review Gabriel Knight: Sins of the Fathers

O remake em comemoração aos seus 20 anos de aniversário

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  domingo, 16 de outubro de 2016

Antes de mais nada, aviso que nunca havia jogado Gabriel Knight antes do remake. Se você já o fez e quer saber se vale a pena rever a experiência nesta nova versão, as principais mudanças envolvem tanto o visual repaginado quanto a mudança do voice casting, trilha sonora atualizada, acréscimo de um sistema de dicas, checkpoints e um diário com informações sobre o desenvolvimento do jogo. Há também mudanças menores em alguns diálogos e, segundo o que li, talvez de um puzzle ou outro. O resto está essencialmente fiel ao título original, lançado em 1993.

Pixels vs photobashing e modelos 3D para os personagens. Em geral, pessoalmente achei os cenários do original mais bonitos…

Pixels vs photobashing e modelos 3D para os personagens. Em geral, achei os cenários do original mais bonitos…

Gabriel Knight, este personagem tão importante, é dono de uma modesta loja de livros raros, um metido a gostosão de fala pegajosa e um escritor à beira da falência. Já tem uma semana desde que ele passou a ter o mesmo pesadelo de novo e de novo, envolvendo uma mulher condenada à fogueira se transformando em leopardo, além de cobras mortais e um talismã. Paralelamente, Gabriel tem nutrido um fascínio quase obsessivo por vodu e seus aspectos históricos; tudo em nome de seu mais novo romance em andamento.

A partir daí, é com a ajuda de sua assistente Grace e do policial Mosely que começa sua investigação quase inocente de certos assassinatos em Nova Orleans — associados aos praticantes da religião — que ele se vê mergulhando, cada vez mais, em situações bizarras… incluindo um punhado de mortes inexplicáveis e repentinas. Há até mesmo desdobramentos sobre a história meio obscura de seus antepassados e como isso ecoa à sua situação atual, além de dar algumas explicações sobre seus insistentes pesadelos. Para ajudar mais ainda, o escritor mulherengo se vê absolutamente fascinado por Malia Gedde, uma rica socialite de vida discreta e também uma peça fundamental para o que há de ocorrer.

Uma das características mais fortes do jogo é o trabalho soberbo de Jane Jensen, escritora e game designer do título original, especialmente no que tange à densa pesquisa histórica e geográfica sobre o vodu; seja suas respectivas origens, seja a forma fascinante com que fora adaptado na principal cidade de Louisiana, a qual recebeu diversas influências religiosas diferentes. Soma-se a isso todo o quê de mistério que permeia a maior parte do jogo, além de ocasionais momentos ligeiramente inquietantes. Destaque para seu brilhantismo ao dosar momentos sérios com ocasiões hilárias; imagine Gabriel dando conselhos feito padre em um confessionário…

gabriel20thanniversary

Seguindo uma abordagem que não lembro de ter visto em outros adventures, nosso progresso é dividido em dias, os quais cada um determina o que você pode e deve fazer para avançar no enredo. Todas as manhãs recebemos um jornal, que podemos ler ou não, amarrando os acontecimentos do dia anterior e dando algumas ideias sobre os objetivos seguintes — tal como a propaganda de um joalheiro ou a comemoração da Véspera de São João. E com direito a um horóscopo, sempre prevendo o pior.

Assim como na época do seu lançamento original, o jogo se passa nos anos 90, fazendo com que as investigações sempre sejam baseadas em livros e outros documentos de papel. A jogabilidade é tão tradicional quanto, envolvendo análise e combinação de itens e puzzles que, embora razoavelmente lógicos, não raro podem se tornar frustrantes — seja pelo nível de complexidade, seja por exigir que você lembre de informações específicas vindo de certas cutscenes. Existe um sistema de dicas em níveis, que à princípio te dá uma série de perguntas relacionadas ao que você deve resolver naquele dia, para só depois oferecer instruções mais específicas — mais ou menos como em Stacking. Ainda assim, dependendo de sua experiência com o gênero, ele não te isenta de uma possível vontade de olhar walkthrough :p.

De seus pontos fracos, a parte técnica é uma das maiores. Apesar do remake já ter recebido uma penca de atualizações, o que não falta são alguns bugs que raramente atrapalham no processo, mas podem ser meio chatinhos. Como nas vezes em que pulei algum diálogo e o personagem continuou mexendo a boca até o final, ou as animações meio truncadas que dão uma zoada quando alguém vai se sentar. Ou ainda, num momento engraçadíssimo no qual Gabriel fica girando a cabeça a 360 graus por alguns bons segundos.

Outro ponto: as cutscenes. Assim como no original, temos eventuais cenas animadas que se apresentam como páginas de uma HQ, necessárias para ilustrar momentos importantes à história. Pena que elas às vezes parecem mal pintadas, como se as tivessem feito às pressas, mas dá pra relevar. Por último, temos uma narradora, responsável por ler textos descritivos sempre que você interage com alguma coisa e quando lê algum texto. Trata-se de uma herança do jogo de 1993 com pouca justificativa pra ainda existir porque, dessa vez, há telas próprias para mostrar os detalhes do que estamos analisando (como a página de capa do jornal). Felizmente, dá pra desativar a voz dela, o que me veio bastante a calhar por não gostar do voice acting atual; achei mais agradável ouvi-la em sua versão anterior.

gabriel knight sins of the fathers wallpaper 2

Cena de um dos rituais que presenciamos com os olhos de Gabriel

A despeito das falhas, recomendo muito jogar Gabriel Knight. Minha experiência foi tão gratificante que, após zerá-lo pela primeira vez, continuei lembrando do jogo de tempos em tempos, o que me motivou a revisitá-lo e resenhá-lo por aqui. Se você aprecia uma ficção de qualidade com personagens memoráveis e cheios de personalidade em uma história adulta e religiosa, digna de um bom livro, dê uma chance. Tem no Steam!


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