As mortais diferenças entre Jogos Vorazes e Battle Royale

Leandro de Barros

  segunda-feira, 21 de abril de 2014

As mortais diferenças entre Jogos Vorazes e Battle Royale

Num serviço de utilidade pública, o Supernovo.Net decide explicar por A + B que Battle Royale e Jogos Vorazes NÃO são a mesma coisa. Agora você já pode dormir em paz…

Esse é um post do Supernovo publicado originalmente em 2012, mas que se perdeu pelo caminho da vida durante uma queda brusca do nosso servidor. Depois de muito tempo, conseguimos recuperar um pedaço desse texto e aproveitamos para recauchutá-lo, trocar a lataria e republicá-lo.

“Hey, já leu Jogos Vorazes?
“Não, que parada loca de dorgas é essa aí? É de comer?”
“Obviamente que não ou eu teria perguntado se você já tinha comido Jogos Vorazes”
“Iih, ó a vibe errada do maluco…”
“Enfim, Jogos Vorazes é uma saga que se passa num mundo distópico onde o governo coloca crianças numa competição transmitida pela TV onde eles precisam lutar até a morte como forma de contr…”
“Ah, é aquele 
Battle Royale pra adolescentes?”

Amigo fã de Jogos Vorazes, eu tenho certeza que o cenário relatado acima já aconteceu com você. Talvez com menos eloquência por parte de algum dos interlocutores, talvez sem a piada idiota do “É de comer?”, mas a essência já deve ter se reproduzido por aí. E digo mais: o contrário também é muito válido. Jogos Vorazes é chamado de “Battle Royale americano” e Battle Royale é chamado de “Jogos Vorazes japonês” por aí. Assim, vendo as pessoas discutirem coisas do tipo por aí, eu decidi escrever um pouquinho sobre as diferenças entre as duas obras (não, elas não são iguais e não, ninguém copiou ninguém).

Antes de começar, preciso esclarecer algumas coisas:

  • Eu vou tentar deixar esse texto sem spoilers, mas eu vou precisar citar alguns acontecimentos de ambas as obras. Vou me esforçar para não mencionar mortes e coisas MUITO importantes, mas uma ou outra coisa vai escapar para poder exemplificar meu ponto de vista. Quanto mais você souber de Battle Royale e Jogos Vorazes, melhor. Mas se você não conhecer um deles (ou os dois), garanto que não vou estragar a sua diversão;
  • Eu li os três livros de Jogos Vorazes (e vi oa filmea) e li o mangá de Battle Royale (e vi o filme). O livro de BR só chegou recentemente ao Brasil, atráves da Globo Livros, e ainda não tive a oportunidade de lê-lo. Dessa forma, eu tenho de me basear na versão em mangá. Porém, vou levar em conta as diferenças que os dois formatos (livros de JV e quadrinhos de BR) aplicam nas duas obras.

Vamos lá!

Battle Royale Filme

Tirando o elefante da sala: a diferença no foco

Ok, se é para fazer notar as diferenças entre Jogos Vorazes (chamada daqui para frente de JV) e de Battler Royale (BR), então vamos meter logo o pé na porta e falar da mais óbvia diferença, mas que mesmo assim parece escapar dos olhos das pessoas: o foco das duas séries.

Pra definir de forma simples, eu diria que BR é uma série sobre o Eu e JV é uma série sobre o Nós. BR é indivíduo, JV é sociedade. Isso, por si só, muda absolutamente toda a visão das duas obras.

Existem certos elementos que são usados em histórias para gerar certas reações. Por exemplo, normalmente não existe “história de zumbi”. Existem histórias onde os zumbis são utilizados como alegorias para desencandear certas mensagem. George Romero os utilizava para satirizar a cultura consumista da sociedade americana, por exemplo. É possível usar os zumbis como ambientação para uma história sobre humanização ou usá-los apenas porque é legal e está na moda.

Mas Seu Leandro, o que zumbis tem a ver com JV e BR? Tem zumbis na história?

Não, pequeno gafanhoto. Porém, eu usei o exemplo dos zumbis para mostrar como certos elementos podem ser usados com diferentes propósitos. Os zumbis do Romero e os de The Walking Dead (a série de TV, pelo menos) possuem funções completamente diferentes. Assim como o elemento “central” de JV e BR.

Eu falo, claro, da “competição até a morte entre jovens”. As duas obras possuem esse elemento em sua trama central, apesar de a usarem de modo absolutamente diferente. Em BR, uma turma que está terminando o Ensino Fundamental é levada até uma ilha onde participam do Battle Royale, uma competição até a morte entre jovens. Em Jogos Vorazes, dois jovens de cada distrito de Panem são levados para uma arena onde participam dos Jogos Vorazes, uma competição até a morte entre jovens. Eu consigo ver a semelhança e acho que você também. Mas e a diferença?

Jennifer Lawrence Jogos Vorazes

Lembram quando eu disse que BR era sobre o Eu e JV era sobre o Nós? Isso se aplica aqui. O elemento da “competição até a morte entre jovens” é usado de forma diferente nas duas séries.

Em BR, a competição é feita para ativar o desenvolvimento dos personagens da trama. É nisso que a série se foca: na “jornada” de cada um. Cada jovem ali presente possui a sua pequena jornada pessoal. Alguns precisam aprender a confiar nas pessoas, outros precisam aprender a acreditar e tem um que não precisa aprender, mas precisa ter determinação para não mudar e não desistir. E isso que eu estou falando apenas de três personagens (você adivinhou quais são?).

E é justamente sobre isso que se trata BR (ou pelo menos é essa a minha visão): concluir a sua história de vida. Não num sentido místico de “destino” e “Deus me disse desce e arrasa”, mas num sentido em que nós nascemos e vamos escrevendo nossas histórias a partir de nossas experiências, gerando medos, complexos, relações e afins que precisam de uma conclusão. E essa conclusão pode ser positiva ou negativa. A única certeza é que se vai morrer, mas isso não garante que “tudo vai dar certo no final”. Você pode morrer “aprendendo a lição” e descobrindo o sentido da sua vida ou você pode morrer no meio da sua jornada. Você pode se manter focado ou enlouquecer no meio do caminho.

Já em JV, a competição existe para falar sobre a sociedade da obra. Os Jogos Vorazes da história não estão ali para proveito do desenvolvimento de nenhum personagem, mas para uma crítica (e posterior desenvolvimento) da SOCIEDADE retratada nos livros. O foco de tudo na Trilogia de Suzanne Collins é o quão bisonhamente estragada é uma sociedade para colocar jovens para lutar pela vida apenas por entretenimento. A crítica cai como um soco na cara a partir do momento em que começa a ser traçado um paralelo sobre aquela sociedade (que explora as pessoas dos distritos) e a nossa sociedade (que TAMBÉM explora os habitantes de países subdesenvolvidos, como alguns da América Latina, África e Ásia). JV é social, BR é pessoal.

Diferentes abordagens

Nós já falamos sobre a diferença de foco na utilização do elemento em comum entre as duas séries (a competição de sobrevivência), o que diferente JV de BR como Her, de Spike Jonze, é diferente de AI – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, quando o assunto é artificialidade do pensamento: o elemento é o mesmo, mas a utilização é completamente diferente.

Porém, há uma outra diferença mais sutil, mas igualmente importante nessas duas obras: a maneira como elas abordam o tema proposto – e isso tem muito a ver com os públicos-alvos diferentes, o contexto cultural de cada obra e o estilo de cada autor.

Começando por JV, focada num público juvenil/jovem-adulto ocidental, que é muito mais direta, aberta e expositiva sobre os seus pontos.

Como já dito antes, JV é um comentário social em cima de alguns aspectos do modo de vida contemporâneo – sempre de maneira explícita e expositiva, através dos olhos da protagonista da trilogia. Um exemplo claro é quando um certo personagem da série explica o que era a política de pão e circo da Roma Antiga, fazendo o paralelo com a situação de Panem (que, aliás, se chama Panem por causa da expressão original de “pão e circo”, que é “panem et circus”). Mesmo elementos mais sutis desses comentários são expostos pelos personagens principais de JV (a cada vez mais bizarra moda de Panem, por exemplo, é apresentada como uma maneira de distração e expressão de futilidade dos habitantes da Capital), tudo acompanhado pelos olhos de Katniss para que o leitor possa facilmente fazer todas as referências necessárias – assim, quando a protagonista de JV, que passou fome por anos, vê um grupo de habitantes da Capital vomitando de propósito numa festa apenas para poder comer mais, é difícil o leitor não levar um soco no estômago ao comparar essa situação com o mundo onde vivemos hoje (África, alguém?).

Já em BR, as coisas são diferentes. Focado na jornada pessoal de cada personagem, a obra é (pelo menos no seu mangá) mais sutil e, ao mesmo tempo, mais gráfica e subjetiva ao expor seus pensamentos – abro aqui um pequeno ponto: ao dizer que JV tem uma abordagem mais direta e que BR é mais subjetiva, posso dar a impressão que uma é melhor que a outra por alguma razão. Não é a minha intenção e ambas as abordagens possuem seus méritos e desméritos, não é isso que está sendo debatido aqui.

battle royale kiAlém do perigoso Kiriyama (uma representação do poder destrutivo da racionalidade humana caso não seja acompanhada de um compasso moral apropriado – afinal, Kiriyama é um ser sem emoções), um dos grandes exemplos dessa abordagem de BR é o personagem Sugimura. No mangá, o rapaz é um praticante de artes marciais que está procurando pela sua amada dentro do jogo, para protegê-la. O grande vilão de Sugimura é si mesmo e o seu medo de ser violento e de agir. Assim, quando seu momento de agir chega, o mangá retrata sua energia de uma maneira muito gráfica, chegando a brincar com a suspensão de descrença do leitor, mas cujo simbolismo fica claro: o personagem percebe que a vida é um fluxo e se preocupar em tentar controlar esse fluxo apenas causa atrito, precisando aprender a fluir com a vida.

Esse capítulo não é o único onde a série denota um cuidado gráfico ao passar pelas definições de cada um dos seus personagens, embora alguns elementos mais comuns estejam presentes de forma recorrente: como gatos, por exemplo, que interagem com quase todos os personagens.

Pra terminar então…

É claro que o fato de duas que influenciaram a cultura pop recente da maneira eu Battle Royale e Jogos Vorazes fizeram terem elementos específicos tão parecidos chama a atenção, mas acusar uma de plagiar a outra ou se negar a conhecer uma delas porque já leu a outra (e acha que é tudo a mesma coisa) é equivalente a comparar HQs americanas à mangas porque “é tudo gibi mesmo” ou achar que Alien – O 8º Passageiro e 2001: Uma Odisséia no Espaço falam sobre a mesma coisa porque “se passam no espaço”.

Claro que sempre rola um pouco daquele protecionismo em relação a obra que veio primeiro (e, vamos convir, até um pouco de elitismo cultural de algumas pessoas por curtirem um material de um mercado mais obscuro por aqui – o Japão – em contrapartida à uma obra parecida de um mercado mais mainstream – os EUA), mas sempre rola espaço para diferentes utilizações de elementos narrativos aqui e ali.


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