Primeiras Impressões – Gotham

Leandro de Barros

  quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Primeiras Impressões – Gotham

Série tem boas virtudes e um universo rico. Numa primeira vista, parece entender isso e saber como agir.

A Fox exibiu nessa semana nos EUA o primeiro episódio de Gotham, série de TV protagonizada pelo Comissário Gordon no começo da sua carreira.

Apesar de não termos a intenção de fazer uma review de CADA episódio da série, um primeiras impressões vem bem a calhar sobre uma das séries que pretende protagonizar uma onda de programas de TV baseados em quadrinhos de super-heróis.

Então, vamos lá comentar esse primeiro episódio (lembrando que teremos spoilers!).

gotham poster

Nesse primeiro episódio de Gotham, a gente acompanha o caso policial mais famoso da história da cidade: o assassinato de Thomas e Martha Wayne, que resultou no pequeno Bruce Wayne se tornando um órfão – incidente que eventualmente o motivaria a se tornar o Batman.

Coincidentemente, o assassinato acontece no começo da carreira do jovem detetive Jim Gordon (Ben McKenzie) e se torna o primeiro caso do policial enquanto detetive. As coisas complicam um pouco porque seu parceiro, o detetive Harley Bullock (Donal Logue), não compartilha da mesma integridade que Gordon e possui conexões com a máfia comandada por Carmine Falcone (John Doman) e representada aqui pela perigosa Fish Mooney (Jada Pinkett Smith).

Esse episódio piloto basicamente gira ao redor da investigação do assassinato dos Wayne e nas consequências por trás dessa investigação. Fish Mooney acaba incriminando o pai da Hera Venenosa (Clare Foley) e o cara leva a culpa do crime, mas Gordon sabe da verdade e promete continuar investigando para saber quem foi o assassino dos Wayne.

gotham 4E é justamente essa conspiração a primeira grande mudança de Gotham em relação aos quadrinhos. Se o fato dos pais de Bruce Wayne terem sido assassinados por um calhorda qualquer sempre foi um toque interessante na origem do Batman, porque simbolizava o fato de que tinha sido o “crime” personificado num qualquer que tinha tirado a vida dos seus pais – e, portanto, o inimigo a se combater era algo abstrato e não uma pessoa em si – a presença de uma conspiração mafiosa definitivamente tira esse ponto da história, mas adiciona um fio condutor pra série que é interessante por ser algo protagonizado pelo Gordon e não pelo jovem Bruce.

Originalmente, a série foi anunciada como histórias do departamento de polícia de Gotham, mas quando foi revelado que Bruce Wayne e vários vilões do Batman apareceriam na série, muita gente se preocupou que Gotham talvez fosse “a Smallville do Batman”. Por esse piloto, não é nada disso – embora tenha ficado claro que Bruce Wayne e a jovem Selina Kyle terão um papel bem relevante na série nos próximos episódios.

Enquanto “série do Gordon”, Gotham tem algumas virtudes bem legais. Por exemplo, eles aproveitam todo o rico universo criminoso de Gotham e do departamento de polícia de lá e invocam um clima de “falso-noir” bem interessante. Basicamente, a Gotham da série poderia ser muito bem confundida com uma Nova Iorque dos anos 20, 30, mas o seriado acerta a não marcar nenhum período temporal ali, permitindo que celulares, câmeras digitais e outras coisas existam. Isso resulta em recursos de iluminação, fotografia e design de produções sendo investidos na ideia de contar uma história esteticamente noir – mas então surgem filtros “quadrinescos”, que aliviam a série e a deixam mais “palatável”.

Por exemplo, em certo momento, Gordon e Bullock interrogam vários criminosos em busca da identidade do assassino dos Wayne. É uma montagem relativamente rápida, só pra mostrar que ninguém nas ruas sabe quem é o criminoso. Essa montagem é feita numa sala aparentemente subterrânea, com apenas uma lâmpada balançando no teto. A lâmpada se mexe, então ela ilumina um criminoso, ilumina Gordon, volta e já é outro criminoso e então ilumina Bullock – e segue pra outro criminoso, de novo no Gordon e por aí vai, mudando o interrogado a cada movimento pendular da lâmpada. É uma montagem bem legal e que foi muito fácil de imaginá-la numa página em quadrinhos com cada rosto num quadro.

Além disso, o piloto ainda mostrou uma visão bem legal dos personagens da DC. A Selina Kyle sempre de olho no que está acontecendo ao fundo (com seu “uniforme” bem estiloso), a implicação de um relacionamento amoroso entre Montoya e Barbara, a criação de Gotham como uma cidade muito frutífera para empreendimentos criminosos… enfim, foi uma boa criação de um universo que nem sempre encontrou seu caminho na hora de ir pros cinemas.

Apesar de funcionar de maneira interessante como série policial e ter algumas virtudes que a separam do padrão do gênero, Gotham mostrou alguns defeitos também. Uma coisa que irrita um pouco é a necessidade de cada cena ter uma ligação com o universo dos quadrinhos da DC – mas isso é compreensível porque todos os pilotos de séries precisam colocar tudo de mais legal junto pra conseguir aprovação. O problema é que em alguns casos fica um pouco demais – exemplo: o Charada aparece aqui no papel de um legista que é consultado por Gordon e Bullock. A cena até é legal, mas o cara literalmente não consegue começar uma frase não seja uma charada; ele realmente não consegue manter uma conversa sem que cada frase que diga seja uma charada. Do ponto de vista técnico, é fácil entender a situação: os roteiristas precisam mostrar que 1) ele é assim; 2) ele é assim há muito tempo; 3) o Gordon é inteligente o suficiente pra decifrar as charadas dele; 4) ele é o Charada dos quadrinhos! Olhem! Do ponto de vista do expectador, fica um pouco chato.

Fora isso, a série sofre um pouco com atores não-tão-talentosos assim. Ben McKenzie não é ruim, mas não parece muito confortável no personagem ainda. O que complica mais, porém, são algumas das coadjuvantes – a cena da conversa entre Montoya e Barbara é tão sofrível (as duas simplesmente ficam paradas frente a frente com os braços do lado do corpo!) que dói um pouco de ver.

Enfim, pra concluir, o piloto de Gotham deu a impressão de uma série que sabe que tem um material bem rico nas mãos e que realmente tem algumas boas virtudes pra apresentar. Tem sim seus defeitos, a maioria deles fruto dos poucos recursos para um piloto (por exemplo, ninguém na produção reparou que Selina Kyle rouba uma garrafa de leite cheia, mas a garrafa já está vazia quando vai alimentar os gatos na rua), mas não é nada que vá te impedir de curtir o programa. Por exemplo, em termos de piloto, Gotham teve um mais legal que Arrow – e Arrow se tornou uma das séries mais maneiras da TV aberta nos EUA!

Se você é do tipo que gosta de uma série de “caso da semana” e também curte quadrinhos, Gotham parece ter tudo pra se tornar sua nova série favorita. Pra quem não gosta de um dos dois pontos, ainda assim parece um programa interessante.

No fim, aprovada!

No fim, aprovada!


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