A verdade por trás do Mito de Pocahontas

Luiz Alexandre Andrade
@luizalexandre82

  quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Coluna /// História em Cartaz História em Cartaz

A verdade por trás do Mito de Pocahontas

Por mais inverossímil que seja a versão Disney de Pocahontas (1995), o filme tem seu valor ao nos permitir a discussão sobre os mitos e os estereótipos que a produção reproduz.

Na história existem fatos tão envoltos de mitos que raramente conseguimos perceber o que é real e o que é ficção. Acontece que muitas vezes tais mitos são difundidos em filmes, livros ou até em músicas e acabam criando uma espécie de “verdade” de tão repetitiva que é tal versão. Para darmos um exemplo do que estamos falando, é só lembramos de Pocahontas, a nativa norte-americana que já foi protagonista de muitas histórias que raramente apresentam versões dos fatos reais.

Pocahontas era umas das filhas de Powhatan, cacique supremo das tribos que viviam na região da Virgínia, que em 1607 foi ocupada por colonizadores ingleses que fundaram Jamestown. Vamos analisar alguns pontos interessantes da sua vida e descobrir o que é falso ou verdadeiro sobre o mito construído em torno de Pocahontas.

Seu nome verdadeiro é Pocahontas

FALSO! Seu nome verdadeiro era Matowaca. Pocahontas era seu apelido que significava “pequena traquinagem”. Pocahontas deve ter dado trabalho na tribo para merecer tal apelido.

Pocahontas salvou John Smith da morte certa

FALSO! O que poderia ser o primeiro grande encontro entre duas almas gêmeas, na verdade, teria sido pura invenção do próprio John Smith. Segundo consta no livro “História Geral da Virgínia”, escrito pelo próprio John Smith, o inglês estava em uma expedição pelo rio Chickahominy quando fora capturado por índios. Levado a Powhatan, Smith foi obrigado a se ajoelhar perante o chefe e no momento que seria apedrejado, Pocahontas se jogou sobre o colonizador e colocou sua cabeça sobre a dele. O que não podemos deixar de falar é que John Smith pode ter sido um grande marqueteiro. Essa não seria a primeira vez que Smith revela ter sido salvo já que em outros relatos, menciona várias vezes que teve a vida salva por belas mulheres. O livro que conta tal fato foi publicado em 1624, ano em que nenhuma das testemunhas estava viva para poder contestar tal versão.

Pocahontas_e_John_Smith__colors_of_the_wind_by_athena_chan

John Smith e Pocahontas se apaixonaram

FALSO! É isso mesmo, o romance entre o colonizador inglês e a nativa norte-americana é pura invenção. Vamos aos fatos: quando John Smith chegou a Virginia, era um homem de meia idade enquanto Pocahontas era uma criança com provavelmente 11 anos. O que acontece é que os dois passaram algum tempo juntos, onde a pequena indígena ensinou ao colonizador a língua nativa assim como John Smith ensinava o inglês para ela.

Pocahontas já era casada antes de se tornar esposa de John Rolfe

VERDADEIRO! Por volta de 1610, Pocahontas era casada com o guerreiro Kocoum, segundo consta um relato feito em 1612 por William Strachey: “…indo por algumas vezes ao nosso forte no passado, agora casada com o guerreiro chamado Kocoum, dois anos atrás”. Em 1613, Pocahontas fora capturada e mantida refém por mais de um ano em Jamestown, onde foi bem tratada. Foi durante sua estada na colônia que conheceu John Rolfe, o qual se apaixonou pela nativa. Rolfe era viúvo e conseguiu permissão para casar-se com Pocahontas e juntos tiveram um filho, Thomas. Quanto a Kocoum, pouco se sabe dele, o mais provável é que tenha morrido em combate e dessa forma teria tornado possível o casamento entre Rolfe e Pocahontas.

Pocahontas-Images-pocahontas-22348461-400-240

Rebecca também era outro nome de Pocahontas

VERDADEIRO! Durante sua passagem por Jamestown, Pocahontas teve aulas da doutrina cristã ministradas pelo reverendo Alexander Whitaker. Quando casou com John Rolfe, converteu-se ao cristianismo e adotou o nome de Rebecca, passando a ser conhecida como Lady Rebecca Rolfe. Apesar de adotar o estilo de vida britânico, Pocahontas nunca abandonou suas origens e foi um importante elo entre os colonos e os indígenas.

A mitificação em torno de Pocahontas começa ainda quando ela e John Rolfe visitam a Inglaterra em 1616. A indígena era vista como uma conquista dos colonizadores, capazes de tornar dócil os “selvagens” e converte-los aos seus costumes. No século XIX, o mito do “bom selvagem” contribuiu muito para a construção mítica de Pocahontas, que foi vista como a “Mãe de Duas Nações”. O romance fictício com John Smith faz parte dessa construção que reforça o estereótipo da indígena que se apaixona pelo colonizador.

Por mais inverossímil que seja a versão Disney de Pocahontas (1995), o filme tem seu valor ao nos permitir a discussão sobre os mitos e os estereótipos que a produção reproduz. Para fazer um contraponto, é necessária um olhar sobre o filme “O Novo Mundo” (2005) de Terrence Malick que de forma contemplativa reproduz uma versão mais fiel aos fatos históricos.

Sobre » História em Cartaz

Fatos, curiosidade e referências históricas de filmes, séries de TV, games e livros você encontra aqui no História em Cartaz, a coluna que vai te mostrar que Historia não é um assunto chato.


Já está nos seguindo no Twitter e no Facebook? Vem trocar uma idéia com a gente também no Botecão do Jack, nosso grupo no Facebook. Se quiser algo mais portátil, corre pro Telegram.

Comentários