10 Anos de Lost: Onde o final de Lost deu errado?

Leandro de Barros

  terça-feira, 23 de setembro de 2014

10 Anos de Lost: Onde o final de Lost deu errado?

4 anos depois do fim, voltamos para a Ilha para discutir onde o episódio final de Lost falhou e entender como e porque alguns finais de séries dão certos e outros não

Nessa semana, nós estamos comemorando os 10 anos da estreia de um seriado um pouco conhecido pelo mundo e que talvez você até já tenha ouvido falar em algum momento da sua vida: Lost.

A série sobre o grupo de sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines, que ia de Sidney até Los Angeles, mas que acaba caindo na misteriosa Ilha , terminou e acabou se tornando ícone de várias coisas: programas de TV revolucionários, narrativas diferentes e envolventes e… finais desapontantes.

Tendo você gostado ou não da conclusão de Lost (e este que vos fala faz parte da minoria dos que curtiu), não dá pra negar que o encerramento da série deixou um sabor agridoce na boca dos fãs, com um temperinho de desapontamento pra grande maioria dos espectadores (eu, porém, senti um gostinho de laranja que ainda não consegui identificar de onde veio).

Por isso, nesse texto, nós vamos colocar o final de Lost no divã da nossa sala de terapia, fumar um cachimbinho e tentar entender o que há de errado com ele. Também vamos citar outros finais que tiveram a mesma rejeição (como Dexter e How I Met Your Mother, por exemplo) e também exemplos que foram bem aceites pelo público (Breaking Bad ou True Detective). Portanto, não conhece o fim dessas séries, siga com cuidado – todos os spoilers vão estar borrados, então você só vai ler se quiser (e colocar o mouse em cima). Tipo assim.

lost final 02

Dentro todos os defeitos que o final de Lost pode ter (e, apesar dele realmente ter alguns, não são tantos como a maioria faz parecer), os mais graves são a sua falta de clareza ao especificar o que está acontecendo e sua falta de consideração com a postura do seriado durante toda a sua jornada.

O problema da clareza é o que está mais às vistas (por mais paradoxal que isso pareça). Muita gente não entendeu efetivamente o que aconteceu no fim de Lost. Não digo isso pra parecer um metidinho arrogante que acha que as pessoas que desgostam das coisas são burras e não entendem os filmes/séries (mas eu sou um desses!), mas digo porque existem várias ideias erradas sobre o final da série sendo repetidas por aí. Por exemplo, eles não estavam mortos desde o início – apesar de uma grande parte do público achar que sim.

Nós estamos preparando um texto exatamente sobre isso (e que você terá o desprazer de ler em breve), mas não dá para isentar os roteiritas/produtores/responsáveis pelo seriado desse tipo de coisa. Se uma minoria do seu público não te entende, a culpa não é sua (existem gazilhares de fatores que podem explicar esse tipo de coisa e praticamente todas as produções um pouquinho acima do mínimo denominador comum sofrem com isso). Agora, se a maioria do seu público não te entende, a culpa é toda sua por não falar a linguagem deles.

lost final 01

E é aqui que as duas razões citadas se misturam: Lost foi, desde o início, uma série sobre humanos “perdidos” em suas vidas, procurando algum caminho para se guiar e seguir. As opções fornecidas pela série sempre foram duas: o caminho espiritual (simbolizado por Locke, que tentava assumir a liderança do grupo) e o caminho terrenho (simbolizado por Shepard). Você pode até pensar nessas opções como “religião” e “ciência”, embora esses termos também ajudem no desgostar do fim da série.

O fato que esses dois personagens simbolizam esses dois caminhos e era esperado que os dois “trocassem de time” em algum momento, já que essa mudança de postura é um mecanismo bem comum em narrativas do tipo. O problema é que, no fim das contas, apenas Shepard acaba indo para o lado de “crer sem ver” e toda essa outra vertente fica abandonada nos momentos finais da série.

A presença de um “pós-vida”, onde os personagens precisam se reencontrar para poder enfim “seguir em frente” também não ajuda nessa parte, já que é um conceito tão aberto (afinal, seguir em frente pra onde?) e espiritual que foi recebido de maneira muito má por quem gostava de Lost pelas explicações “””científicas””” (eu colocaria mais aspas, mas esse é o limite) que a série tinha acostumado os seus espectadores.

Existe também a variável de que os responsáveis por Lost haviam alardeado desde o começo que sabiam muito bem o que estavam fazendo e a resposta para todos os mistérios já havia sido planejada de ante-mão. Essa afirmação acabou se tornando um pouco questionável após o fim da série já que a mudança de caminho acima citada dificilmente seria algo planejada por eles. Aconteceu algo do tipo com a conclusão de Dexter, também. O showrunner original da série tinha um final planejado mas, com o troca-troca de responsáveis pelo seriado durante os anos, toda a visão por trás da história foi mudada pelos novos responsáveis (e pelo canal!) e isso se refletiu num final contraditório e confuso.

O final de uma obra é o que a completa e representa a chave para poder entendê-la por inteiro. Por isso que existe tanta expectativa e interesse quando alguma coisa chega ao fim; as pessoas podem repetir infinitamente que “o que importa é a viagem e não o destino” e elas não estarão totalmente erradas, embora ignorem que o destino é justamente quem entrega a chave pra gente entender bem o que aconteceu na viagem. Por exemplo, uma história onde o protagonista vive feliz ganha ares agridoces quando seu final é triste, enquanto uma história onde o protagonista se ferra o tempo todo se torna redentora quando tudo dá certo no final.

Um exemplo de um final que também gerou reclamações por causa disso foi How I Met Your Mother. Durante os 9 anos da sitcom, os roteiristas/produtores martelam a filosofia do grande pensador Fábio Jr.: há uma alma gêmea pra cada um de nós por aí. Concordando ou não com isso, nós vimos em inúmeras situações em que ficava claro que a série divulgava a ideia de que existe uma pessoa “certa” pra cada um de nós – eles até mesmo inventaram palavras em alemão para isso: existia a Lebenslangerschicksalsschatz (que significaria “O tesouro do destino ao longo da vida”) e existia a Beinaheleidenschaftsgegenstand (que seria “Aquilo que é quase aquilo que você quer…mas não completamente”). Inclusive, quando esses termos são apresentados, há até a explicação de que não dá para uma “Beinaheleidenschaftsgegenstand” se tornar uma “Lebenslangerschicksalsschatz”. Porém, quando a Mãe morre e Ted vai atrás de Robin, a série quebra o encanto mágico de “alma gêmea” prometido e argumentado por 9 anos e isso leva o público a notar a dissonância entre conteúdo e conclusão, o que explica grande parte da reação negativa dos fãs.

Mas então, quando um final como o de Dexter, How I Met Your Mother ou Lost acontece, de quem é a culpa – se é que há culpa de alguém? Claro que cada caso é um caso (um abraço pra minha professora de matemática que sempre repetia isso) e que não existe uma fórmula clara pra achar um culpado (se é que há algum), mas duas séries diferentes com finais bem recebidos nos ajudam a entender o que diferencia um final bom e um final ruim: Breaking Bad e a primeira temporada de True Detective.

No final de Breaking Bad (que não contou com nenhuma grande “surpresa”), a única crítica que eu já ouvi sobre o fim da série foi a escolha de Baby Blue como música final do finale – aparentemente, algumas pessoas pela Internet acharam a escolha “brega”. Já True Detective, por sua vez, gerou  um grande burburinho na rede sobre a identidade do Rei Amarelo – pessoas em fóruns por aí destrinchavam cada frame dos episódios na tentativa de obter dicas sobre quem seria o personagem. Porém, a série foi inspirada no livro O Rei Amarelo, de Robert W. Chambers, que trás uma coletânea de contos sobre uma peça chamada O Rei Amarelo, que enlouquece quem a lê, não existindo de fato uma pessoa com esse título, tanto na série quanto no livro. Porém, como as duas séries conseguiram boas recepções sobre seus finais? A resposta para isso é coerência.

Seja surpreendendo ou não, com reviravoltas e mistérios ou não, a lição que podemos tirar de True Detective e Breaking Bad é que é preciso seguir uma linha coerente entre seu percurso e o seu final e saber expor essa linha aos seus expectadores. E apesar de ter algumas boas ideias na sua conclusão e um final legalzinho (hey, toda a ideia deles criando novas realidades depois de mortos para superar as questões que ficaram para trás é legal, mas não tem realmente muita ligação com eles na Ilha, né?), Lost falhou na parte de manter a coerência entre o que era antes e o que queria dizer o tempo todo.


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