Resenha | Jogador Número 1

  Leandro de Barros  |    domingo, 20 de maio de 2012

Ernest Cline começa sua carreira no mundo literário com Jogador Número 1, o hypado, delicioso e envolvente livro que você deve ler assim que puder

Extremamente hypado, Jogador Número 1 ganhou as manchetes de jornais, revistas e sites especializados em literatura. Vendido como “o novo Matrix“, “nova mania nerd“, novo qualquer coisa, o livro já está disponível no Brasil há algumas semanas e finalmente chegou às mãos do Supernovo para que a gente possa tentar responder a questão definitiva: é tudo isso ou não?

Segue lendo, sem spoilers.

 

A história de Jogador Número 1 se passa no ano de 2044. Nessa época, o planeta Terra está, na falta de uma palavra melhor, condenado. Energia, seja ela elétrica, eólica, solar ou qualquer outro dia, é item escasso e raro. Já o desemprego, pobreza e péssimas condições de vida, são itens abundantes. A situação é tão crítica, que a população mundial prefere viver num mundo de realidade virtual do que no mundo “real”.

Esse tal mundo de realidade virtual é chamado de Oasis e nada mais é do que um jogo. Um gigante MMO, o maior de todos. Criado pela mais bem sucedida empresa de games do mundo, o Oasis é uma mistura de Second Life, Minecraft, Facebook e Dungeons and Dragons, apenas unindo os primeiros nomes que surgem na minha cabeça. O Oasis é um gigantesco universo digital. São dezenas de galáxias com centenas de planetas compostos por milhares de quilômetros digitais. Tem gente que usa a plataforma estritamente para uso social ou comercial. Tem gente que usa como escapismo para suas perversões, maluquices e desejos. Também tem gente que usa só para diversão ou para fins didáticos.

Tudo ia bem até o dia em que James Halliday, o criador disso tudo, morre. Em seu testamento, ele deixa uma mensagem em vídeo para todo o mundo: Halliday conta que escondeu três Easter Eggs no Oasis. Cada Easter Egg leva à um portão e, quem atravessar os três portões primeiro, herdará toda a sua fortuna. Algo mais ou menos como alguns zobaterelhões de dólares. Imediatamente, o mundo vai à loucura. As pessoas começam a procurar pelos tais Easter Eggs em todo lugar. Anos passam e nada acontece, até o dia em que o nosso protagonista, Wade Watts, acha o primeiro ovo e o mundo passa a seguir seus passos com atenção.

Um perfeito exemplar da cultura POP oitentista

Se tem algo que possa ser dito sobre Jogador Número 1 com certeza, é que o livro é um perfeito exemplar da cultura POP oitentista. É uma homenagem primorosa sobre as obras criadas nesse período da nossa história. Tanto em termos de história, quanto em termos de estrutura da trama, recursos literários, composições e arquétipos dos personagens. Jogador Número 1 é, para o bem e para o mal, uma obra sobre os anos 80 feita ao estilo anos 80.

Digo isso porque James Halliday, o bilionário que criou todo o jogo da trama do livro, é um cara fissurado pela década de 80. Por ter passado sua adolescência nessa época, e também por ser um típico nerd recluso e anti-social, Halliday foi um cara que consumiu toneladas de obras de entretenimento dos anos 80 e de décadas anteriores, criando assim uma verdadeira paixão e devoção por essas obras. Toda a dinâmica da caça aos Easter Eggs do livro se baseia nas obras favoritas de Halliday, como Blade Runner, Monty Python e até a série japonesa do Homem-Aranha. Mas as referências não ficam assim no óbvio. A coisa entra muito no underground da cultura pop com referências que você vai precisar consultar no Google enquanto estiver lendo (mas não se preocupe – você vai conseguir curtir o livro mesmo se não souber muita coisa sobre obras da década de 80, já que as coisas são bem explicadas).

Tudo isso surge porque Ernest Cline, autor do livro, é um nerd fissurado nos anos 80. Para quem não liga o nome à figura, Cline é o roteirista de Fanboys, filme discreto de 2009 que conta a história de um grupo de amigos que viaja pelos EUA para tentar invadir o rancho de George Lucas e assistir à Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma antes do resto do mundo.

Cline despeja todo o seu conhecimento enciclopédico no livro, criando um mar de refêrencias e citações que vão ser um desafio para o mais empenhado dos leitores. Mesmo que você também seja um viciado na década de 80, inevitavelmente vai precisar de uma consulta online para saber do que se trata algumas coisas. Proponho até um game: marque alguns pontos nas referêcias que conseguir sacar e veja seu desempenho depois.

Mas a homenagem à década responsável por nos dar o Balão Mágico não fica apenas nas citações, referências e indicações. Como dito antes, o livro todo é uma gigantesca homenagem às obras dessa época, inclusive sendo feito nos mesmos moldes. Tudo que tornou flimes/livros/séries/games daquela época famosos e bem sucedidos, estão ali: a temática sci-fi, a corporação maligna, o monomito sendo aplicado. Até os personagens seguem arquétipos bem estabelecidos nos anos 80: o protagonista jovem que tem potencial e se torna o herói, o amigo mais cool, a gatinha dos sonhos, o velho mestre-guia, o vilão capaz de tudo… todos eles são personagens contruídos em moldes já vistos em outros lugares, mas que se transformam numa gigante homenagem aplicados dentro de todo o contexto do livro.

O pupilo supera o mestre ou o Teorema de Luke Skywalker

Um dos pontos mais interessantes de Jogador Número 1 é a relação entre Wade Watts, nosso protagonista, e James Halliday, o criador do Oasis e idealizador da disputa que envolve todos os personagens. A curiosidade é que os dois nunca se encontraram na vida.

Como já dito antes, Halliday foi um cara que viveu sua vida reclusamente, sendo a personificação perfeita do esteriótipo nerd: tímido mas arrogante, péssimo em relações sociais, Halliday se enterrou a vida toda em games, filmes, séries e gibis, além de se tornar um programador de games excepcional. Halliday escapou das suas limitações sociais nas obras de entretenimento e no seu próprio trabalho, nunca casando e nem tendo filhos.

Wade Watts, adolescente de Oklahoma, segue o mesmo estilo. Seu pai morreu logo depois dele nascer, deixando sua mãe sozinha. Para ganhar a vida, a mãe trabalhava no Oasis como uma versão do programa daquelas atendentes de disque-sexo. Depois da morte da mãe, Wade passa a viver com a tia, que só se importa com ele por causa do cheque que ela recebe do governo por cuidar do garoto. Assim, Wade também é muito solitário e se entrerra no Oasis e na caçada pelos easter-eggs de Halliday. Como toda a jornada desenhada por Halliday envolve seus gostos pessoais, Wade se afunda nas séries, filmes e games favoritos do seu “mentor”, além de aprender programação para fazer algumas alterações permitidas no Oasis, como construir seu próprio planeta em um momento.

A jornada dos dois é bastante similar e, enquanto Wade vai prosseguindo na caçada aos Easter Eggs, ele vai recebendo lições de Halliday. Simplificando, é como se o velho programador olhasse para sua vida e reconhece algum dos seus erros. A sua maneira de contar essa história, é criando o jogo, na esperança de transmitir à alguém as suas “lições”. Coloco lições entre aspas porque, como uma vez disse Mary Schmich, “conselhos é uma forma de nostalgia. Dá-los é uma forma de pescar o passado da lata de lixo, esfregá-lo, pintar as partes feias e reciclá-lo por mais do que ele vale“.

Sim, eu acabei de citar Wear Sunscreen, mas fiz por uma boa causa. Acho que essa parte é realmente um bom exemplo de como é a relação entre esses dois personagens, que nunca chegam a se encontrar. Halliday desenhou seu jogo de maneira que ninguém conseguísse resolvê-lo sem ter algumas semelhanças com ele. Por isso mesmo, ele passa adiante algumas lições, na esperança de que o vencedor não cometa os mesmos erros feitos por ele.

Ok, você já falou demais, amigo. Esse livro é bom ou não é?

É, Jogador Número 1 é bom sim. O livro é uma aventura sobre o escapismo e sobre decisões de vidas das pessoas, tudo isso envolto em uma história divertida, que entretêm muito bem o seu leitor.

No fim das contas, Jogador Número 1 é uma deliciosa e atraente aventura bem aos moldes oitentistas e é um livro que vai agradar à nerds e não-nerds de todas as idades, estilos e classes – mesmo quem não sabe o que é um sabre de luz, o Ultraman ou o Whedonverse.

Cheio de idéias interessantes, Jogador Número 1 vai acabar falando diretamente com você e envolver o leitor na jornada de Wade Watts pelos Easter Eggs de Halliday. Se você aceita um conselho, vá atrás do livro. Vai valer a pena.

Ficha Técnica – Jogador Número 1

Autor: Ernest Cline
Tradutora:
 Carolina Caires Coelho
Editora: LeYa
Páginas: 464
ISBN: 9788580442687
Publicação: 02/01/2012


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