Análise Histórica Assassin's Creed Unity

Ambientado num dos períodos históricos mais famosos da sociedade européia, Assassin's Creed Unity leva a Revolução Francesa para os games

Luiz Alexandre Andrade
@luizalexandre82

  quarta-feira, 03 de dezembro de 2014

Como um rei cambaleante fugindo de um povo furioso e armado até os dentes, a Ubisoft lançou Assassin’s Creed Unity. O lançamento gerou grandes expectativas, mas a recepção foi um tanto frustrante. Os bugs acabaram tirando um pouco do brilho desta nova edição do game de grande sucesso. Mas vamos falar do contexto histórico de Assassin’s Creed Unity, afinal de contas, o que estava acontecendo na França quando Arno Dorian entrou para a Ordem dos Assassinos?

Você já tem a resposta: a Revolução França. Sim, aquele período histórico que muita gente acha um saco de estudar, mas agora vai ter muito gamer pesquisando sobre o que aconteceu naquela época só por causa do jogo. E cá estamos nós para te dizer o que estava acontecendo. Na verdade, vamos fazer uma análise histórica do prólogo de AC Unity, ou seja, a primeira hora do jogo.

O Contexto Histórico

Assassins Creed Unity 07No final do século XVIII, a França, comandada pelo rei Luís XVI, passava por um dos piores momentos da sua história. Uma grave crise econômica revelava a insuficiência do Estado em pagar suas dívidas, além disso, em 1785, uma grave seca acabou com o seu rebanho bovino, seguiram-se três anos de péssimas safras agrícolas fazendo disparar o preço de alimentos básicos na mesa do povo francês, como o pão que subiu tanto em 1789 que um trabalhador da cidade pagava o equivalente a 88% do seu salário só com o produto durante o mês.

Fome e desemprego grassavam a França e a população era quem mais sofria, os camponeses ainda viviam sob o sistema feudal de cobrança de impostos. A sociedade francesa estava dividida no que conhecemos como “Três Estados”: o Primeiro Estado era composto pelos membros do alto e do baixo clero, não pagavam impostos; o Segundo Estados era formado pela nobreza; não pagavam impostos; e o Terceiro Estado: formado pela burguesia, trabalhadores urbanos e camponeses (alguém se lembrou dos “sans-culottes”?), pagavam impostos.

No jogo, nosso passeio começa no famoso Palácio de Versalhes. São 27 de dezembro de 1776. Nesse dia, o protagonista da série, Arno Victor Dorian conhece Élise, ainda crianças, mas esse dia, também é marcado por uma tragédia, o pai de Dorian é assassinado no Palácio. Historicamente falando, aqui não temos algum fato para destacar, mas não podemos deixar de falar de Versalhes.

Em ACU, podemos ver uma primorosa reprodução artística do Palácio que serviu de morada para os reis Luís XIV, Luís XV e Luís XVI. Versalhes, por ser afastada de Paris (hoje um subúrbio da capital parisiense), foi o local escolhido para ser o centro de poder, pois ao ser um pouco distante, isolava a família real e a corte dos distúrbios e das doenças da cidade tumultuada. Ali estava o Governo da França e tinha o Palácio como uma materialização do regime absolutista.

Voltando a nossa história, 13 anos se passam e Arno vive sob a tutela do Lorde François De La Serre, que também cuida de Élise. Lorde De La Serre é um nobre que vive em Versalhes e no dia o qual “livra” mais uma vez a pele de Dorian é convocado a Assembleia dos Estados Gerais. É o dia 5 de maio de 1789.

Os Estados Gerais

Os Estados Gerais, órgão que não se reunia desde 1614, convocou membros representantes dos Três Estados numa tentativa de resolver o déficit das contas públicas. Durante trinta dias, o rei Luís XVI proferiu discursos sobre a situação do reino, mas nada de concreto foi acertado. Durante a assembléia, os membros do terceiro estado estavam insatisfeitos com o rumo das discussões e principalmente com o sistema de votação que era um voto para cada estado. O terceiro estado desejava que os votos fossem por cabeça.

Quando entramos nos Estados Gerais com Arno, não temos a dimensão desses acontecimentos que são primordiais para se entender a Revolução Francesa. Ainda seguindo o roteiro do jogo, Arno vê Lorde De La Serre batendo um papo com Conde de Mirabeau, jornalista, escritor e um grande orador que defendia uma evolução moderada para a monarquia constitucional, aquela onde o rei tem que obedecer a Constituição.

Arno entra na sala onde ocorre os Estados Gerais (reparem que é o local cheio de pessoas e quem discursa é o rei Luís XVI), mas não consegue falar com Lorde De La Serre. Neste mesmo dia, nosso amigo francês dá uma de penetra no baile que recepciona sua “amizade colorida”, Élise.

É interessante a gente aqui dar destaque para alguns diálogos em paralelo que ocorrem no ambiente. Podemos ouvir soldados falando sobre “o terceiro estado está praticamente armado” ou comentando: “Olha aquele. Os sapatos dele devem ter custado mais que o meu aluguel”. Durante o baile, podemos ouvir dos convidados: “Você ouviu o rei. Novos impostos, nem uma palavra sobre fazer concessões à representação”; “que bobagem. O que as classes baixas sempre precisam é de uma mão firme para guiá-las”; “eu tinha certeza que a plebe iria se revoltar hoje a tarde”. Essas linhas de diálogo ajudam na imersão do jogo no contexto histórico abordado. São falas que dão dimensão do evento na boca de pessoas simples do povo.

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Ah, sim! Logo quando Dorian chega ao Baile, vários outros convidados estão chegando. Reparem no nome Maximilien Robespierre. Ele foi um dos principais nomes da Revolução Francesa no período denominado “Terror”, onde milhares de pessoas morreram guilhotinadas.

Voltando a Arno, descobrimos que este não era um bom dia para ele ter saído da cama. Além de um encontro frustrado com Élise, Arno é acusado da morte de Lorde De La Serre, quando o encontra agonizante nas dependências do palácio onde ocorria a festa. Nosso amigo é preso e levado a Bastilha. Durante dois meses, Arno fica privado da liberdade. A Bastilha era uma grande fortaleza, mas fora construída inicialmente como um portal para o bairro de Saint-Antoine.

É importante dizer que os acordos dos Estados Gerais fracassaram. O Terceiro Estado reuniu-se em outra sala. Luís XVI ordenou que a nobreza e o clero também participassem desta nova reunião e no dia 9 de julho de 1789 era formada a Assembleia Nacional Constituinte. No entanto, descontente com os rumos da nova assembléia que pretendia criar uma constituição e terminar com os poderes absolutos do rei, Luís XVI preparava o exército para dissolvê-la. Quando a notícia de que o rei fecharia a Assembleia surgiu, grande parte da população se revoltou.

Assassins Creed Unity 06

#VEMPRARUA

No dia 14 de julho de 1789, a Bastilha se tornou alvo da população revoltada quando, um boato de que as tropas reais estavam chegando para reprimir duramente a população fez todos se dirigiram ao Palácio dos Inválidos, onde estava um bom arsenal e logo em seguida tomaram a Bastilha, onde estaria armazenada pólvora. Arno tenta escapar da Bastilha bombardeada por canhões. Nesse momento o jogo recria um dos marcos da Revolução Francesa, comemorado até hoje pelos franceses. A invasão tornou-se um verdadeiro massacre, o diretor da prisão, marquês de Launay, tentou negociar, mas foi capturado, teve a cabeça decapitada e posta na ponta de uma lança que foi desfilada nas ruas de Paris. A Revolução tinha início e nada mais seria como antes. E nem mesmo a vida de Arno Dorian.

Assassin’s Creed Unity mais uma vez coloca seus fãs em mais uma ambiente histórico. Nas outras vezes já havíamos visitado o período das Cruzadas, do Renascimento, da Revolução Americana e até a Era de Ouro da Pirataria. Em todos esses jogos, os personagens fictícios se cruzam com personagens reais. Mas não esqueçamos que se trata de uma obra ficcional e por mais que se baseie em fatos históricos, a trama é desenvolvida para proporcionar uma um ótimo entretenimento ao seu público.

Quando lançado, ACU foi alvo de severas críticas das autoridades francesas, mas como defendeu Antoine Vimal Du Monteil, produtor do jogo: “Assassin’s Creed Unity é um videogame para o grande público, não é uma lição de história”. Por mais perfeita que seja a recriação de uma época, por mais bem representados que sejam determinados personagens reais, seja num filme ou num videogame, tratam-se de obras ficcionais, produtos que não devem ser desvalorizados, muito pelo contrário. Mas se você tiver curiosidade em saber o que está acontecendo durante aquele período histórico em que o jogo se passa, pesquise, procure nos livros de história ou nos visite para juntos embarcarmos em mais uma viagem pelo tempo.


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