Person of Interest: Um textão sem spoilers
Regina Umezaki

Regina Umezaki
@reginaumezaki

  sexta-feira, 01 de julho de 2016

Person of Interest: Um textão sem spoilers

Um convite para quem ainda não viu Person of Interest

Na última terça-feira (21/06/2016) foi ao ar o derradeiro episódio de Person of Interest, série criada por Jonathan Nolan e J.J. Abrams e protagonizada por Michael Emerson (Lost) e Jim Caviezel (Paixão de Cristo).  Você pode ver as reviews semanais COM SPOILER escritas pelo João aqui no site. Esse texto, no entanto, é uma apresentação e um convite para quem ainda não viu, limpinha, cheirosa (e sem revelações do enredo) e cheia de amor.

Do que fala Person of Interest?

Person of Interest fala sobre muitas coisas, mas vamos por partes. Começa num vagão de metrô, onde uma gangue tenta agredir um aparente morador de rua, mas falha miseravelmente e acabam todos detidos pela polícia. O morador de rua, depois de liberado, é abordado por um homem misterioso que lhe oferece um emprego, afirmando que ele não precisa apenas de um emprego, mas de um propósito.

John, o ex-morador de rua que na verdade é também um ex-militar, e Finch, o homem misterioso que é na verdade ainda mais misterioso do que parece inicialmente, passam a atuar juntos na prevenção de crimes envolvendo pessoas consideradas ‘irrelevantes’ de acordo com um conjunto de regras pré-concebidas que são explicadas ao espectador com o passar dos episódios e, conforme o enredo se desenvolve, o que inicialmente parecia ser mais uma série procedural com “casos da semana” e muita chutação de bundas evolui para um drama de ficção especulativa cheio de ação e personagens marcantes. Apesar de ter um underline muito forte de tecnologia com questionamentos bastante incisivos ao balanço entre segurança e privacidade na era digital, a série consegue se manter intrinsecamente humana, garantindo personagens bem construídos e de evolução consistente.

Acima de tudo, Person of Interest é uma série sobre pessoas.

Acho importante frisar que mesmo tratando-se de uma série com alicerces tecnológicos que funciona a base de muito hacking e cracking de informações de todos os tipos, PoI permanece com um foco muito sensível no fator humano. Cada caso precisa ser estudado cuidadosamente antes da intervenção de John, uma vez que Finch recebe uma única informação sobre cada pessoa que eles devem observar: O número de seguro social. Esse dado não determina se a pessoa é o mocinho, o vilão ou a vítima, apenas que ela está envolvida em algo que tem potencial para causar fatalidades. No fim das contas, quem define como e quando ocorrem intervenções são eles mesmos, humanos tão passíveis de falha e de tirar conclusões erradas quanto os números investigados.

Além disso, os próprios protagonistas são colocados sob escrutínio de tempos em tempos, através de cenas de seus passados, identidades que já assumiram e pessoas com quem já se relacionaram, revelando aos poucos como cada um se tornou quem é. E a série definitivamente conta com alguns dos melhores personagens, dando camadas e camadas de história e personalidade para cada um deles, tornando simpáticos até mesmo os vilões. Aliás, a abordagem da “vilania” é um ponto forte da série: Em PoI não observamos pessoas odiáveis fazendo coisas ruins, e sim seres humanos (e até mesmo seres artificiais) com objetivos que só podiam ser alcançados através de decisões moralmente ambíguas, ou pessoas que se viram encurraladas num caminho obscuro por conta de um erro não necessariamente planejado, mas imperdoável. A série não apresenta visões maniqueístas para o espectador, preferindo ao invés disso dar a ele personagens que agem com base em suas experiências e aspirações, não em pura maldade.

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Aliás, vamos falar um pouco mais dos personagens.

Como apontado agora há pouco, Person of Interest consegue humanizar seus vilões muito bem, mas além disso, ela humaniza também seus heróis. Fica claro desde o início da série que John e Finch são homens que querem fazer o bem, mas que não são necessariamente bons; Além deles, vemos vários arcos de decadência e redenção de personagens que estão “do lado certo”. Entre os mais importantes dos “bons” e dos “ruins” temos Carter, uma detetive incorruptível que passa por períodos de sabotagem e eventualmente caminha numa linha tênue entre buscar justiça e vingança; Fusco, um detetive corrupto que já passou muitas linhas e precisa reavaliar a vida inteira, pesando prós, contras, seus deveres profissionais e a própria moral; Elias, um dos senhores do crime da série, com seu código moral peculiar; Root, uma hacker/cracker de moral dúbia e missão pessoal que tenta a todo custo alcançar a fonte de informações de Finch e John, indo a extremos para tal; e Shaw, uma agente governamental de personalidade similar à de John, mas com um raciocínio um tanto menos emotivo e, consequentemente, menos empático e mais passível de seguir regras sem questioná-las.

Obviamente, apesar de esses serem alguns dos personagens mais interessantes, há vários outros que são relevantes e é exatamente a interação entre tantas pessoas com qualidades e defeitos bem trabalhados que torna a série um caso à parte. Os tons de cinza dão uma qualidade muito única, uma densidade particular que só poderia ser atingida por estes personagens neste contexto.

E, incrivelmente, até os personagens não humanos são maravilhosos.

Person of Interest conta com uma gama imensa de personagens interessantes, desde os heróis até os vilões; No entanto, destacam-se entre eles as inteligências artificiais. Criadas com objetivo de guardar a humanidade, seus propósitos são, inicialmente, observar, intervindo apenas em casos de risco iminente. No entanto, ao longo das temporadas, principalmente da metade para o final da série, elas mostram personalidades distintas, um fator que as torna personagens tão relevantes e emocionalmente significantes para o espectador quanto todos os outros.

E por fim, após cinco temporadas, chegamos ao fim.

Como já foi dito no início desse ~~textão~~, a série já chegou ao fim. Após cinco temporadas cheias de números, tecnologias skynet-ianas, joelhos estourados, ternos rasgados, ferimentos a bala e reviravoltas dramáticas, Person of Interest encerrou-se conseguindo evitar a dor de um cancelamento com cliffhanger, dando um final para a história, mostrando um pouco do destino de seus personagens e das consequências dos acontecimentos que acompanhamos nos últimos cinco anos. E, assim como terminou a série, terminam aqui minhas divagações sobre ela.

Para você que esteve nessa jornada e também chegou ao fim, obrigada pela companhia. Para você que está chegando agora, seja bem vindo, e saiba que vítima ou perpetrador, se seu número vier à tona, nós vamos encontrá-lo.


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