Gracepoint – Primeiras Impressões

Pedro Luiz

  quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Gracepoint – Primeiras Impressões

A FOX traz para o público americano o remake da aclamada Broadchurch. E o resultado inicial se mostra bastante promissor, com um misto positivo de esmero técnico e boas atuações.

Num passado recente, a TV americana era vista como uma divisão inferior. É interessante perceber a migração do dinheiro e do talento, que antes se restringia ao cinema. As muito bem produzidas True Detective e Game of Thrones reforçam a ideia de uma TV americana muito mais desenvolvida, não só do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista financeiro e popular – pois a audiência americana abraçou a ideia. Esse fenômeno impulsionou, também, uma leva de remakes voltados para o grande público norte-americano – The Office, House of Cards, etc –, que insiste em consumir somente aquilo que é produzido no país. Assim nasceu a grata surpresa da FOX, Gracepoint (2014 – ): uma adaptação americana de um material original inglês, de orçamento gordo e esmero acima da média.

A original Broadchurch (2013 – ) é o roteiro do remake americano. Sucesso de crítica e audiência britânicas, a série original poderia ter seus direitos comprados para que os EUA pudessem tê-la na íntegra. Mas, espere aí. Porque não montar um casting americano, com locais americanos e deixa-la completamente americana para que o público americano tenha mais facilidade para compreender? A FOX seguiu essa linha e produziu uma temporada de dez episódios.

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A história é a mesma da série britânica (que não vi): Gracepoint é uma cidade pequena e simples, com pessoas simples. Numa manhã atípica, o corpo de Danny Solano, de 12 anos, aparece sem vida próximo ao mar que banha a cidade. O recém contratado Emmett Carver e a local Ellie Miller, ambos do departamento de polícia, ficam encarregados de descobrir o autor do crime. A tranquilidade e o estilo de vida pacato de Gracepoint acaba ameaçado por investigações e mistérios. O criador da série original, Chris Chibnall, também encabeça o roteiro da adaptação. Um dos diretores da série original, James Strong, também dirige o piloto americano.

Dois fatores fundamentais definem os primeiros episódios dessa série novata. O primeiro é a atuação dos bons nomes escolhidos para o elenco. Temos Anna Gunn (de Breaking Bad) como a detetive Ellie Miller, uma mulher de meia idade com a carreira estagnada. Como se não bastasse, o melhor amigo de seu filho é assassinado. A carga dramática necessária para que a personagem convença está toda ali, logo no piloto. Ao seu lado temos David Tennant como o detetive recém contratado, que traz a experiência de um policial de cidade grande. O ar misterioso que paira sobre a origem de sua transferência, além da frieza com que trata dos assuntos da morte do garoto, o tornam complexo o bastante para aguçar a curiosidade do espectador.

O veterano Nick Nolte também está presente. Seu personagem é um senhor que toma conta de caiaques nas docas. Não houve tempo de tela para que esse subestimado ator mostrasse serviço, mas tenho a certeza de que o veremos mais detalhadamente no decorrer da temporada. Afinal, seu personagem também é um suspeito da morte da criança.

O segundo ponto crucial para o sucesso prévio da série é o esmero técnico. No começo do texto citei os investimentos que as séries de TV vêm recebendo. E isso é nítido nos primeiros minutos de piloto, quando um longo plano sequência apresenta um personagem importante. Ou com os travellings que acompanham a mãe de Danny enquanto ela anda e corre atrás de seu filho desaparecido. Enquadramentos mais ousados quando determinada sensação precisa ser transportada ao espectador. Câmera tremida quando há inquietação, desespero. E, sim, até slow motion, quando algo precisa ser contemplado. Destaque, mais uma vez, para a mãe de Danny durante o engarrafamento.

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Parece não haver conservadorismo nos enquadramentos e na maneira de filmar. E a ênfase dada a determinada cena é muito positiva. Isso dá a série uma identidade própria, que à distancia da grande maioria das produções que estrearam nos últimos dois meses.

Ainda que a história se apoie no batido esquema do ‘’quem matou fulano?’’, a sina do ‘’caso da semana’’ é deixada de lado. E isso é um grande ponto para o fã de seriados, já que, ao final da temporada, o sentimento que permanece é o de uma história longa contada com intervalos. A progressão no ato de contar uma história é bastante importante, e a série parece entender isso.

O futuro de Gracepoint é bastante promissor. Esperarei ansiosamente pelo próximo episódio, afinal, não tenho a menor ideia de quem pode ter cometido o crime. Maldita série clichê, mal posso ver seus movimentos!


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