Análise – The Evil Within

Pedro Luiz

  terça-feira, 21 de outubro de 2014

Análise – The Evil Within

O novo game da Tango Gameworks e da Bethesda marca o retorno de Shinji Mikami ao terror que o consagrou. Nostálgico e cheio de referências.

Se analisássemos o frisson da comunidade gamer no momento do anúncio de The Evil Within, poderíamos facilmente concluir que o gênero responsável pelas camas molhadas anda muitíssimo mal das pernas. Mesmo com os últimos Outlast e Daylight, o gênero parece ter perdido grande parte de sua essência, abrindo espaço para o acréscimo da ação desenfreada. Sendo assim, só um veterano da indústria poderia surgir com um projeto que resgatasse aqueles momentos de suores frios, arritmia cardíaca e clamor pela vida: Shinji Mikami. Considerado o pai do survival horror, criador da série Resident Evil e diretor de jogos como Dino Crysis e outros grandes títulos. Dele veio a nova aposta da Bethesda, e é sobre ela que iremos conversar um pouco.

Mikami não colocava a mão na massa desde 2006, quando trabalhou como diretor em um beat ‘em up chamado God Hand (PS2). Não é atoa que de lá para cá, que eu me lembre (me elucidem nos comentários), tivemos somente o já consagrado Fatal Frame IV: Mask of the Lunar Eclipse (Wii) para chamar de “memorável”. O posto de game assustador andou passando por, inclusive, franquias de ação. Temos aí Dead Space, um game de ação que assusta, sim. Mas não aterroriza. O bom e velho terror psicológico, da luta pela sobrevivência com pouquíssimo recurso, do horror contemplativo… Mikami tentou trazer de volta. E de certa forma, conseguiu.

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Em The Evil Within controlamos o nada carismático Sebastian Castellanos, um detetive que precisa investigar estranhos homicídios em um hospital psiquiátrico. O dia parecia normal, até que, ao entrar no manicômio, o detetive se depara com corpos mutilados, rastros medonhos de sangue e destruição. Dalí em diante, a força demoníaca se manifesta, policiais são mortos e o jogo se inicia.

Não existem respostas do porque, quem começou e nem como aconteceu. Mas a cidade virou uma representação quase fiel do inferno bíblico, e o nosso detetive acorda de cabeça para baixo, amarrado pelos pés sob a custódia de um personagem bastante conhecido da franquia Resident Evil. Começa aí o show de referências.

História enxuta, terror absoluto.

Quão interessante é ser jogado no meio de um ambiente ensanguentado, sem esperança, doentio, inumano, e não saber o que raios aconteceu? Para um jogo de survival horror, essa é a pedida certa. A introdução é feita, você sabe quem é e o que faz. Agora, meu irmão, como diria a minha avó: Se vira! Tente sobreviver a esses seres enrolados em arame farpado gemendo por suas vísceras. Como complemento do background do jogo, alguns diários e folhas com anotações são encontrados durante a experiência, algo que já fora estabelecido na própria franquia Resident Evil. E há quem diga que esses textos são lidos.

Não existem fórmulas para o sobrenatural. Assim como um homem normal passa a ser outro quando se depara com algo inexplicável por teorias terrenas, o terror de The Evil Whitin se apoia nessa dinâmica. A todo momento você é convidado a refletir se o que Sebastian está presenciando é real ou não, ou se é deste mundo ou não, tamanha a complexidade da sanguinolência. Os espelhos, que são objetos bastante usados em histórias de terror, tem papel fundamental na narrativa e na jogabilidade, colocando o personagem em uma espécie de dimensão paralela, onde é possível fazer upgrades.

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Para acabar com aquele ser disforme e assustador que passa a dois, três metros de distância, você precisa de calma. E isso torna absolutamente tudo mais aterrorizante. Esperar atrás de algum objeto é ter que ver a criatura passar por você, grunhir, gemer e reagir aos seus movimentos – se forem muito bruscos. E eles não são tão descerebrados, basta uma corrida em falso e você pode estar no chão.

Stealth é necessário.

Como um bom survival horror, o jogo vai te forçar a ser furtivo. Não faça estardalhaços e nem tente correr, você só vai conseguir em momentos feitos para isso. Balas são escassas e fazem barulho, portanto, é melhor se esgueirar por um muro qualquer, flanquear a ‘’coisa’’ (Stephen King aprova) e exterminá-la com um ataque furtivo. Mas aí é que vem o problema. A câmera apresenta um problema de posição que incomoda absurdamente no momento em que o personagem se agacha e encosta em objetos, muros, etc. O personagem ocupa muito espaço na tela e a visão do cenário fica bastante prejudicada, dificultando, obviamente, o processo da matança. Trocando em miúdos, o jogo te força a jogar de uma forma. Mas dá condições ruins para isso.

Se você for acostumado a correr desenfreadamente e tiver em mente que precisa zerar em três horas, desista. Não vai funcionar. No modo mais difícil, os recursos são mais escassos e as “coisas” ficam ligeiramente mais rápidas, juntando toda a limitação física do personagem ao se machucar e as armadilhas (bombas, foot hold traps) a lá Resident Evil. Ao final do jogo percebe-se claramente que ele não é longo, mas a paciência para bolar a melhor estratégia e as repetidas mortes, dão à experiência um tempo maior de jogo, tornando-o bastante satisfatório.

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Porque jogar?

Um grande nome do gênero envolvido. Uma bela atmosfera soturna. Alguns problemas de câmera. Um teste de paciência. Boas horas de imersão. Esses são os pontos definidores de The Evil Within, que marca um resgate bastante decente dos games de terror mais antigos. Longe de ser o game do ano, podendo ser, porém, um dos games mais interessantes da nova geração de consoles até o momento. Isso vai depender do seu nível de loucura ao colocar as mãos nesse exercício de insanidade.


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