Review | Before Watchmen: Silk Spectre #2 – Vilões do Joel Schumacher entram na série…

  Leandro de Barros  |    terça-feira, 31 de julho de 2012

O roteiro pode ser bom, a arte pode ser sensacional, a coloração pode ser impecável, mas não há revista no mundo que resista à um vilão do Joel Schumacher

“Não é nos afastando do mundo que nos tornamos mais iluminados, mas indo em direção ao mundo” – Ken Kensey.

Spoilers abaixo.

Repito a citação de Ken Kensey (famoso escritor americano da década de 60) que Darwyn Cooke usou para encerrar Silk Spectre #2, porque acredito que ela tenha muito a ver com a série Before Watchmen como um todo, além da própria jornada da Espectral nos anos 60.

Em primeiro lugar, é complicado não citar a recente declaração de Dave Gibbons, dizendo que qualquer produto de Watchmen que não foi feito por ele e/ou Alan Moore “não é cânone”.

Eu não sei em relação à vocês, mas eu tento separar Before Watchmen de Watchmen. Quando vou ler uma das novas revistas, trago apenas as informações essenciais da graphic novel de 1986. Fora isso, tento ver a série como algo novo. Eu faço isso porque, vendo por esse lado, Before Watchmen é algo com um nível maior do que a média atual das revistas em quadrinhos norte-americanas.

Seja como for a maneira com que você vê a série, não dá para se tornar mais iluminado se afastando dela. Apenas indo em direção à Before Watchmen.

Dito isto, vamos falar sobre a Espectral e sua carreira de “super-heroína das antigas”, trabalhando de dia e combatendo o crime de noite. Cooke começa a revista com um recurso engraçadinho: a Espectral escreve uma carta para o “Tio Hollis” (o Coruja I) e algumas frases dessa carta brincam com a arte de um confronto da garota com uma gangue de criminosos.

Frases do tipo “eu me sentia acorrentada”, são ilustradas pela Espectral sendo acorrentada. Ou “eu não preciso ser encontrada”, quando ela está se escondendo; “eu só preciso de um tempo para perceber as coisas”, quando ela forma o plano pra contra-atacar e “minha mãe me ensinou muito sobre como lidar com as coisas que a vida joga na gente”, quando ela arremessa um balde num dos criminoso. E essa brincadeira continua por mais algumas páginas. Não é exatamente o recurso mais original possível (o próprio Cooke tem brincado bastante com narrações mais ou menos parecidas em Minutemen, se não me falha a memória), mas é uma brincadeira que rende muito bem quando bem executada, como é o caso.

Silk Spectre #2 também merece ser elogiada pela ambientação da sua trama nos anos 60. A vida da Espectral na revista me lembrou muito o filme Across the Universe, um musical só com canções dos Beatles estrelado por Jim Sturgess e Evan Rachel Woods. No filme, os protagonistas acabam morando na Nova York dos anos 60, junto com alguns hippies paz e amor, ele vai trabalhar como pintor (ou era desenhista, algo do tipo). Me lembrou demais. O que é uma coisa boa, eu gosto de Across the Universe. Mas não é bem a história que ambienta com perfeição os anos 60. É a coloração e a arte da revista, méritos de Paul Mounts e Amanda Conner, respectivamente. Aliás, Silk Spectre tem uma arte incrível, uma das melhores de Before Watchmen. Mounts usa e abusa das cores vivas e psicodélicas dos anos 60 nas páginas da revista.

Bem, mas deixem-me parar de elogiar e vamos todos pegar nas pedras, tomates e tochas para descer o cacete na revista. Deixa eu ver se entendi bem os vilões da série. Um, é o presidente da gravadora onde, aparentemente, todos os músicos dos anos 60 tocam (participação especial dos Beatles na revista = nota 9.7). Outro, é uma espécie de showman/promoter da época. Por fim, o cientista maluco que desenvolve uma droga que faz com que as músicas paz e amor da época despertem um desejo subconsciente para o consumismo.

Ok, eles são algum simbolismo? Algo para mostrar como a indústria fonográfica se deturpou e se desviou do caminho? Como a arte foi corrompida em torno dos lucros? Pode até ser uma mensagem entrando na brincadeira de Before Watchmen e como a série é vista como a “estupradora” da mensagem criada por Watchmen. Analisando friamente, pode muito bem ser algo do tipo. O problema é que essa história de droga que desperta o desejo de compra subconsciente é muito Joel Schumacher. Me lembrou desse cara:

Esse “”””Charada”””” criou uma aparelho que roubava a inteligência das pessoas e mandava para o cérebro dele. A idéia era roubar o intelecto de toda Gotham. A mesma cidade que vê o Batmóvel sair da Mansão Wayne todas as noites e ainda não percebeu que o Batman é o Bruce Wayne. Jênio.

Enfim, eu gosto muito do Darwyn Cooke, mas a partir do momento em que o vilão poderia ter saído de um filme do Joel Schumacher, eu não posso mais elogiar.

 


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