Review | Person of Interest 3×10: “The Devil’s Share”

João Paulo

  terça-feira, 03 de dezembro de 2013

Review | Person of Interest 3×10: “The Devil’s Share”

JUSTIÇA! O fim do épico arco que deu uma conclusão definitiva para H.R. vem carregado de emoção, luto, desejo de vingança e mostra como o “team machine” honrou a memória da detetive Carter.

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Magnífico, uma palavra define bem o sentimento deste episódio que encerra a trilogia sobre a queda da H.R., que não foi tão intenso quanto “The Crossing”, mas conseguiu ser tão profundo quanto anterior e ganhou pontos por empregar uma característica psicológica e complexa aos personagens e como os mesmos tratam um dos momentos mais difíceis da vida humana, o luto.

Não é normal uma pessoa que escreve review só elogiar, mas “The Devil’s Share” é tão poderoso em sua essência que não falar bem seria um crime contra o entretenimento de qualidade. Sendo assim essa análise começa falando da cena de abertura do episódio, não sei de vocês, mas eu nunca vi uma cena inicial tão poética, melancólica e emocional quanto essa em muito tempo assistindo séries de TV, acho que porque não teve, pelo menos não desta forma, só vi algo parecido em filmes.

Toda a montagem de cinco minutos funciona como um miniclipe e tem uma carga dramática muito grande, pois expõe não só pela dor relacionado ao que estamos sentido pela perda de Joss Carter, mas mostra toda reação dos outros personagens a morte da detetive, tudo demonstrado por expressões que vão de ódio, indignação, dor e revolta; tudo isto é potencializado pelo som “Hurt” tocando ao fundo dando ritmo as cenas em uma versão cortar o coração na voz do lendário Johnny Cash.

Esta sequência tem uma grandiosidade técnica e narrativa espetacular, porque não temos um diálogo sequer no decorrer das cenas que começam com Reese na cama em estado grave, passando pelo funeral de Carter, até chegarmos ao começo da vingança de John ajudado por Shaw a localizar Simmons (seu número foi expelido pela “machine”). Ao final dessa passagem de tempo a sensação é de que passou um rolo compressor tamanha intensidade das cenas, mérito do diretor Chris Fisher e dos responsáveis pela edição e trilha sonora.

Falando no diretor ele fez um trabalho primoroso, mas deixaremos para citá-lo de novo mais tarde em uma sequência com Reese. Uma das características positivas deste episódio é não se enveredar apenas pela vingança sangrenta de John, mas aproveitar a oportunidade para explorar todos os membros do “team machine”. O roteiro assinado por Jonathan Nolan e Amanda Segel é cheio de camadas e consegue dar uma humanidade aos personagens através do flashback de cada um abordando um momento específico que reflete a personalidade de ambos, tal fato complementa diretamente o presente momento e como cada um lida com sentimento de perda.

Como Finch, seu flashback se passa em 2010, logo após os acontecimentos que levaram a morte de Ingram, o personagem não sabia como lidar com luto naquela época, mas apesar do que sua terapeuta pensava, ele não fez nada mais do que refletir sobre acontecido e usar aquilo para mudar suas atitudes e honrar a memória do amigo, assumindo seu legado de salvar vidas irrelevantes. No presente o personagem consegue dentre os membros da equipe ser o mais racional, talvez por isto sua atitude em soltar Root do cativeiro depois da insistência de Shaw não seja tão estranha assim, afinal à perda de Carter causou um impacto muito grande e Harold sabia que precisaria de toda ajuda possível para salvar Reese dele mesmo no intuito de evitar uma nova perda dentro do grupo.

No caso do flashback da Shaw, apesar de sua história não estar inteiramente ligada à trama principal, foi importante para continuar a moldar a personagem, processo que começou em “Relevance” (2×16), passando por “Razgovor” (3×05) e agora adiciona uma peça no passado dela antes de se tornar a máquina de matar que nós conhecemos.  A surpresa aqui fica por conta do fato dela ter sido uma médica e só foi dispensada por não saber lidar com seus pacientes emocionalmente. Esta história reflete no presente, pois além de Finch, Shaw é outra que consegue lidar com a situação do luto sem perder a razão completamente (apesar de apoiar a vingança do Reese), sendo ela uma das peças relevantes para ajudar Harold a localizar o Mr. Reese.

Vale ressaltar aqui o quanto o roteiro é esperto em investir numa trama e nas entrelinhas consegue ainda trabalhar a dinâmica do “team machine”. Outra qualidade é o equilíbrio entre os membros da equipe, se Finch e Shaw conseguem lidar melhor com luto, o mesmo não se pode dizer de Reese e Fusco, apesar deste último surpreender pela atitude tomada no final do episódio.

O título “The Devil’s Share” é uma expressão que se refere à parte do comportamento humano que nos permite fazer crueldades com outra pessoa, ainda em complemento a esta frase, a ação se refere a nosso lado sombrio e nossa habilidade de agir sem consciência. Toda essa explicação se refere exatamente a dois personagens especificamente e talvez os únicos capazes de matar Simmons através de tudo que foi mostrado no episódio, Reese e Fusco.

Para este dois a vingança era uma espécie de tentação, o único alento para sufocar o luto tão recente que estavam enfrentando. Talvez Reese seja a verdadeira representação física do que é a expressão “The Devil’s Share”, o roteiro basicamente gira em torno do personagem, mas sem deixar de dar atenção ao resto da equipe. Ainda assim a jornada de vingança de John é sentida por todos, como uma força da natureza deixando rastros de destruição por onde passava e movido por pura emoção, ele tinha apenas uma missão, localizar e matar Simmons.

O flashback dele no passado foi cirúrgico para mostrar como Reese sabe controlar suas emoções, o interrogatório dele foi o único a ter uma reviravolta, com o interrogado virando o interrogador. Em contraponto ao presente John estava apresentando uma instabilidade autodestrutiva, ferido tanto fisicamente e mentalmente, não sendo capaz de controlar exatamente suas emoções ou ações. Devo dizer que Jim Caviezel estava excelente, o ator conseguiu passar muito bem através de suas expressões a dor que o personagem sentia, algo compartilhado por milhares fãs que sofreram com a morte da detetive Carter.

Particularmente eu gostei da decisão dos roteiristas de não torna o personagem uma espécie de anti-herói, seria algo muito radical, mesmo depois da perda sofrida no último episódio. Reese ainda teve tempo de mostrar o quanto badass ele é mesmo ferido, seja na cena em que bate o caminhão contra o carro de alguns bandidos, seja na cena em que invade um prédio protegido pelos agentes federais que mantinham Quinn prisioneiro. Aliás, que cena, aqui o diretor Chris Fisher apresentou um dos seus melhores momentos, perdendo apenas para aquele início avassalador, toda a ação lembra um pouco da sequência final do excepcional filme “A Hora Mais Escura” (Zero Dark Thirty), a luminosidade obscura, a fotografia claustrofóbica, a câmera de mão bem próxima aos atores e tudo orquestrado por uma montagem rápida e uma trilha sonora estilosa, trabalho acima da média.

Tudo isto no intuito de chegar até Quinn(o único que sabia o paradeiro de Simmons), essa cena em questão foi bem tensa, pois trás a tona toda a questão que representava o episódio, Reese tinha dois caminhos e se matasse o chefão da H.R. o personagem se perderia por completo, a figura do “man in the suit” que salva pessoas em Nova York ficaria manchada. É ai que entra o Finch como a parte consciente do grupo, trazendo à tona toda a justiça que Carter representou no momento em que ele iria puxar o gatilho (ok o destino também ajudou quando a arma falhou), foi providencial, pois a melhor coisa que os que eles podem fazer agora para superar isto é honrar a memória da detetive salvando vidas.

É importante perceber o quanto a influência da Carter está presente no episódio, se lembrar dela foi crucial para salvar Reese do caminho que estava seguindo, o maior legado que a detetive deixou teve como maior representante o detetive Fusco. O ator Kevin Chapman evoluiu tanto nestes dois últimos episódios que dá gosto de vê-lo atuando, isto também se reflete em Fusco que continua sendo alívio cômico (a cena entre a Root e ele foi hilária), mas agora com alguma profundidade o que torna o personagem mais humano.

De todos os flashbacks o dele foi o melhor, Fusco fez jus a expressão “The Devil’s Share” no passado quando se vingou de criminoso que havia matado um novato da polícia de Nova York, provavelmente esse lado sombrio se deve ao efeito colateral dos tempos de H.R. No presente pegar o caminho onde Reese parou e conseguir chegar até Simmons deu a chance de o personagem continuar a vingança do amigo, mas é ai que a escrita esperta de J. Nolan e Amanda Segel se faz presente novamente, mostrando que Fusco é mais do que foi mostrado em seu flashback, graças a Carter ele se tornou uma pessoa melhor, uma pessoa mudada e com senso de justiça. Uma bela opção, melhor do que fazê-lo um assassino, sem falar que antes disso numa cena mais canastrona possível o personagem ainda teve a chance de bater no vilão antes de prendê-lo.

Mais do que a decadência e a queda da H.R., o episódio representou o fim da organização como um todo, dessa forma a caçada ao Simmons protagonizada por Reese, mas que levou a polícia, os russos, e o FBI a seu encalço também significava o fim de um ciclo, então enquanto o braço direito de Quinn não caísse nada estaria resolvido. O vilão sendo preso pelas mãos de Fusco representou a justiça dentro da lei (civilizados), mas o oficial ainda precisava enfrentar a chamada lei dos homens (não-civilizados) representado pela figura de Elias.

Um episódio tão importante quanto este não estaria completo se o mafioso não aparecesse para prestar sua homenagem a Carter, algo que eu havia comentado na review anterior realmente aconteceu, a reação a morte da detetive não poderia ter desfecho melhor. Enrico Collatoni foi sensacional e ajudado por um diálogo afiado e filosófico decretou a morte Simmons pelas mãos de seu comparsa Scarface e assim sacramentou-se o fim da facção criminosa H.R.

Portanto chegamos à conclusão que “The Devil’s Share” encerra este arco de forma brilhante, com um episódio acachapante cheio de tensão e muito sombrio até para os padrões de Person of Interest. O roteiro, direção, produção e atuações foram as melhores da série até agora, basicamente tudo estava em sintonia funcionando corretamente. A última cena do episódio faz contra ponto exatamente com seu começo mostrando um monitor cardíaco pulsando e termina com ele sinalizando morte, desta forma temos uma sensação de desfecho, acredito que o espírito de Carter pode descansar em paz agora, pois sua memória honrada com fim de Simmons e a prisão de Quinn, isto também significa que o “team machine” pode seguir em frente, pois de acordo com Root grandes ameaças estão por vir, muitas vidas ainda estarão em perigo e precisam ser salvas, pois, os vilões nunca descansam.

Observações de Interesse:

– Root: Eu não me esqueci de comentar sobre da nossa hacker preferida, ela foi importante para o episódio. Finch deixando que ela se reconectasse com a “machine” foi crucial para o que a equipe localiza-se Reese antes dele tentar matar Quinn, os acessos que ela possui e poder cognição que a criação de Finch fornece para ela a cada episódio impressionam mais. Destaque para a cena em que ela derruba vários mafiosos russos sem matar nenhum apenas atirando com precisão (“That’s kinda hot” como a Shaw disse).

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Trilha Sonora: Vale elogiar o compositor da trilha sonora da série Ramin Djawadi, o cara foi muito feliz na escolha das músicas que encaixaram como uma luva no contexto da narrativa.

                 1 – “Hurt” por Johnny Cash

                2 – “Miami Showdown” por Digitalism

                3 – “Color In Your Hands” por D.L.I.D. feat Fink

Teorias & Curiosidades: Durante o episódio em duas cenas entre Harold e Root, ela estava segurando dois livros que talvez possam significar uma dica do que está por vir na série.

1 – THE YEAR OF THE BARRICADES: A Journey Through 1968 por David. Caute

                2 – FREEDOM por William Safire

Obs: O primeiro livro fala sobre os diversos conflitos que ocorreram no ano de 1968, nos EUA (protesto pelos direitos Civis) e em alguns países do mundo (marcado por protestos, surgimento de ditaduras e conflitos revolucionários). O segundo livro fala sobre os primeiros anos da guerra civil americana inclusive a parte que fala sobre a proclamação de emancipação de 1863. Ambos os livros falam sobre revolução e conflitos, então tudo leva a crer que a grande ameaça pode ser Peter Collier e seu grupo de vigilantes.

– Momento Reese:

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– Melhores frase do episódio top 5:

1 – “Tell me why we’re listening to the crazy chick who kidnapped Glasses.” (“Me diga porque estamos escutando a garota louca que sequestrou o quarto olhos”) – Fusco para Shaw

2 – “I’m not gonna threaten to kill you. I’m going to kill you…” (“Eu não vou ameaçar matar você. Eu vou matar você….”) – Reese para Quinn

3 – “The Machine never said Reese was the only one planning to kill Simmons.” (“A máquina nunca disse que Reese era o único planejando matar Simmons”) – Root para Finch

4 – “Carter saved my life. She saved me from myself….because she believed in me.”(“Carter salvou minha vida. Ela me salvou de mim mesmo….porque ela acreditou em mim”) – Fusco para Simmons

5 – “No, my friend is going to kill you. I’m just going to watch.” (“Não, meu amigo vai matar você. Eu apenas vou assistir”) – Elias para Simmons

– Chega de ler, eu sei que você ainda está pensando naquela cena de abertura maravilhosa, então segue o link abaixo.

– Person of Interest volta dia 17 de dezembro para o último episódio do ano. Até lá então.


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