O Desfigurado Homem-Aranha – Relatos de um fã

Matheus Pessôa

  sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Desfigurado Homem-Aranha – Relatos de um fã

Texto com spoilers sérios para quem acompanha a revista Amazing Spider-Man em formato digital ou pela publicação da Panini

AVISO: Esse texto contém spoilers sobre a publicação da revista Amazing Spider-Man, da Marvel, nos EUA.

O Homem-Aranha sempre foi o melhor herói de todos para mim. Desde pequeno, assistia as várias animações que passavam na extinta TV Globinho diariamente, antes das minhas aulas à tarde. A mais marcante foi aquela de 1993 (Spider-Man: The Animated Series), quando o Aranha enfrentou simplesmente todos os seus melhores heróis, usando cartuchos de teia, cujo fluido durava 1 hora a cada disparo. Os lançadores de teia eram escondidos por debaixo das luvas, como o próprio Aranha explicou detalhadamente num episódio em que ele apareceu no quarto de uma menininha que sempre escrevia cartas a ele, que era admirado por todos na época.

Shocker, Rei do Crime, Dr Octopus, Rhino, Escorpião, Lagarto, Venom, todos esses estavam lá. Como sempre estiveram presentes nos quadrinhos mais antigos, causando problemas e mais problemas para o nosso caro Peter Parker, que a cada batalha parecia aprender alguma coisa sobre seus inimigos para aplicá-las em seus futuros embates- sim, os vilões retornavam.

Até mesmo o Homem-Aranha retornou, de certa forma, quando aconteceu um dos marcos na história das publicações aracnídeas: a polêmica Saga do Clone. Eu particularmente adorei essa saga, não importam as contradições e reviravoltas que aconteciam em A Teia do Aranha e Homem-Aranha, duas revistas que montaram o grande quebra-cabeça de aproximadamente 50 edições, finalizado em A Teia do Aranha 110, de 1997, mas que ainda gera discussões em muitos fóruns até hoje.

Bom, o tempo foi passando, e durante todo esse tempo, a fórmula original que fora criada por Stan Lee e Jack Kirby no momento da concepção do aracnídeo foi mantida. Seja em O Espetacular Homem-Aranha, O Fabuloso Homem-Aranha, O Incrível Homem-Aranha e tantos outros Homens-Aranhas que foram adjetivados. O herói, presenteado, ou condenado?,  pelos poderes da aranha radioativa foi sempre um ser que procurava a justiça, era sempre a união da inteligência com a sagacidade, da esperteza e da força, seja de vontade, seja a força que a aranha o proporcionou.

Em todos esses anos, quando menino, eu acompanhava assiduamente cada episódio na tela da TV, não importava a situação que estava acontecendo. Sempre dava um jeito de ver o Homem-Aranha subir pelas paredes e triunfar novamente perante o ‘mal iminente’. Então, fui apresentado aos quadrinhos.

Comecei a ler os antigos. Os menos antigos. E os novos. Há uma diferença GIGANTESCA entre todos esses gibis. A começar pela temática e pela intenção dos autores das revistas. Enquanto Stan Lee e Jack Kirby estavam preocupados em entreter o público, mostrar um herói digno, as publicações mais recentes estão preocupadas em… NADA! Absolutamente nada! Toda a essência do Homem-Aranha que foi criada e desenvolvida nos anos 60/70 parece ter se desintegrado pelo tempo. Tempo que passa, é claro. As alterações podem ser necessárias, mas em pequenas quantidades. Pequenos detalhes. Por que não usar os vilões clássicos? Por que não manter a dignidade desses vilões nos quadrinhos de hoje em dia?

A fórmula foi destruída, afinal de contas.

Não vemos mais o mesmo Homem-Aranha nas revistas. Não chegamos nem perto disso. O que nos leva das edições ‘recentes’ para as ‘atuais’ (na verdade, me refiro às mesmas, mas agora o papo vai ser mais sério).

Apocalipse Aracnídeo

2012 foi o ano do Apocalipse Aracnídeo. Aliás, esse até poderia ser um bom nome para a saga que o Aranha enfrentou. Eu culpo Dan Slott. Todo mundo culpa Dan Slott. O que ele andou aprontando nas histórias do Homem-Aranha desde que pisou na Marvel é brincadeira. O Aranha ganhou uma outra face, a face de um cara que cumpre o seu dever só por cumprir, só porque faz parte do seu caráter, sem demonstrar uma preocupação com o que realmente está acontecendo; O que eu quero dizer com isso é que o Homem-Aranha não é mais o mesmo, infelizmente.

Mas disso todos sabem, o que me irrita é a tentativa de deixar o Homem-Aranha ‘moderninho’, colocando o nosso épico herói na realidade, no que acontece ao nosso redor nos dias de hoje, sem a menor preocupação com os elementos clássicos e com os aprendizados morais que moldaram o caráter do Aranha durante todos esses anos. A modernização está acontecendo principalmente desde que essa nova ‘era’ está na ativa nos quadrinhos, eu diria de The Amazing Spider-Man #614 (Homem-Aranha 11 aqui no Brasil) em diante. Para quem não se recorda, essa é a edição na qual o Clarim Diário é destruído pelo Electro – até então um vilão de segundo escalão nas histórias. Eu respeito essa tentativa de elevar o nível dos vilões, aliás, isso é vital para qualquer personagem que se preze. Mas destruir o Clarim foi um ato único e exclusivo, e depois disso Electro desapareceu.

Esse fato foi o estopim para as grandes mudanças na vida de Peter Parker

A destruição do CD causou grande repercussão na mídia, Peter Parker sofrendo até não poder mais com o acontecido, afinal, ele trabalhava lá. A partir daí, as publicações em The Amazing Spider-Man desceram de qualidade a um nível microscópico, tendo poucas ressalvas depois disso (como a Caçada Sinistra, em referência à saga dos anos 90 de Kraven, além da aparição de alguns vilões como o Escorpião). Para quê mostrar a vida de Peter Parker tantas vezes? De quê adianta mostrar o trabalho dele se isso não muda nada em suas atitudes como herói?

Você deve estar pensando ‘Ah, mas você só quer ver o Homem-Aranha nas revistas então?’. Não. Pelo contrário. Quero ver Peter Parker. Mas o Peter Parker de verdade, não a versão adaptada.

O Erro Superior

Como eu disse, Dan Slott é culpado por muitas coisas. Nesses últimos meses, porém, esses erros foram elevados ao quadrado, quando vimos a ‘mente de Peter Parker’ sendo transportada para o corpo do Doutor Octopus e vice-versa. Dan Slott passou dos limites. Não há um roteirista que tenha feito tal… Idiotice numa história do Aranha como este. Quando o preview saiu, eu fiz questão de demonstrar a minha insatisfação no Aracnofã. Então, o spoiler foi confirmado e o conceito de Dan Slott diminuiu ainda mais de tamanho.

Para piorar as coisas, algum tempo depois, ele ainda fez questão de destruir toda a honra da Tia May, um dos exemplos que Stan Lee quis usar como um pilar na formação de boas condutas. Nessa brincadeira toda, foi incluído numa das três últimas edições uma lembrança de Peter (que estava em estado vegetativo e no corpo de Octopus) da época em que o Doutor quase se casou com a tia May, tendo partes incrivelmente babacas e desnecessárias, que insinuavam ao leitor uma cena de sexo entre a tia de Peter e o próprio Octupus. E depois, Slott, com medo das críticas, ainda fez comentários ainda mais babacas sobre essa parte, como ‘Ah, cada um entende de uma forma, eu não mostrei nada’.

Me diga, caro leitor, o que diabos é isso? Que tipo de roteirista acaba com a honra da Tia May e depois simplesmente dá declarações tão… descompromissadas como essa?

Então, chegamos à edição 700. Hoje pela manhã, recebi um e-mail do caro Erick Vinícus (editor-chefe do Aracnofã) com a pior notícia, a maior afronta, a pior decisão, a coisa mais inesperada de todas: o Doutor Octopus mata Peter e se declara ‘O Superior Homem-Aranha’, título da revista que substituirá The Amazing Spider-Man a partir do ano que vem.

Por essa, ninguém esperava.

Por essas e outras, fico ainda mais disposto a não gastar nenhum centavo numa edição do Homem-Aranha, pelo menos até que tudo seja esclarecido.

Mas nem por isso deixarei de ser fã do Homem-Aranha. Porque o Homem-Aranha de verdade, não o adaptado, não o Superior, é imortal. E inesquecível. É por esse passado cheio de glórias e reviravoltas que eu aguardo ansiosamente para que o sol nasça novamente para Peter Parker: o primeiro e único Homem-Aranha da história.


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