Os Erros Históricos de Coração Valente

Luiz Alexandre Andrade
@luizalexandre82

  sexta-feira, 15 de maio de 2015

Coluna /// História em Cartaz História em Cartaz

Os Erros Históricos de Coração Valente

Comemorando os 20 anos de Coração Valente vamos ver onde o filme acertou e onde errou historicamente

Um dos filmes mais aclamados do ator e diretor Mel Gibson completa 20 anos em 2015, “Coração Valente” foi um sucesso e venceu 5 prêmios da Academia, incluindo o Oscar por Melhor Filme e Melhor Diretor. Na trama desenvolvida por Gibson, situada no século 13, William Wallace é um simples camponês que tem sua mulher morta por soldados ingleses. Com o desejo de vingança espumando pela boca, Wallace com a ajuda de Robert, the Bruce lidera um levante contra o rei inglês Edward I lutando também pela liberdade da Escócia.

Tudo muito lindo, tudo muito bonito. Uma história de luta contra a opressão, uma história de amor que move Wallace e lutar pela liberdade de um povo acompanhado por uma excelente trilha sonora e com cenas de batalhas e frases de efeito que entraram para a história do cinema, MAS (sempre tem um “mas”)… a história real não foi bem assim.

Muita coisa que vemos no enredo de “Coração Valente” nunca existiu e muitos fatos foram distorcidos ou mesclados com outros para servir a história que Mel Gibson quis contar. Deixando de lado por um momento o objetivo do filme que é entreter (e render milhões) vamos analisar seus erros históricos confrontando-os com os fatos da verdadeira trajetória de William Wallace, mesmo que historicamente, os fatos sobre a vida de Wallace ainda precisem de confirmações.

Podemos começar falando sobre a origem de William Wallace. No filme, William é o filho de um simples fazendeiro, nascido em meio à pobreza e foi amparado pelo tio após a morte do pai em uma batalha. No entanto, historiadores acreditam que William Wallace nasceu na aristocracia escocesa e era um cavaleiro durante a Batalha de Stirling. Ainda sobre a vida de Wallace, no filme, sua mulher é batizada como “Murron”, mas na verdade ela chamava-se “Marian”. A mudança do nome foi feita por Mel Gibson, pois não queria que o público a confundisse com a “Marian” de Robin Hood porque é assim que o mundo funciona. Você batiza seu filho como “Eudinescley” e não como “Francisco” para as pessoas não o confundirem com outros Franciscos.

Outro ponto interessante para se analisar é o figurino do filme. Numa das cenas mais famosas de “Coração Valente”, os escoceses aparecem usando kilts (as “saias”), porém, os fatos retratados estão situados no século 13 e os kilts se tornaram populares apenas no século 17. Os soldados ingleses aparecem usando uniformes, mas isso não era um fato naquela época. No tempo de Wallace, os soldados usavam qualquer coisa que tinham disponíveis já que manter armaduras era algo bem caro para os mais pobres. Claro que no filme isso pode haver uma justificativa, trata-se de diferenciar quem é quem na hora das cenas de batalha.

braveheart-4fdb9d04e023e

Outra cena que é bastante lembrada pelos fãs do filme sendo um dos momentos importantes de “Coração Valente”, é quando um nobre surge conclamando seu direito da “Primae Noctis”. O detalhe disso tudo é que a “Primae Noctis” nunca existiu! Trata-se, segundo alguns historiadores, de um mito histórico urbano já que esse direito nunca foi usando por ninguém em qualquer lugar.

As pinturas azuis nos rostos dos escoceses é outro exemplo de erro histórico que Mel Gibson intencionalmente usa no seu filme. Provavelmente o diretor teve acesso a informação de que os pictos escoceses tinham a tradição de pintar o rosto de azul para assustar seus inimigos e achou que isso ficaria legal em seu filme. De fato ficou.

Você sabia que a Batalha de Stirling retratada no filme chama-se na realidade de a Batalha de Stirling… Bridge! A palavra “bridge” em inglês significa “ponte”, pois os ingleses tiveram que atravessar uma ponte para atacar os escoceses. A ponte de Stirling era muito pequena e foi estratégica para a vitória de William Wallace, foi algo como as Termópilas para os gregos contras os persas.

Histórias de amor sempre é prato cheio nos enredos dos filmes hollywoodianos. “Coração Valente” não escapa dessa fórmula e mais uma vez, Mel Gibson “rasga” o livro de História para contar seu filme. Quando Isabelle da França era noiva do Príncipe Edward, ela tinha apenas 4 anos de idade, ou seja, desta maneira ela jamais poderia ter tido algo com William Wallace.

mel_gibson_in_braveheartAinda sobre histórias de amor, é importante falar sobre o amante do príncipe Edward, Philip. Diferentemente do filme que mostra Philip sendo jogado de uma janela, isso nunca aconteceu. Phillip, que provavelmente era conselheiro militar de Edward II, Philip de Mowbray, viveu muitos anos. A bissexualidade de Edward II não é totalmente imprecisa segundo alguns historiadores. Ele teve cinco filhos e até hoje não está claro se de fato Edward teve algum relacionamento homossexual com Philip de Mowbray.

Na Batalha de Falkirk, o filme retrata o momento em que escoceses e ingleses param o conflito para apertar as mãos, só que isso nunca aconteceu. O filme não mostra a verdadeira razão da derrota escocesa e Edward não era tão sangue frio como retratado em “Coração Valente”. Edward tinha um exército formado também por recrutas ingleses e galeses, estes que tinha a capacidade de atirar flechas a distâncias maiores do que os escoceses.

Por mais espetacular e épica tenha sido a execução de William Wallace no filme, ela é retratada de forma inequívoca. William Wallace foi enforcado e esquartejado, destino de todos os traidores (alguém lembrou do Tiradentes?), mas não somente isso: Wallace, antes da execução, foi despido, arrastado pelos arredores da cidade por carro puxado por cavalo, aí sim depois foi enforcado, teve suas vísceras expostas, castrado, o corpo feito em pedaços e por último decapitado. Posteriormente, várias partes do corpo de Wallace foram exibidas publicamente pela Inglaterra. No filme, antes de ser decaptado, William grita: “liberdade”, no entanto não se sabe quais foram as suas últimas palavras.

Agora um dos fatos do filme que pode causar uma ideia errada é o seu título. O filme nos leva a crer que o “Coração Valente” trata-se de William Wallace, o herói do enredo, mas esse apelido é na verdade de Robert, the Bruce, uma das várias pessoas interessadas no trono da Escócia com a Guerra de Independência. Após sua morte, o coração de Robert foi levado para o campo de batalha dando origem ao apelido.

É necessário dizer que muitos filmes de ficção histórica apresentam fatos diferentes das suas versões reais. A liberdade artística permite aos diretores e roteiristas preencher as lacunas que a história apresenta e que nem os historiadores sabem como respondê-las. Filmes podem educar, doutrinar e expor as mazelas do mundo, mas antes de tudo é importante lembrar que também são formas de entretenimento. “Coração Valente” não tem a obrigação de ser uma “história real”, seu objetivo não é ser didático, mas descobrir as incongruências históricas do filme acaba tornando-se uma descoberta divertida. Espero que tenha sido para vocês assim como foi para mim. Então curtam o filme procurando agora pelos seus “erros históricos”. “Coração Valente” segura o livro de História e grita na cara dele: “FREEDOM!”

giphy

Fonte: TheHande

Sobre » História em Cartaz

Fatos, curiosidade e referências históricas de filmes, séries de TV, games e livros você encontra aqui no História em Cartaz, a coluna que vai te mostrar que Historia não é um assunto chato.


Já está nos seguindo no Twitter e no Facebook? Vem trocar uma idéia com a gente também no Botecão do Jack, nosso grupo no Facebook. Se quiser algo mais portátil, corre pro Telegram.

Comentários