Review | Person of Interest 3×16: “RAM”

João Paulo

  quarta-feira, 12 de março de 2014

Review | Person of Interest 3×16: “RAM”

Alto, louro, mulherengo, impulsivo e letal, conheça o primeiro “Mr. Reese” do Finch. POI mais uma vez inova (de forma estupenda), mostrando um episódio inteiramente em flashback fazendo uma ponte com toda a mitologia da série desde a primeira temporada

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Ainda estou sem fôlego depois de assistir este episódio, não há dúvidas, quando Person of Interest pisa no acelerador a série mostra o porquê de ser uma das melhores coisas que já aconteceram na TV norte-americana nos últimos anos. O episódio “RAM” vem não só para adicionar mais uma peça importante a já grande mitologia da série, mas também serve para corrigir alguns aspectos da linha do tempo do seriado em relação a eventos importantes como a missão Ordos, além de preparar o expectador para o que está por vir.

Antes de aprofundar nestas questões, é importante ressaltar o foco do episódio, que inova ao se passar todo em flashback em quase 99% da narrativa. Em poucas vezes se viu um formato assim, ao menos em séries de TV, normalmente tramas como essa sempre são intercaladas com os fatos do presente ligados a proposta daquele episódio, mas Person of Interest não é qualquer série, ela não consegue se contentar com o comum e dessa forma temos aqui toda uma trama passada no ano de 2010 logo após os eventos da morte de Ingram, vistos no episódio “God Mode” (2×22) e logo após o breve flashback de Finch visto no episódio “The Devil’s Share” (3×10), aqui descobrimos que Reese não foi o primeiro a ser contratado por Harold, então somos apresentados a Rick Dillinger, o primeiro “man in a suit” ou algo do tipo.

Interpretado pelo ator Neil Jackson (esteve recentemente em Sleepy Hollow, e nas canceladas Make It Or Break It e Flashfoward), o personagem tem até certo carisma, a primeira aparição dele salvando uma vítima de ser morta já dá uma boa impressão de como é sua personalidade, sem falar que de cara vemos como é a relação dele com Finch. O roteiro assinado pela dupla Nic Van Zeebroeck e Michael Soczynski (responsáveis por alguns episódios anteriores principalmente o sensacional “Endgame” (3×08) a primeira parte da trilogia da H.R.), é cirúrgico, a cada momento que conhecemos mais Dillinger, mais nos lembramos de Reese, as comparações são inevitáveis, pois os personagens são completamente opostos, tendo poucas semelhanças.

Rick Dillinger tinha um temperamento explosivo e não gostava de receber ordens, até o jeito de aproximar das vítimas era impulsiva e sem nenhum planejamento, o cara tinha até um humor que lembrava o de Reese, mas ainda assim nada que se compare, a primeira vítima que ele salva é uma mulher, esta que acaba na cama com do dito cujo para o desgosto de Finch. O episódio trabalha muito esta relação entre Rick e Harold, os constantes conflitos, a falta de confiança um no outro (Dillinger não sabe da existência da “machine”) e os segredos, que acabam por serem o fator decisivo para destruir essa parceria que já fadada ao fracasso desde o início.

A verdade é que segredos é o que mais se vê em “RAM”, aqui praticamente todas as cenas tem relevância para a série, todas elas abrem mais perguntas e adicionam mais mistérios, da introdução do POI da vez Daniel Casey, passando pela inserção da CIA e da Decima na narrativa agindo nas sombras para lidar com a questão deste mesmo personagem. Mais uma vez a esperteza do roteiro de Nic e Michael em centralizar o mistério por trás do caso investigado por Finch e Dillinger, foi uma boa tacada. Talvez este seja o caso da semana mais relevante da série até agora, porque as ramificações para história são imensas e cruciais para moldar de forma mais acessível à imensa linha do tempo da série como já tinha sido citado no começo do texto.

Falando mais de Daniel Casey, o personagem era uma espécie de “freenlancer” contratado para quebrar ou invadir sistemas sofisticados para grandes empresas, ele foi contratado pelo governo para hackear um sistema sofisticado do qual não sabia direito do que se tratava. Esse hardware na verdade era “machine” que conhecemos e é ai que tudo começa a fazer sentido, quando em certo ponto do episódio o personagem revela que roubou parte do código do sistema que ele estava tentando quebrar, tem-se ai então a justificativa do porque a vida dele corria tanto perigo e porque diversas pessoas estavam atrás dele.

O incrível de “RAM” é que o episódio carrega vários aspectos que fez outro episódio brilhante ficar marcado na série, que é “Relevance” (2×16). Ambos os episódios trouxeram conceitos novos, ambos os episódios foram inovadores a seu modo, mas no final quem ainda se saiu melhor foi o primeiro citado. Enquanto o episódio focado em Shaw era contado pelo ponto de vista dela e apenas no lado relevante da força por assim dizer, fazendo crossover com o lado irrelevante no decorrer da narrativa basicamente sem a presença de seus protagonistas originais na maior parte do tempo, já o episódio focado em Finch e seu primeiro parceiro utiliza esse conceito de uma forma diferente de uma forma que o foco em Dillinger não cause estranheza ao expectador comum, como aconteceu com Samantha ano passado.

Desse modo, trazer o governo, a CIA e a Decima para dentro da trama e mostrar o ponto de vista deles foi uma atitude inteligente dos roteiristas, primeiro porque com governo foi possível trazer personagens como Control e o falecido Special Counsel interagindo frente-a-frente pela primeira vez e coordenando a operação limpeza do caso Casey de Washington D.C., segundo a Decima liderada por Greer, que aparece pela primeira na história atrás do laptop que tinha o código extraído da “machine”. E por último a CIA, trazendo John e Kara para dentro história, sendo assim ninguém iria ficar se perguntando por que Reese não aparecia na narrativa, como fizeram em “Relevance”.

Já que tocamos nome de Reese e Stanton, devo dizer que adorei terem trazido a personagem de volta ao menos neste flashback, é bom relembrar como a química dela com “man in a suit” é boa, aliás, fico feliz que até os roteiristas reconheceram a relação “Mr e Mrs Smith” do casal, como foi mencionado por Dillinger em determinado momento do episódio. Outro ponto interessante deste episódio é que ele mostra um pouco mais do Reese trabalhando para CIA.

Pode-se notar que o John do passado é bem parecido com fase atual do personagem mostrado no episódio anterior. É fato que Reese não estava satisfeito com a CIA nesta época, ele cumpria sua missão, mas não via aquilo com bons olhos, o que fica claro na cena de tortura protagonizada por Kara, isto vinha na contramão do que ele acreditava e a atitude mostrada no final poupando a vida de Casey, enfatiza que o personagem tem todo um senso de justiça e bondade que fazem dele o herói necessário para a série, algo que Dillinger não teve e algo crucial para que Finch visse nele a chave de uma futura parceria duradoura.

Harold que neste episódio estava em plena recuperação depois do atentado que sofreu, mostrava certa fragilidade, talvez por isso tenha se deixado levar pelo caráter duvidoso de Dillinger, e mesmo traído por ele no final, ainda tinha esperança que o parceiro fosse sensato e não vendesse o laptop de Casey, pois acabaria morto se o fizesse. O maior problema aqui como eu disse, Dillinger além de não ser o parceiro adequado para Finch, tinha um defeito muito grande para ser ignorado e sua ganância foi exatamente sua ruína como ficou claro na sequência final.

Dessa forma pode-se dizer que “RAM” consegue retratar com maestria o começo e o fim da parceria Finch e Dillinger, assim como plantar sementes para uma futura parceria de sucesso entre Finch e Reese. O episódio ainda soube utilizar a mitologia da série de uma forma preencher as lacunas que ainda estavam em aberto, além disso, o roteiro de Nic e Michael trás elementos interessantes a cada cena, seja na forma de diálogos, ou na aparição de personagens que foram ou que ainda são importantes para série, como Shaw, que apareceu no auge do clímax da trama de 2010, numa sequência eletrizante que culminou na morte do primeiro parceiro de Finch e relembrando seus tempos áureos do lado relevante, ou Root que surgiu já em 2014 para ser a peça fundamental nos planos da “machine” na guerra contra Decima tendo a função de recrutar “os necessários”, no caso desta vez de Daniel Casey, que ao que parece terá um função importante assim como Jason Greenfield recrutado no episódio “Mors Praematura” (3×06).

Tecnicamente o episódio foi impecável, a fotografia mais sombria foi importante para aumentar a sensação de perigo, a trilha sonora estava como sempre no tom certo, seja na sonoplastia usada no começo, utilizando a abertura da primeira temporada (excelente sacada) com a narração em off de Finch, seja no clímax que determinou o destino de Rick Dillinger, numa montagem de cenas ágil e bem feita, como é de costume na série.

Sendo assim “RAM” pode ser considerado um deleite visual e narrativo, dirigido de forma magistral pelo diretor Stephen Surjik (“Shadow Box” (2×10) e “The Perfect Mark” (3×07)), o episódio veio para deixar sua marca em POI (além de cravar como um dos melhores da terceira temporada até agora), trazer respostas, levantar mais perguntas e reafirmar mais uma vez o quanto a parceira de Reese e Finch é fundamental para o sucesso da série, nesta narrativa foi mostrado que Harold precisou errar para acertar logo depois, pois se a presença de Rick Dillinger trouxe uma lição para a vida do homem de óculos, foi que segredos e falta de confiança destroem uma relação, assim entendemos o porquê dele ter sido um livro aberto desde o começo com Reese no piloto da série e três temporadas depois ele ainda está colhendo os frutos dessa parceria, que não só revela uma forte amizade da dupla, mas um respeito mútuo.Observações de Interesse:

– RAM: o título significa “Random-Acess Memory” ou “Memória de Acesso Aleatório”, que é uma forma de recuperação de dados de computador e armazenamento onde um dispositivo acessa aleatoriamente os dados armazenados em um disco rígido ou memória flash. Metaforicamente, o título se refere ao conjunto aparentemente aleatório de flashbacks do ponto de vista da “machine”.

Peças do Quebra-Cabeça 1: O laptop que contêm o código da “machine” que Daniel Casey roubou nas instalações do governo, é o mesmo laptop que Kara e John recuperaram em Ordos, China. Interessante que no episódio “Matsya Nyaya” (1×20), eles não se lembram de terem visto o objeto antes neste episódio “RAM”, exatamente porque o alvo dos dois era Casey e sem falar que não tiveram contato com o equipamento em 2010.

Peças do Quebra-Cabeça 2: A brilhante sequência final com a conversa entre Control e Special Counsel, dá ênfase a missão Ordos e a queima de arquivo introduzida para punir John e Kara por terem perdido o laptop. O legal dessa sequência e de outra no episódio é ver um pouco da relação entre esses dois poderosos de Washington, sem falar que é ótimo ver Jay O. Sanders e Camryn Manheim travando ótimos diálogos, inclusive aquele em que o primeiro demonstra descontentamento por terem se livrado de Ingram tão cedo.

Peças do Quebra-Cabeça 3: Este episódio marca a primeira aparição da Decima no passado, sem falar que aqui é a primeira vez que vemos o nome de Greer sendo citado por alguém. Outra curiosidade é saber que o fato da Kara ter eliminado os agentes dele, colocou ela no radar do chefão da Decima, que justifica ele recrutando a agente no flashback do episódio “Prisoner’s Dilemma” (2×13).

Peças do Quebra-Cabeça 4: A cena que o Finch está mexendo no laptop de Casey na biblioteca, era o momento em que ele aproveitou para colocar o vírus no código, prevendo que laptop não ficaria em sua posse por muito tempo, o código foi usado pela Decima na segunda temporada e foi responsável por dar a liberdade a “machine” no episódio “God Mode”.

Necessários: Já sabemos que todos os membros de grupo são hackers e tiveram contato com a “machine” (e levados para Cartegena, Colômbia) ou alguém ligado a ela, é um dos padrões para ser recrutado, sem falar que todos tem uma especialidade diferente, até agora Root, Jason Greenfield e Daniel Casey, são os únicos desse grupo, que provavelmente irá aumentar nos próximos episódios.

Cal Poly: Esse apelido chamou atenção de Finch em relação a Casey, é um termo usado por alunos que cursaram ciência da computação na Universidade Politécnica do Estado da Califórnia (California State Polythenic University).

Fusco: Infelizmente não senti falta do detetive neste episódio, as tramas estavam tão agitadas e intrigantes, que realmente não havia espaço para ele na história.

Reese x Dillinger: O episódio mostra a que veio quando testemunhamos uma cena de ação ótima entre o “man in a suit” atual contra antigo “man in a suit”, e sabemos quem levou a melhor, se você não se lembra, dê uma olhada nesta cena, pena que os agentes da Decima atrapalharam o final da disputa para sorte de Dillinger.

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Reese e Kara: Adoro ver essa dupla junta, seja trocando diálogos afiados, seja em cenas de ação como esta.

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Trilha Sonora: A música que toca no final se chama “I Might Be Wrong – Radiohead”

Flashfoward?: Não sei se você reparou, mas a cena com Root e Casey no final se passa no dia 25 de Fevereiro, duas semanas a frente, o novo episódio da série vai ao ar semana que vem, então vale ficar de olho na data do mesmo para saber se vimos um deslumbre do futuro naquela cena final de “RAM”.

Melhores Frase do Episódio, top 6:

“It’s not good for you to be in here all day by yourself, Harold. Ever think about getting a dog?” (“Não é bom para você ficar aqui todo dia sozinho, Harold. Já pensou em ter o cachorro?”) – Dillinger (Bear curtiu isso) para Finch

                – “But they don’t have the “Finchinator” on their side working his hacker mojo.”(“Mas eles não tem o “Finchinator” do lado deles trabalhando seu hacker mojo”) – Dillinger para Finch

                – “I’m not ready to see you in a Speedo.” (“Eu não estou pronto para ver você numa Speedo”) – Kara para Reese

                – “Nathan Ingram outlived his usefulness and he was dealt with accordingly. You might consider him a cautionary tale.” (“Nathan Ingram sobreviveu à utilidade e ele foi tratado com conformidade. Você pode considerá-lo um conto de advertência”) – Control para Special Counsel

                – “You knew I was a shark when you hired me. Don’t be surprised when you smell blood in the water.” (“Você sabia que eu era um tubarão quando você me contratou. Não fique surpreso quando você sentir cheiro de sangue na água”) – Dillinger para Finch

                – “Didn’t anyone ever tell you it’s not safe to be in the park at night.” (“Ninguém nunca te disse que não é seguro estar num parque a noite.”) – Shaw para Dillinger

– Person of Interest volta com episódios inéditos a partir de 18 de março.


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