Fundador da AreaE dá dicas para quem quer entrar no mercado de quadrinhos

Leandro de Barros

  quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Fundador da AreaE dá dicas para quem quer entrar no mercado de quadrinhos

Sempre sonhou em trabalhar com quadrinhos? Nunca soube desenhar mas quer aprender pra poder colocar umas ideias no papel? Seja qual for seu perfil, estudar e se aprimorar é essencial!

Adolescente começa a ler comics e mangás quando jovem e passa a fazer seus próprios desenhos, que impressionam os pais e os amigos. Nasce daí o sonho de trabalhar criando histórias em quadrinhos como as que cresceu lendo, mas o tempo passa e a falta de prática e estudo estagnam o desenvolvimento do seu traço e o sonho de ser um desenhista profissional fica cada vez mais como um desejo onírico do que como um futuro próximo.

É bem provável que você conheça alguém que se encaixe nessa descrição – ou até mesmo você pode ser essa pessoa. Esse cenário é tão comum que eu poderia apostar que você conhece alguém assim. Mas o que impede que as pessoas desenvolvam suas habilidades e passem a trabalhar com desenho? Falta de estudo.

Muita gente acha que desenhar é um “dom”. Existe “quem sabe” e “quem não sabe”. O problema é que essa visão ignora completamente os anos de esforço e estudo que os desenhistas profissionais passam para chegar nesse nível – e quando você não tem com quem praticar suas habilidades, as coisas ficam ainda mais complicadas.

Fabrizio Torao Yamai, fundador da AreaE

Fabrizio Torao Yamai, fundador da AreaE

É por isso que existem escolas de desenho como a AreaE, baseada no bairro da Liberdade, em São Paulo. Fundada em 2004 por Fabrízio Torao Yamai, a escola é especializada em aulas de desenhos (estilo mangá e comics), esculturas e diversos tipos de técnicas de pinturas (aquarela, guache, lápis de cor).

Além dos seus cursos regulares, a escola também realiza diversos workshops e eventos especiais onde seus alunos podem trocar experiências e aprender diretamente de profissionais da indústria dos quadrinhos. No começo desse mês, por exemplo, Daniel HDR (desenhista brasileiro que já trabalhou com a Marvel e a Dark Horse nos EUA) participou de um workshop onde ofereceu dicas e compartilhou a sua experiência que  é difícil encontrar em manuais.

Para te ajudar mais a obter informações sobre como desenvolver suas habilidades de desenho, a gente conversou com o fundador da escola sobre o ofício do desenho, as dificuldades do mercado de trabalho nacional e como sobreviver sendo um desenhista profissional.

Confira:

Supernovo (SN): O que você pode dizer sobre a AreaE? Sua fundação, os profissionais que trabalham ali…

Fabrízio Torao Yamai (FTY): “A AreaE foi criada em 2004, numa época em que o mercado de mangás estava em pleno crescimento. Fãs promoviam encontros para assistir animes e trocar dicas de desenho, mas não havia nenhuma instituição especializada em ensinar a desenhar nesse estilo. Hoje contamos com mais de 30 turmas e 350 alunos. Os professores da escola possuem formação em diferentes áreas da indústria criativa. Alguns, além de lecionar, trabalham com ilustração para fins editoriais e publicitários, em estúdios ou de forma autônoma. O nosso objetivo é oferecer cursos artísticos de qualidade, tanto para os interessados em se profissionalizar na área como para os hobbystas“.

SN: Em Dezembro a AreaE fez um workshop com o Daniel HDR, que já trabalhou em HQs da Marvel, DC Comics e da Dark Horse. Qual a importância de aprender com um profissional da indústria para quem sonha em eventualmente desenhar para as maiores editoras dos EUA?

FTY: “Ter contato com alguém atuante no mercado é muito importante para o seu crescimento e amadurecimento profissional. Da mesma forma que o professor pode guiar o aluno e ajudá-lo a superar obstáculos, o profissional pode compartilhar sua experiência e esclarecer muitas dúvidas a respeito do ofício que o aspirante não encontrará registrado em nenhum livro ou manual”.

SN: Muita gente trata a habilidade de desenhar como um “dom”, algo que ou se tem facilidade ou não. Qual a importância de um curso formal para a habilidade de desenhar? É possível aprender a desenhar do zero, mesmo sem nenhuma facilidade natural?

FTY: “A vantagem de fazer um curso é encurtar o período de aprendizado. Muitas vezes, o professor pode ter técnicas e atalhos para atingir o resultado de forma mais eficiente que um autodidata, pois o professor já trilhou o caminho das pedras e pode guiar seus alunos quando se deparam com os obstáculos, enquanto que o autodidata terá que descobrir o caminho sozinho. É possível sim aprender a desenhar do zero. Aqui na escola eu costumo dividir os alunos em dois grupos: o primeiro é formado por aqueles que têm facilidade em desenhar, que desenham por instinto – o que as pessoas chamam de “dom” – e o segundo é formado por aqueles sem essa característica, que desenham usando a lógica, se valendo de regras e aprendendo por repetição. Os alunos do segundo grupo levam mais tempo, mas invariavelmente todo mundo aprende a desenhar”.

SN: Atualmente o mercado brasileiro de quadrinhos é dominado por importações, são poucas as produções nacionais que encontram espaço por aqui – ao mesmo tempo, não faltam profissionais nacionais talentosos por aí. Existe um mercado de trabalho para quem quer viver do desenho, mesmo que isso não inclua histórias em quadrinhos?

FTY: “Sim, existe! Muitos dos trabalhos aqui do estúdio são para agências de publicidade. Desenho de storyboards, criação de mascotes, ilustrações para editoriais… Tem também trabalhos vindos diretamente de empresas, como ilustrações para manual de treinamento ou caricaturas dos seus funcionários. O desenhista precisa ser criativo e pensar fora da caixa: talvez a arte dele não esteja madura o suficiente para oferecer um serviço de criação de mascote para uma agência, mas a padaria do lado da sua casa esteja precisando exatamente disso. Nos eventos em que participei ministrando oficinas de desenho, tive a oportunidade de conhecer caricaturistas que criavam suas famílias e pagavam as contas de casa exclusivamente com o seu ofício. O mais importante para o desenhista, além de ter uma qualidade técnica compatível com o projeto que tenta vender, é ter disciplina para cumprir prazos, cordialidade na hora de tratar com os clientes e muita iniciativa: não adianta ficar sentado esperando “ser descoberto” ou esperando o trabalho bater na sua porta. É preciso correr atrás das oportunidades e divulgar o seu portfólio.

Workshop com Daniel HDR na AreaE

Workshop com Daniel HDR na AreaE

SN: A AreaE parece ter um pézinho mais focado no estilo mangá (até porque se encontra no bairro da Liberdade), mas também possui aulas do estilo comics. O que é mais procurado?

FTY: “Por muito tempo, o curso de desenho no estilo mangá foi o mais procurado aqui na escola, devido ao grande crescimento desse marcado no Brasil. Porém, recentemente, temos acompanhado o crescimento de outro mercado: o de geeks e nerds. Influenciada pelas grandes produções hollywoodianas baseadas em heróis de comics, muita gente que não tinha contato com os quadrinhos passou a se interessar pelo assunto. Consequentemente, a procura pelo nosso curso de comics vem aumentando gradualmente”.

SN: Recentemente a JBC lançou a Henshin Mangá, antologia com os vencedores do Brazil Mangá Awards e já anunciou a nova edição do concurso. Esse tipo de iniciativa pode abrir pouco a pouco as portas do mercado nacional para produções daqui? Simular um estilo estrangeiro (mas mais comum ao público) é a melhor maneira de procurar uma identidade própria pro artista?

FTY: “Muitos artistas talentosos cedo ou tarde acabam se deparando com a barreira da publicação do trabalho. Eles investem tempo e dinheiro para treinar suas técnicas e quando atingem um patamar que lhes permitiriam publicar algum trabalho, não encontram nenhum canal para fazê-lo. Muitos artistas independentes escolhem o caminho do financiamento coletivo, o crowdfunding, exibindo seus projetos em sites como o Catarse. Mas este é um processo que exige um nível de planejamento e capacidade de gerência que nem todo desenhista possui. É aí que a iniciativa da JBC se mostra interessante, trazendo a oportunidade para o artista de ter o seu trabalho publicado, mas tirando dele o ônus desse processo: o artista só precisa se concentrar em desenhar e fazer o seu melhor. Quanto à identidade do artista, é importante que ele esteja satisfeito com o seu traço e isso independe dele estar simulando um estilo estrangeiro (como comics ou mangá) ou estar criando um estilo próprio, autoral. Ele só precisa estar ciente de que independente do caminho que escolher, é a qualidade do seu trabalho que atrairá o interesse de editores ou do público de um site de crowdfunding”.

SN: Quadrinhos não é o único ramo artístico da escola, vocês também trabalham com pintura, dobraduras e esculturas, certo?

FTY: “Sim. Procurando formar alunos mais completos artisticamente, disponibilizamos cursos de diversas áreas para complementar a bagagem do aluno: pinturas com aquarela, guache e lápis de cor, ilustração realista com lápis de grafite, kirigami (engenharia de papel) e escultura com massa”.


Ok, gostei! Como eu faço pra saber mais sobre a AreaE?

areaeA equipe da AreaE é formada por diversos profissionais com qualidades variadas, que vão desde a produção de retratos, criação de história em quadrinhos, pintura e arte-final, até a elaboração de aulas e oficinas em eventos.

O traço da equipe é eclético, cobrindo desde o cartoon e traços em SD até o mangá shonen (voltado para o público masculino) e o mangá shôjo (voltado para o público feminino).

Você pode encontrar a escola na Rua da Glória, número 279 no Edifício RIAN, no Bairro da Liberdade, em São Paulo – é bem perto da estação Liberdade do Metrô!

Você também pode entrar no site oficial da escola (http://www.areae.com.br) e saber mais sobre como pode estudar desenho e aprimorar seu talento – eles inclusivem estão com um programa de cursos de férias bem legal pro começo do ano que vem!

E aí, vai ficar parado deixando o braço enferrujar ou vai colocar sua arte pra trabalhar?


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