O fim de Naruto – Esse foi o seu jeito ninja, dattebayo!

Leandro de Barros

  quinta-feira, 06 de novembro de 2014

O fim de Naruto – Esse foi o seu jeito ninja, dattebayo!

Depois de 15 anos, Masashi Kishimoto conclui a história sobre o garoto que queria ser Hokage para ser aceito... mas se perde no meio de tanta simbologia e folclore

Eu conheci Naruto em 2007. Foi uma coincidência bem grande porque Naruto: Shippuden, a segunda fase do seu anime, tinha estreado há alguns meses então existia uma comunidade bem animada ao redor da série na Internet.

Eu tinha 16 anos na época e, por motivos de força maior, tinha muito tempo livre em casa. O importante a saber sobre o que me fez prestar atenção em Naruto aconteceu na minha infância até o começo da minha adolescência. Apesar da minha casa ter sempre sido cheia de gibis ocidentais (desde A Turma da Mônica até os super-heróis americanos, passando pelo Tio Patinhas, Pato Donald e afins), o que vinha do Japão é que realmente chamava minha atenção. Quer dizer, eu cresci olhando para heróis como Yusuke Urameshi, Seiya, Goku e Kenshin.

Depois que eu entrei na adolescência, eu parei de acompanhar muito as animações japonesas e fiquei totalmente alheio à esse mundo. Até o já citado ano de 2007, onde eu estava entediado e decidi ir atrás desse tipo de conteúdo novamente.

O que uma pesquisa rápida me mostrou é que os tempos mudam e se na minha época a gente tinha Yu Yu Hakusho, Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, os novos tempos tinham um novo trio de ferro: One Piece, Bleach e… Naruto.

Eu peguei um episódio de cada para ver e me interessei bastante por One Piece, apesar do seu visual um pouco mais infantil ter afastado os gostos sofisticados do meu eu adolescente. Bleach tinha um visual maneiro, mas sua história não empolgava em nada. Por fim, Naruto era exatamente o que eu procurava: algo novo, algo que fugisse do que eu tinha visto até o momento: um herói super-poderoso que ralava para conseguir um novo poder mais forte que o anterior e que pudesse derrotar o vilão que voa.

Eu sei. Pode rir de mim. Eu também estou rindo agora. Mas é justamente isso que me deixou tão triste com o fim de Naruto.

naruto final

Uma outra coisa engraçada é que o começo desse texto foi escrito há alguns meses atrás, após ter lido um capítulo onde o vilão da vez simplesmente… voa. Esse texto deveria se chamar “E foi por isso que eu desisti de Naruto”, mas ele nunca ficou bom o suficiente para ser publicado. Eu decidi trabalhar um pouco mais nele, mas então veio o anúncio do fim da série e… enfim.

Hoje, 6 de Novembro, a Internet já se inundou com os scans dos capítulos finais de Naruto, embora oficialmente a publicação só vá acontecer no dia 10 de Novembro no Japão – os mangás costumam sair primeiro na China e é de lá que esses scans aparece.

Masashi Kishimoto

Masashi Kishimoto

Masashi Kishimoto concluiu sua obra quase exatamente 15 anos depois de iniciá-la (o primeiro capítulo saiu no dia 4 de Novembro de 1999  no Japão), mas dificilmente dá para dizer que essa conclusão é o final do Naruto que se iniciou em 99. Eu falo por mim, apesar de achar que muita gente compartilha da mesma opinião, mas a verdade é que minha relação de amor e ódio com o mangá vem justamente da grande metamorfose que a série passou na transição entre a fase criança do Naruto com a sua fase já adulta – que no anime ficou entre Naruto e Naruto Shippuden.

A primeira fase de Naruto tinha características muito interessantes e que eram atraentes à primeira vista: pra começo de conversa, o mangá era muito novo para quem tinha crescido com Os Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho e, principalmente, Dragon Ball, já que seus combates eram mais definidos por inteligência e habilidade do que força de vontade – exceto quando era o Naruto que lutava, mas mesmo nesse momento sua “força de vontade” aparecia sob a forma de um chakra gigante e adicionava uma variação na velha fórmula do protagonista de shonen briguento, resmungão, burro e faminto, mas que nunca desiste e supera os obstáculos com amizade e força de vontade.

Naruto também tinha um leque de coadjuvantes muito interessantes. Do gênio Neiji ao preguiçoso Shikamaru, passando por Jiraiya, Kakashi, Rock Lee e Zabuza, os coadjuvantes de Naruto eram interessantes de fato quando tinham chances para brilhar. Afinal, alguns dos momentos mais interessantes da primeira fase do mangá foram as lutas do Rock Lee, a história do Gaara, os planos do Shikamaru e o drama do Zabuza e do Haku.

Era nessa época em que Naruto era um mangá sobre o valor das pessoas, sejam elas naturalmente dotadas ou apenas esforçadas. Era um mangá onde um cara que não tinha uma capacidade especial poderia simplesmente se esforçar o dobro e vencer um “gênio” – o que era interessante, porque dialogava muito bem com o próprio Kishimoto, que se achava um mangaka genial, mas que tinha encontrado dificuldades quando chegou ao mercado.

Os times 7

Os times 7

Então veio o Kakashi Gaiden e tudo mudou. Kishimoto levou Naruto para uma viagem em meio ao folclore e a mitologia japonesa, que provavelmente foi muito mais interessante para quem conhece ou estuda o assunto. E, apesar de todos os simbolismos e recriações visuais talvez (sob certas circunstâncias) poderem significar uma narrativa com mais camadas e mais sofisticação, a verdade é que essa segunda fase de Naruto pecou em muitos pontos.

O principal foi a invalidação da fase anterior. Enquanto o primeiro momento de Naruto era sobre o ciclo de gerações, dos mais novos superando os mais velhos e sobre o esforço sendo um instrumento capaz de superar o talento natural; a segunda fase diluiu os dois temas e o modificou: o ciclo geracional se tornou algo que é repetido pela eternidade, onde os mais novos substituem os mais velhos até ele ser quebrado, e uma “predestinação natural” passou a ser algo mais importante do que talento – toda a importância dos Jinchuurikis e a recriação do duelo Yin x Yang entre as diferentes gerações (Indra x Asura; Madara x Hashirama; Sasuke x Naruto) mostram essas mudanças.

naruto fimEssa mudança de postura do mangá também prejudicou outras das características que faziam de Naruto tão marcante. Seus combates deixaram de ser focados em maneiras inteligentes e diferentes de se enfrentar os inimigos (com notáveis exceções, como a luta Shikamaru X Hidan) e passaram a se tornar uma versão ilustrada de quem tinha a maior piroca (no caso, o maior poder) – o próprio Sasuke, antes tão criativo e versátil, passou a ser um menino de um truque só com o seu Susanoo.

Os coadjuvantes do mangá também passaram a ser sumariamente ignorados. Com raras aparições, Rock Lee, Neiji e Shikamaru ainda tiveram alguns momentos nessa nova fase, mas não era a mesma coisa. O foco passou sempre a ser no próximo vilão, no próximo combate e no próximo poder a se descobrir e cada vez menos em quem já tinha aparecido, quem os leitores já tinham se importado.

No fim, Naruto terminou num declínio. A gana e o foco exagerado na mitologia que Kishimoto quis impingir no mangá resultaram num detrimento no aspecto mais importante da história: sua narrativa. Nós eventualmente chegamos num momento em que era mais importante a simbologia por trás das coisas do que o leitor se interessar pelos personagens.

Isso não significa necessariamente que essa jornada de 15 anos foi ruim. Foi bom ver o final e o flerte com uma nova geração de shinobis para manter aceso o fogo de Konoha – e o capítulo final colorido realmente tem um ar de nostalgia enorme por ter muito do primeiro, fechando o ciclo de uma geração.

Como é aquele ditado que filho de shinobi, shinobizinho é?

Como é aquele ditado que filho de shinobi, shinobizinho é?

E você, leitor? O que achou da conclusão de Naruto?


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