o toque de brilhantismo que sempre esperamos da série. Apesar de algumas pequenas ressalvas em relação a direção, devo dizer que o roteiro forte que se preocupa em desenvolver seus personagens e fechar suas narrativas preparando seu público para a sinfonia final, supera qualquer por menor que o episódio possa ter.

É importante ressaltar o quanto “.EXE” abraça a mitologia da série, sem falar que finalmente tivemos uma disputa mais aberta entre “team machine” contra “Samaritan” e seus agentes. As cenas de ação estão excelentes, principalmente com Reese e Shaw em cena, mas é nos diálogos que a série ganha pontos de sobra, com a despedida de Greer, que apesar de estar bastante contido nos episódios anteriores, aqui se mostra um dos antagonistas mais simbólicos e filosóficos da série, um vilão altruísta que enxerga um futuro onde “Samaritan” criará uma nova humanidade.

A morte do personagem talvez tenha sido um pouco simples, mas foi bastante coerente para crenças fanáticas do mesmo, afinal como Root, Greer enxerga sua inteligência artificial como um Deus entre os humanos. Outro ponto forte do episódio foi Finch e sua decisão de inserir o vírus na rede para destruir o “Samaritan” e consequentemente a “Machine.

O episódio foi construído para o personagem tomar essa decisão e as simulações ao meu ver eram a última esperança da “Machine” convencer seu “pai” a não destruí-la. Mais uma vez o roteiro aqui é simplesmente genial em se focar nos detalhes e apelar para o emocional, além de conseguir trazer um gancho a ser explorado no último episódio.

Sendo assim a narrativa chega ao seu ponto decisivo e “.EXE” é eficiente principalmente em seus minutos finais em deixar o público ansioso para conclusão desta história. Com o vírus ICE-9 sendo liberado, o fim de “Samaritan” se aproxima, e apesar de tudo parecer resolvido, acredito que a verdadeira batalha final do “team machine” ainda estar por vir e como este episódio mesmo mostrou, o lado emocional será um dos pontos fortes do episódio final. A única pergunta para a fazer neste momento é, você está preparado?

Observações de Interesse:

“.EXE”: é um tipo de arquivo de extensão bastante usado no Windows da Microsoft e em outros sistemas operacionais. Arquivos deste tipo são chamados executáveis e estes supostamente devem executar qualquer programa. No caso do episódio refere-se ao nome do arquivo executável que contém o vírus que Finch usa.

NSA: A base da corporação fica em Fort Meade em Washington DC, coordenadas que a “Machine” envia a Reese e Shaw.

It’s Wonderful Life: As simulações que a “Machine” se baseia na obra cinematográfica de 1946 de Frank Capra, “It’s Wonderful Life”. Neste filme o protagonista está convencido que o mundo seria um lugar melhor sem a presença dele. Um anjo aparece para o personagem e o ajuda a compreender que a vida dele não fazia muita diferença na dos outros a sua volta.

Dashwood: A senha para ativar o arquivo vírus ICE-9.exe tem um significado fundamental para Finch, é um dos sobrenomes de um dos personagens principal do romance de Jane Austen’s “Razão e Sensibilidade”, este é o mesmo livro que Finch dá a Grace quando pede a mesma em casamento. Uma curiosidade sobre essa fato, o roteirista e diretor Greg Plageman mencionou que a ideia foi 100% de Erik Mountain que co-escreveu o roteiro com ele.

Tesla Model S: Uma das cenas mais legais do episódio foi a “Machine” dirigindo o carro para Finch no caminho do aeroporto que fica em San Jose na Califórnia. O modelo Tesla S é um veículo que possui um piloto automático desenvolvido pela Tesla permitindo que o carro dirija sem que o motorista encoste no volante.

Easter eggs e algumas homenagens: O legal das simulações é que trouxeram alguns personagens conhecidos da série de volta, como o detetive Bill Szimanski na simulação de Fusco, ou o analista Henry Peck que apareceu na série no episódio “No Good Deed” (1×22) e aqui retorna na simulação de Shaw. Outros participações foram Nathan Ingram amigo de Finch, Senador Ross Garrison figura importante nos arcos que envolviam a parte do governo na mitologia da série e Michael Cole, ex-parceiro de Shaw.

Momento Reese: A sequência final com Reese e Shaw ajudando Finch a escapar das instalações da NSA foram excelentes.

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Como vou sentir falta dessas cenas.

E atrás da porta número 1: Só queria mostrar essa gif mesmo.

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Aliados do Samaritan: Neste episódio tivemos a morte de Greer e também tivemos a morte do Zachary pelas mão de Reese, agora falta apenas Jeff Blackwell e o próprio Samaritan para fechar a conta.

Snowden, Edward: Mais uma prova que POI sabe abraçar a realidade é o fato do wireless recuperado por Reese e Shaw no estoque da NSA para ser usado pela “Machine” mais tarde, estava indexado para Edward Snowden, aquele mesmo que foi acusado de espionagem pelo governo dos EUA em 2013 por vazar informações sobre os programas de espionagem global da NSA, desde então Snowden vivi exilado fora do país vivendo sob a tutela da Rússia enquanto procura asilo em outros países.

Melhores frases do episódio:

“Who am I? I’m just like you, Mr. Barnett. A man who sold the world. Only I charged them a dollar.” (“Quem sou eu? Eu sou como você, Sr. Barnett. Um homem que vendeu o mundo. A diferença é que cobrei apenas um dólar.”) – Finch

“A flood is coming. The great filter. And Samaritan is building us an ark to board, two by two.” (“A inundação está vindo. O grande filtro. E Samaritan esta construindo uma arca para salvar dois a dois.”) – Greer para Finch

“From the very beginning when you crippled your machine, you denied it the same power that you enjoy: autonomy. It’s always required your permission because it never had your trust, and you just said it. You wouldn’t cede control. That tells Samaritan that only you know the password. For such a brilliant mind, you are a terrible chess player. Which is why you’ve already lost.” (“Desde o começo você prejudicou sua máquina, você negou a ela o mesmo poder que você adorava: autonomia. Ela sempre requisitou sua permissão porque nunca teve sua confiança, e você mesmo disse isso. Você não cederia controle. Isto diz ao Samaritan que apenas você sabe a senha. Para uma mente brilhante, você é um péssimo jogador de xadrez. E é por isso que você perdeu.” – Greer para Finch

“My Machine? Her purpose has been constant.To protect and save humanity. It’s what she’s doing now.” (Minha máquina? Seu propósito vem sendo constant. Proteger e salvar a humanidade. E é isto que ela esta fazendo agora.” – Finch para Samaritan

Leia a review do series finale.


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