Crítica Desventuras Em Série – 1° Temporada

Com muita excentricidade, humor requintado, boas atuações e uma bela produção de arte, a série tem tudo para agradar os fãs e os iniciantes na saga escrita por Lemony Snicket.

João Paulo

  terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A quase 12 anos atrás, chegava ao cinema a adaptação de um dos maiores sucessos literários da história. “Lemony Snicket’s A Series Of Unfortunate Events”, aqui no Brasil conhecido como Desventuras Em Série, estreava na tela grande cercado de promessas embalados pelos sucessos das franquias O Senhor dos Anéis e Harry Potter.

Com um elenco de estrelas liderado por Jim Carrey e Meryl Streep, o longa foi dirigido por Brad Silberling (Cidade dos Anjos) e produzido por Barry Sonnefield (diretor da trilogia MIB – Homens de Preto), a adaptação que cobriria os três primeiros livros de um total de treze publicados, estreou com potencial de se tornar uma nova franquia de sucesso.

A recepção do longa foi boa entre os críticos com elogios ao elenco e a direção de arte, porém em relação ao público, o filme não causou o burburinho almejado amargando uma bilheteria baixa de US$ 118 milhões de dólares nos EUA e mais US$ 91 milhões no resto do mundo, totalizando US$ 209 milhões no geral, valor bem aquém do esperado ainda mais com um pomposo orçamento que chegava aos US$ 140 milhões sem contar o marketing.

Apesar de ter suas qualidades e ainda ter faturado um oscar (Melhor Maquiagem), o longa não gerou renda suficiente que garantisse uma sequência dando fim ao que seria o início de uma grande franquia. Eis que anos depois do lançamento do filme original, a saga dos irmãos Baudelaire ganharam uma nova chance de ser contada através de outra mídia no formato de série produzida pelo fenômeno dos streaming Netflix.

Sobre a batuta de Barry Sonnefield produtor do longa original, que volta aqui como um dos showrunner da série ao lado de Mark Hudis com a maioria dos roteiros escritos pelo próprio autor dos livros Daniel Handler (que usa o pseudônimo de Lemony Snicket) e a certeza de ser o mais fiel possível a obra original.

A série da Netflix seria composta por oito episódios cobrindo os quatro primeiros livros das desventuras dos irmãos Baudelaire. Após dois dias assistindo ao seriado percebi que estamos diante de uma obra que consegue capturar a essência dos livros, que possui algumas semelhanças em relação ao longa original, mas que expande a mitologia criada no universo dos Baudelaire de uma forma totalmente empolgante.

Desta forma aconselho a você, se espera uma crítica feliz e prá cima, pode esquecer, pois a seguir teremos nada mais do que choro e lágrimas, a infelicidade impera e a sorte não está do lado dos irmãos Baudelaire, sendo assim te darei uma chance para encontrar algo mais feliz para ler, alguma série que te agrade mais e que te faça sonhar com um futuro melhor………………….ok, não diga que não avisei.

Um Mau Começo (Volume 1 e 2) 

O maior desafio de um seriado é conseguir atiçar a curiosidade do público desde seu piloto, pois nas maioria das vezes a primeira impressão é a que fica e vai determinar se a audiência vai abraçar ou não a ideia.

Um Mau Começo Volume 1 neste quesito consegue ser um piloto eficaz e logo de cara consegue sair da sombra de sua versão cinematográfica. A apresentação dos personagens tem sim certa semelhança com a versão de 2004, mas aos poucos conseguimos perceber pequenas nuances que diferenciam uma obra da outra.

A narração de Lemony Snicket, por exemplo, no original o personagem tinha um ar misterioso com rosto oculto pelas sombras enquanto escrevia sua história numa antiga máquina de datilografar, nesta versão o personagem vivido aqui pelo ator Patrick Warburton (impecável) o foco é diferente e o narrador está sempre presente em momentos chaves, quebrando a chamada “quarta parede” para explicar algo ou detalhar algum fato da vida dos Baudelaire.

Confesso que inicialmente a inserções do Lemony Snicket causam sim certa estranheza, mas à medida que a narrativa vai progredindo elas se tornam melhor inseridas e você se acostuma ao humor e ao charme de Warburton que acaba por tornar o texto ainda mais interessante.

A apresentação dos personagens é feita de uma forma bem trabalhada e os atores que fazem Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e Sunny (Presley Smith) apesar de não se destacarem tanto, entregam uma atuação inicial sólida na pele dos irmãos desafortunados.

Ainda no quesito elenco, os coadjuvantes não deixam a desejar, destaque para os cúmplices do Conde Olaf (engraçados na medida), a Juíza Strauss (Joan Cusack) e o banqueiro das crianças, Mr Poe (K. Todd Freeman). Porém dentre estes o verdadeiro destaque fica por conta do vilão da história Conde Olaf, vivido aqui por um excelente Neil Patrick Harris.

O ator felizmente não tenta copiar o trabalho anteriormente realizado por Jim Carrey no cinema, adicionando seus próprios trejeitos ao personagem do Conde, que consegue ser ao mesmo tempo engraçado e ameaçador. Senti o ator bastante à vontade no papel conseguindo puxar toda atenção em cena para si, sem falar que você sente que a narrativa aproveita o talento de Harris como cantor e seu talento adquirido em musicais da Broadway, tanto que até na abertura ele é o grande destaque.

No geral o piloto funciona muito bem, apresentando o universo sombrio e melancólico sem parecer muito pesado para seu público e sempre inserindo cenas de humor de forma pontual. É claro que por ser um pouco longo do que o normal a narrativa as vezes sofre com problemas de ritmo, mas faz um trabalho correto inclusive inserindo um arco paralelo relacionado aos pais das crianças que promete deixar o público bastante curioso para o que vem a seguir.

Um Mau Começo Volume 2 é um episódio melhor, apesar do início bastante didático explicando para o espectador o ocorrido no episódio anterior (acho que a Netflix deve repensar esta estratégia já que disponibiliza todos os episódios de uma vez), consegue trazer uma trama mais redondinha e conclusiva, afinal cobre a parte final do primeiro livro.

O roteiro assinado por Daniel Handler (que também assina o piloto) é bastante redondinho em adicionar mais humor e mais personagens. A direção de Barry Sonnefield mantém o nível do episódio anterior, ajudado por uma excelente fotografia e uma direção de arte impecável.

Depois de dois episódios pode-se notar que Desventuras Em Série continua com aquela impressão de ser uma obra bem no estilo Tim Burton, e que não deve em nada a versão do cinema conseguindo expandir sua trama de uma forma mais detalhada, mostrando que o formato série sem encaixa muito melhor do que o estilo de longa-metragem.

A Sala dos Répteis (Volume 1 e 2)

A ideia de contar a história de cada livro em dois episódios foi uma ideia bastante inteligente e ao chegar no terceiro episódio conseguimos perceber isto. A história dos irmãos Baudelaire continuam indo de mal a pior e aqui os atores começam a se destacar de uma forma mais individual, algo que devo ressaltar foi o quanto gostei das cenas da bebê Sunny, ela já havia causado boa impressão no segundo episódio, mas aqui no segundo conto a personagem está ainda mais interessante, mesmo que as suas cenas em CGI sejam perceptíveis.

A Sala dos Répteis Volume 1 e 2 o roteiro começa a usar melhor o trio protagonista (antes ingênuos, agora mais espertos), você consegue perceber um certo crescimento dos atores em cena, Malin Weissman consegue mostrar uma Violet mais esperta e bastante inventiva, Klaus de Louis Hynes por sua vez começa a mostrar um lado mais investigativo onde a escrita usa as características do personagem para explorar todo o mistério à cerca da misteriosa morte de seus pais e o passado misterioso dos mesmos.

Estes episódios são felizes em adicionar várias peças no quebra cabeça do passado dos Baudelaire, a introdução do novo tutor para as crianças na pele do Dr. Montgomery Montgomery (Aasif Mandvi) é interessante exatamente para explorar esta vertente.

A trama aqui é menos sombria e melancólica que os dois primeiros episódios, com uma direção de arte mais vibrante e uma fotografia mais ensolarada ajudam a mostrar que estamos em um novo capítulo da história dos Baudelaire. A sala dos répteis do título é um lugar peculiarmente deslumbrante e bem elaborado, a verdade é que toda a propriedade do Dr. Monty é curiosamente interessante e ainda tem um labirinto que serve de ponto chave para o desfecho do volume 2.

É perceptível que neste capítulo a história ganha uma dinâmica melhor e desenvolvimento flui de forma mais corriqueira. Outro destaque aqui é a presença do Conde Olaf disfarçado como o novo “assistente” do doutor Montgmorey, Neil mais uma vez mostra controle do personagem que em seu segundo disfarce na trama se mostra ainda mais engraçado e cara de pau.

No geral A Sala dos Répteis Volume 1 e 2 conseguem manter e ao mesmo tempo melhorar o nível dos episódios anteriores, a narração está melhor encaixada, o trio principal se mostra mais à vontade e o Conde Olaf continua sendo o maior destaque junto com seus engraçados comparsas.

O Lago das Sanguessugas (Volume 1 e 2)

Os episódios cinco e seis abordam um dos arcos mais interessantes da saga dos Baudelaire, O Lago das Sanguessugas volta a ter uma fotografia mais sombria, porém consegue trazer suas peculiaridades diferenciando-se da paleta de cores de Um Mau Começo.

A narrativa aqui não tem pressa, os dois episódios anteriores senti uma dinâmica melhor, aqui o ritmo diminui um pouco principalmente no volume 1, mas volta a ganhar força no volume 2. Um dos pontos positivos deste novo arco é a introdução da Tia Josephine na narrativa, sai Meryl Streep e entra Alfre Woodard, a atriz consegue entrar uma atuação sólida (ainda que Streep seja melhor no papel), principalmente ao mostrar sua obsessão pela gramática e o medo de tudo que possa causar algum acidente.

Outro destaque é que aqui sentimos um medo e pessimismo crescente para os protagonistas, principalmente em Klaus, que se mostra o mais receoso aqui, mas no final a narrativa faz questão de sempre reforçar os laços entre os irmãos que acaba sendo um dos pontos fortes da trama.

A medida que o roteiro cada vez mais volta sua atenção para o mistério acerca do passado da família, a narrativa engrandece ainda mais sua mitologia, pois ao mesmo tempo que ganhamos mais informações sobre a sociedade secreta formada pelos amigos e os pais das crianças, mais uma peça no quebra cabeça é adicionado na teia de conspiração construída desde o piloto, inclusive a trama paralela envolvendo os possíveis pais das crianças.

As vilanias do Conde Olaf (agora na pele do marinheiro) continuam sendo o grande destaque dos episódios e mais uma vez devo afirmar que foi uma ótima decisão colocar cúmplices para ajudá-lo a executar seus planos, os personagens são hilários e toscos na medida.

Apesar de ser meu conto favorito dos quatro contos apresentados na primeira temporada, O Lado das Sanguessugas apresentam alguns detalhes negativos que ainda não fazem dele o melhor dos contos, porém isto não torna a trama menos interessante, afinal o nível de qualidade ainda se mantém, inclusive o volume 2 é um dos melhores episódios da temporada.

Serraria do Baixa Astral (Volume 1 e 2)

Os dois últimos episódios da temporadas são ao meu ver os menos engraçados dos oito, mas de longe são os que mais representam a vida desafortunada do irmãos Baudelaire. Este conto é o primeiro que vai além da história contada no filme, então a Serraria do Baixa Astral tem uma sensação de novo que deixa a trama ainda mais interessante para quem não teve contato com o livro de mesmo nome.

Os aspectos técnicos da produção são mais uma vez o destaque aqui, tanto pelo design de produção caprichado (gostei bastante do cenário da fábrica), quanto pela fotografia impecável.

O trio protagonista indo parar na serraria após descobrir uma pista sobre seus pais através de uma foto no episódio anterior, abre toda uma vertente de novas possibilidades na trama principal, além de também introduzir diversos novos personagens como Sir (Don Johnson) o dono da serraria, Jimmy (Timothy Webber) e o interesse amoroso do Conde Olaf, a doutora Georgina Orwell vivida aqui por Catherine O’Hara (que curiosamente estava na versão do cinema em outro papel, a da juíza Strauss).

Se nos episódios anteriores a narrativa trás os irmãos Baudelaire cada vez mais receosos, aqui fica evidente a insegurança do trio ao enfrentar mais uma situação complicada ao serem obrigado a trabalhar na serraria enquanto tentam descobrir pista sobre o passado dos pais.

É importante notar que roteiro nos contos anteriores sempre oferecia uma saída onde a habilidade individual de cada uma das crianças se fazia necessário para sair dos entraves impostos através dos planos de Conde Olaf, porém na Serraria do Baixa Astral Volume 1 e 2 é a primeira vez que Violet, ou Klaus, ou Sunny não conseguem usar suas qualidades para escapar daquela situação.

Pode-se notar aqui que a sensação de perigo está cada vez maior, representado por Conde Olaf na pele de Shirley (outro disfarce hilário) e Georgina. O plot da hipnose se resolve de uma forma até fácil, mas a função de colocar os Baudelaire em perigo eminente e sem esperança funciona muito bem.

Estes dois últimos episódios tiveram a função de fechar lacunas e trazer respostas, não que isto seja cumprido completamente. O desfecho do subplot envolvendo os pais (vividos aqui por Will Arnett e Cobie Smulders), tomou um rumo completamente diferente do que poderia se imaginar acrescentando ainda mais peças ao já complicado quebra cabeça e ainda ligando-se a trama dos Baudelaire de uma maneira no mínimo intrigante.

O último ato do episódio funciona como uma ponte para a próxima temporada e o primeiro vislumbre do que estar por vir, o gancho é curioso, mas nada muito extraordinário.

VEREDITO

Depois de oito episódios repleto de um capricho técnico imenso, fica evidente que a mudança de mídia fez bem a Desventura em Série, que ganha espaço para desenvolver melhor sua narrativa adicionando novas vertentes que engrandecem o material original e dá mais espaço para o crescimento e amadurecimento de seus protagonistas. O clima gótico, a fotografia deslumbrante e as boas atuações (com destaque para Neil Patrick Harris e a bebê Presley Smith) são parte de um pacote de qualidade que apesar de sofrer com alguns pequenos problemas, entrega um produto bastante sólido que deixa um gostinho de quero mais. Mal posso esperar para retornar este maravilhoso universo outra vez.

Observações em Série:

  • Incêndios: Apesar de Serraria do Baixa Astral Volume 2 dar uma grande dica sobre o autor dos incêndios (ainda acho que é o Conde Olaf), o mistério ainda continua e deve permear por toda a próxima temporada.
  • Maratona: Aconselho a assistir Desventuras de dois em dois episódios, a série tem episódios longos que podem em certos momentos cansar, assistir episódios∕livro e aos poucos é o ideal.
  • Aliados: Uma coisa que gostei na história é que vários personagens coadjuvantes tentam ajudar os irmãos Baudelaire, pois sabem do passado dos pais deles. A personagem Jacquelyn apesar de aparecer pouco se mostrou uma aliada importante para os irmãos, espero que ela retorne numa possível segunda temporada.
  • Família Quagmire: Agora sabemos que a mãe (Cobie Smulders) e o pai (Will Arnett) são membros da família Quagmire que também sofreu o mesmo destino dos Baudelaire, agora que seus filhos vão frequentar o mesmo orfanato, podemos esperar mais mistérios sendo resolvidos na segunda temporada.

Desventuras em Série (2017)
Lemony Snicket’s A Series Of Unfortunate Events

Netflix
8 Episódios

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