Review | Person of Interest 3×20: “Death Benefit”

João Paulo

  domingo, 27 de abril de 2014

Review | Person of Interest 3×20: “Death Benefit”

Em um tempo complicado para o “team machine”, somos levados ao episódio mais político, brilhante e conflituoso de Person of Interest, uma narrativa que trouxe o melhor caso da semana de toda a série até agora e a ascensão definitiva da Decima Tecnologies

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Os últimos minutos do episódio anterior já demonstrava que POI estava entrando numa época sombria, em mais um episódio de construção do eminente confronto entre o “team machine” e a Decima Tecnologies, somos surpreendidos pelo roteiro que trouxe momentos de pura carga dramática e questionamentos que nos fez relembrar tudo que a série nos apresentou até agora sobre salvar vidas e sobre vigilância. Em um episódio que deu entender que seria normal acaba por construir um segundo ato brilhante transformando um caso da semana com cara de filler num dos casos mais (senão o mais) importantes de toda a série.

O roteiro assinado por Erik Mountain e Lucas O’Connor é eficaz em começar a narrativa mostrando as consequências do vazamento do projeto Northern Lights no episódio “Most Likely To…” (3×19) para a população americana, em “Death Benefit” se instaura então um tipo de insegurança e paranoia em sua atmosfera que apresenta um tom mais político do que o normal. Com a ameaça cada vez mais real da Decima Tecnologies o que mais se vê é trabalho para o “team machine”, aqui também vemos como está funcionando a dinâmica da equipe depois que a “machine” designou a lista de relevantes para Root.

A narrativa de Root é breve, praticamente a vemos viajar para várias partes dos EUA intervendo em ações terrorista sozinha ou na companhia de Shaw em certo momento do episódio. Enquanto isto Reese e Finch recebem um número irrelevante de um deputado de Washington, fazendo a dupla se deslocar de Nova York para a capital americana no intuito de resolver mais um caso. A trama tem um ritmo bem normal salpicado de muito humor como se pode notar na cena em que Reese utiliza-se de seus métodos nada ortodoxos para que a dupla possa se aproximar do POI Roger McCourt (John Heard mais conhecido pelos filmes Esqueceram de Mim 1 e 2), isso tudo sem aprovação de Finch é claro.

A verdade é que foi bom ver Reese e Finch trabalhando juntos, apenas os dois, isto lembra diversos momentos da primeira temporada. Ainda assim a dinâmica criada entre o trio Reese, Finch e Shaw funciona tão bem para mim neste episódio que é difícil não gostar quando estão contracenando em tela. Enfim, no meio da investigação sobre a vida de McCourt não vínhamos nada que indicasse que o político pudesse sofrer algum atentado, nenhum perigo eminente, apenas descobrimos seu caso amoroso com sua assessora pessoal, sua influência política e seu apoio a emendas contra Vigilância no congresso eram as únicas pistas que poderiam indicar algum tipo possível perigo à sua vida fazendo ele alvo perfeito para uma organização como a Decima.

Mais uma vez a direção de Richard J. Lewis é crucial para dar um escopo mais concreto das intenções do roteiro, talvez o ritmo da primeira metade do episódio não tenha sido tão consistente propositalmente para esconder os mistérios guardados na segunda metade de “Death Benefit”. Em determinado momento do episódio em um diálogo entre Finch e Reese, o criador da “machine” ressalta em um das frases que estavam vivendo em um tempo estranho, onde o perigo estava em todos os lugares e não sabiam de onde as ameaças viriam.

Esta frase é repetida mais tarde por Reese, evidenciando que os roteiristas estavam colocando pistas em suas entrelinhas desde o início nos preparando para o excelente clímax do episódio, momento este que trouxe diversos questionamentos e diversas ponderações, as repercussões levantadas poderão ter um impacto forte nos três últimos episódios da temporada.  Um ponto positivo aqui é a sensação de perigo inserido neste contexto, mesmo que não seja totalmente completo, esse sentimento ajuda deixar Reese e Finch sempre em alerta, sempre em movimento e sempre com um sentimento de perseguição, que vai aumentando até os últimos momentos de projeção.

A grande reviravolta da história é o que mais importa aqui, esta virada não só veio de forma surpreendente como também enriqueceu a narrativa de certa forma. A verdade é que nos acostumamos bem ao estilo POI, o caso da semana, por exemplo, às vezes tem apenas a vítima a ser protegida, ou em outros casos em que a vítima é o próprio criminoso, isto tudo sempre com o “team machine” sendo aquela equipe que resolve os problemas, mas nunca sendo o centro (ou causa) deles, mas no entanto temos uma situação inusitada em que a vítima Roger McCourt se torna o caso mais controverso já pego por Finch e companhia.

As constantes investidas da Decima em capturar o político aconteciam a todo o momento no decorrer do episódio, mas tudo indicava que havia algo mais na história toda. A revelação de que a organização estava na verdade protegendo o deputado (devido a um acordo benéfico firmado entre ambas as partes) e não o perseguindo como se pensava inicialmente, o clima de repente muda totalmente e o “team machine” de mocinhos passaram a ser considerados “vilões” da história, aqueles seriam responsáveis pela morte do senador.

Seria possível que a “machine” deseja-se que a equipe matasse uma pessoa? Segundo Finch seria possível, mas iria contra para o próprio conceito que ele instaurou para sua criação. Muito se questionou no começo da temporada as consequências da “machine” ter se tornado livre, durante muito tempo vemos sua evolução constante em diversos episódios (“Mors Praematura” é o melhor exemplo disto), tomando suas próprias decisões, instaurando protocolos para se proteger (a criação das operações terciárias e a inclusão dos necessários) e utilizando de todos os meios possíveis para impedir que o programa Samaritan entrasse em operação, mas matar, talvez possa ser algo difícil de acreditar, ainda mais depois dela ensinar lições de humanidade a Root no episódio “∕ ”(3×17).

“Death Benefit” ou “Benefício da Morte” em português toma muito cuidado para não mostrar apenas um lado da questão, mas abre a pergunta evidenciando o lado bom e ruim da decisão que teriam que tomar em relação ao assassinado ou não de McCourt, caindo no velho clichê “o custo de uma vida para salvar milhares de outras mais”, dessa forma temos Finch, ainda que entendendo a situação não consegue concordar com a decisão tomada pela “machine”, pois iria contra tudo em que ele acreditava desde começou a salvar vidas irrelevantes. E vê-lo junto com Reese salvando vidas por três temporadas de forma justa e com poucas baixas no caminho é difícil pensar que estariam destinados a começar a liquidar pessoas pelo bem maior.

Do outro lado temos Reese, todos sabem o quanto o personagem sofreu essa temporada, a morte de Carter teve um impacto forte em sua pessoa, ele perdeu a confiança na “machine” totalmente, mas que depois foi restaurada em parte no episódio “4C” (3×13), dessa forma talvez John tenha sido o que entendera melhor o que “machine” estava tentando fazer, talvez a morte de McCourt fosse a chave para evitar algo grandioso que está para acontecer, e ele sabia que ela nunca errava. Surpreendentemente todo o depoimento de John fez sentido e chega ser uma ironia cruel ele depositar toda confiança assim na “machine” exatamente por ele confiar completamente nos julgamentos de Harold em relação a sua criação.

E ainda temos Shaw, sua resposta a toda essa situação foi coerente com a evolução da personagem, foi importante ela enfatizar o quanto trabalhar com Reese e Finch mudou sua percepção sobre salvar vidas, ainda que no final ela tenha ficado do lado de John em relação a matar McCourt. Por fim voltamos a analisar do ponto de vista da “machine” de novo, particularmente acredito que toda esta situação foi uma decisão ou um teste que ela delegou ao seu “pai”, mais do que nunca esta não era uma decisão apenas sua, ela sabe o que está por vir, ela previu este cenário acredito que desde o começo da temporada, ela sabe os métodos que precisa utilizar para impedir Greer e a Decima, mas ela não pode ir contra o conceito de sua programação, acima de tudo ela ainda está presa ao conceito de valorizar a vida humana, ela pode até ter soltado o número, mas deixou que Finch e o resto da equipe decidissem por conta própria o que fazer em seguida.

O melhor dos roteiros de POI é que eles assemelham em alguns aspectos ao roteiro inteligente de “The Dark Knight”, enquanto estamos ainda tentando entender o porquê da “machine” querer matar McCourt, por fora desta narrativa temos toda uma engrenagem já preparando algo maior para acontecer no futuro (algo semelhante acontece entre o segundo e terceiro ato do filme do morcego, isto mostra a influência de Jonah Nolan mesmo não assinando o roteiro deste episódio), como a reunião secreta entre Greer e o senador Ross Garrison. Entenda que a decisão tomada por Finch e a equipe na cena do refúgio poderia ter influência direta nessa reunião.

A decisão de manter McCourt vivo abriu as portas de vez para Decima Tecnologies entrar nos EUA, e se com a influência do político impedir o veto de qualquer projeto pró-vigilância já é algo ruim, imagine agora que Greer tem acesso à parte dos “feeds” da NSA liberados por Garrison. O episódio termina de forma melancólica e embalada por uma trilha sonora impecável que só acentua o medo que se instaura na série, o “team machine” agora está sendo perseguido por todas as autoridades e a situação de desespero é evidente nos rosto de nossos protagonistas.

Dessa forma pode-se concluir que “Death Benefit” foi o episódio que apresentou a última esperança de parar a Decima antes de ela concluir seus planos de ativar o programa Samaritan, mas ao bater na tecla da moralidade o “team machine” chegou a um impasse sem volta. Deixar Roger McCourt vivo pode ter sido uma decisão sensata para Finch, mas terá consequências imediatas como pode ser visto na última cena do episódio. Enfim “Death Benefit” pode até ter começado calmo, mas conseguiu trazer momentos fantásticos em sua segunda metade, com roteiro enxuto, atuações na medida, direção certeira e um belo trabalho de edição, o episódio prepara um cenário quase apocalíptico para série nesta final, o “Samaritan” foi ativado por um período de 24 horas e não sabemos quais serão os efeitos devastadores de dois sistemas extraordinários coexistindo em um mesmo ambiente, o maior problema é saber que Greer já tem o primeiro alvo em mente e eu tenho um mau pressentimento em relação a isso. A guerra começou.

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Observações de Interesse:

“Death Benefit”: O título do episódio se refere ao pagamento feito através de uma apólice de seguro, ou uma administração de segurança social ou qualquer agência envolvida em assuntos que tratem da morte de um indivíduo. O título também sugere que a morte às vezes pode ser algo benéfico ao invés de ser um evento infeliz.

Beta Test: Um dos empregados de Greer afirmou que Samaritan estava entrando em operação através de teste Beta, basicamente sugerindo o que irá acontecer no próximo episódio da série que se chama “Beta”.

The Garden of Earthly Delights (O Jardim das Delícias Terrenas): A pintura do século 15 que aparece em toda sua glória durante a conversa entre Greer e Ross Garrison é interessante por mostrar a eterna luta entre o bem e o mal, além demonstrar as tentações humanas na pintura de centro (clara referências às falhas humanas frente ao pecado original), e as visões de céu e inferno nas pinturas laterais. O autor Hieronymus Bosch era um pintor a frente de seu tempo, muitos afirmam que a pintura é uma representação do que é a sociedade ocidental atual. POI também é cultura e faz pensar.

Ponto de Vista do Samaritan: O final do episódio deu a deixa e no próximo episódio provavelmente veremos os acontecimentos pelo ponto de vista do Samaritan, talvez usem a mesma estrutura do episódio “∕ “, onde a “machine” irá dividir espaço com “Samaritan”.

Finch, Harold: Greer finalmente irá realizar o desejo de descobrir quem realmente é Harold Finch, depois dos acontecimentos de “Ram” (3×16) e “Dead Reckoning” (2×13) a Decima está mais perto de capturar seu maior oponente.

Feeds: A palavra foi dita diversas vezes no episódio então para quem não conhece segue a explicação. Feeds são usados para que os usuários possam acompanhar os novos artigos e demais conteúdo de um site ou blog sem que precise visitar em si. No caso do contexto da série a Decima utilizará os Feeds da NSA para o Samaritan possa acessar qualquer lugar possível de acesso em busca informações e dados sem que seja rastreado.

Open System: É importante observar um detalhe crucial sobre o programa Samaritan que foi dito no episódio por Finch. Ao contrário da “machine” que é um sistema fechado e não pode ser alterado evitando que alguém mude sua programação, o Samaritan é um “Open System” ou sistema aberto, ele é um sistema totalmente controlável, os “experts” da Decima podem mudar seu código a todo momento fazendo dele uma ameaça ainda maior. No episódio tivemos uma menção de que a “machine” é um escudo e o Samaritan é uma espada, vamos ver quem vence na disputa da melhor defesa contra o melhor ataque.

Trilha Sonora:

“Para La Habana” by Johannes Linstead (durante a cena entre Root e Shaw em Miami)

– “Medicine” by Daughter (durante a sequência final)

Fusco: Em um episódio tão movimentado não houve espaço para o personagem na trama, ele provavelmente irá retornar no próximo.

Peter Collier: O vilão também não deu as caras, como Fusco ele foi apenas citado assim por causa de Greer agora o senador Ross tem conhecimento de quem está lidando.

“The simple truth is, the people want to be protected, they just don’t want to know how.”(“A simples verdade é, as pessoas querem ser protegidas, elas apenas não querem saber como”): A frase dita por Roger McCourt foi a mesma frase dita por Finch a Reese no piloto da série.

Melhores frases do episódio, top 6:

                – “The Machine is a shield that protects lives.” (“A “machine” é um escudo que protege vidas”) – Finch

                “I think the Machine wants us to kill McCourt.” (“Estou achando que a “machine” quer que nós matemos McCourt”) – Reese para Finch

                “That man not a terrorist, he’s just an opportunistic and corrupt pawn.” (“Aquele homem não é um terrorista, ele é apenas um peão oportunista e corrupto”) – Finch para Reese

                “Isn’t that what we’re doing? Sacrificing the life of one to save the lives of many?” (“E não é isto que estamos fazendo? Sacrificar a vida de um para salvar a vida de muitos?”) – Reese para Finch

                “There are consequences to not acting… (“Há consequências em não agir…”) – Reese para Finch

                “Since we started this, things have changed. We’ve changed. But the mission, our purpose has always been constant: to save lives. If that’s changed somehow, if we’re in a place now where the Machine is asking us to commit murder… that’s a place I can’t go. I’m afraid this is where I get off.” (“Desde de que nós começamos isso, as coisas mudaram. Nós mudamos. Mas a missão, nosso propósito tem sido sempre constante: salvar vidas.  Se isso de alguma forma mudou, e se nós estamos em um lugar aonde a “machine” nos pede para cometer assassinato…este é um lugar que eu não posso ir. Eu tenho receio que aqui é onde eu pulo fora.”) – Finch para Reese

Opinião: E você o que acha? Está do lado de Finch, ou está do lado de Reese? Qual é a sua opinião, eles deveriam ter matado McCourt?

– No próximo episódio a vida de alguém conhecida do público estará em risco, que comece o arco final com três últimos episódios da temporada. Veja a promo e prepare o coração.


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