Análise – Terra Média: Sombras de Mordor

Pedro Luiz

  terça-feira, 28 de outubro de 2014

Análise – Terra Média: Sombras de Mordor

A americana Monolith e a Warner trazem ao mercado um sistema inteligente atrelado ao background consagrado de Senhor dos Anéis.

A qualidade duvidosa de jogos licenciados de grandes franquias cinematográfico-literárias é uma realidade. Contamos nos dedos – de uma única mão – aqueles que conseguiram se destacar por inovação, respeito ao material e diversão. Falando de Tolkien e Terra Média, entretanto, conseguimos contar alguns títulos que conseguiram fracionar e entregar parte da experiência das grandes telas ao jogador. Começamos por Lord of the Rings: War in the North (PS3, Xbox 360 e PC), um game voltado para a experiência visual, contribuindo para a formação da Terra Média no imaginário dos fãs. Passamos por Lord of the Rings: Conquest (PS3, Xbox 360, PC, NDS), uma tentativa bastante decente de mesclar a fórmula de Star Wars: Battlefront e o ambiente da Terra Média. O resultado é positivo, mesmo com ressalvas. Em 2014, o trabalho da americana Monolith consegue alcançar algo que os jogos antecessores não buscaram: um gameplay inteligente.
Terra Média – Sombras de Mordor (Middle-Earth – Shadow of Mordor) aparece em meio aos grandes lançamentos do ano e, acredite, ele se sai incrivelmente bem.

Não tente encontrar na história uma menção a Contos Inacabados ou Silmarillion. Alguns meses antes do lançamento, a Warner Bros. deixou claro que a história seria dentro do universo tolkieniano, mas não estaria vinculada a nenhum elemento canônico de Lord of the Rings. Sendo assim, a liberdade criativa aumenta, e os mais xiitas podem usufruir do jogo sem recorrer aos livros para o confronto direto. A história se passa nos 60 anos entre Hobbit e Senhor dos Anéis. Para coroar, temos o Gollum, dublado pelo próprio Andy Serkis.

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Talion, o ASSASSINO de orcs

Controlamos Talion, um descendente dos homens do norte de Rhovanion e fiel ranger de Gondor. Boa parte de sua vida foi devotada aos cuidados e patrulhas do Black Gate. Logo na introdução, após o tutorial de combate, nosso herói é morto junto de sua família por um servo conhecido por Black Hand. Ao invés de encontra-los noutro plano, Talion ressuscita e é unido a um espírito, reconhecido posteriormente pelo nome de Celebrimbor. A união se dá pelo ódio e sofrimento em comum: as forças malignas de Lord Sauron. Juntos, Talion e Celebrimbor buscarão poder para derrotar Sauron e restaurar o equilíbrio.

Temos aqui dois personagens jogáveis. Entretanto, não há troca física. Sendo o corpo de Talion e a alma de Celebrimbor, a mudança se dá através de um botão. Ao ‘’acionar’’ Celebrimbor, conseguimos adentrar o plano etéreo – ou algo do tipo. As almas dos orcs e de outras criaturas ficam visíveis a longas distâncias e é possível reconhecer vilões importantes neste modo. Talion, por sua vez, figura entre os jogadores como uma espécie de cópia de Ezio ou Altair da franquia Assassins Creed. As roupas iniciais são inegavelmente parecidas. A movimentação, a escalada – o parkour aqui é quase o mesmo – e até o sistema de torres para abrir determinada parte do mapa imitam, quase que descaradamente, a franquia dos assassinos. Isso não me fez desgostar, acredite. Mas fica realmente complicado discutir a respeito de inovação na jogabilidade quando o código de um jogo parece ter sido implantado, sem edições, no jogo de outra empresa.

O arsenal de Talion varia entre a boa e velha espada longa, um punhal e arco com flechas – embora esse último seja manejado quase sempre por Celebrimbor. Em combate, Celebrimbor pode contribuir com o ataque de sombra, que permite um rápido deslocamento até o inimigo. Esse costuma ser letal.

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Originalidade chamada “Sistema Nemesis”

Esse é o grande atributo de Sombras de Mordor. Criado exclusivamente para o jogo, o sistema é algo absolutamente inovador . Trata-se de um processo gradual de construção de bosses, que depende em parte da ação do jogador e, noutra parte, corre livre e solto. Trocando em miúdos, o Nemesis serve para deixar o jogo muito mais inteligente do que estamos acostumados a ver.

O objetivo é enfraquecer o exército de Sauron e derrotá-lo. Para isso, você precisará passar pela hierarquia dos próprios Uruk-hai (orcs de Sauron), galgando pouco a pouco. Começando pelos capitães e outros orcs influentes. Você os interroga (depois os mate, não se esqueça) e a partir das informações traçamos as conexões com warchiefs mais poderosos, com patentes mais altas. Aí entra o Nemesis, de fato. A ordem hierárquica se altera durante o jogo, diferenciando o meu gameplay do seu.  Aquele orc ralé que você poupou a vida pode vir a se tornar um capitão dali a pouco. E ele voltará muito mais forte.

O capitão que te matou vai se fortificar. Portanto, mesmo que você aprenda com o erro e trace uma nova estratégia, o adversário terá evoluído e se transformado. Dessa forma, a morte se torna algo extremamente ruim. Em Assassins Creed, por exemplo, a morte é só um deslize.  Aqui, o papel dela é realmente punitivo. E como havia dito, não só o orc que te derrota, se fortifica. A “dança das cadeiras” acontece quer você queira, quer não. O dinamismo do gameplay é de encher os olhos – e de saltar as veias.

Paciência e estratégia. Na falta de uma delas, você já era

O combate, a meu ver, é o que distancia este jogo de Assassins Creed. Para início de conversa, correr enlouquecidamente com a espada em riste é a maior idiotice possível. Ao contrário da franquia dos assassinos, o combate corpo-a-corpo é muito mais complexo, ainda que a mecânica base seja a mesma. Os orcs que te cercam parecem se multiplicar em questão de segundos. Você se livra de um, brotam dois. E eles não são os paspalhos que aparentam ser. Se quiser pagar de Chuck Norris, é impossível não se frustrar.

O jogo vai beneficiar os estrategistas e os pacientes. Em uma quest específica, você precisará enfrentar um pequeno exército de orcs ralés, dois capitães e um warchief. Sendo esse último um arqueiro de pontaria afiada. Tente ir de peito aberto… Não sairá dos 15% de jogo. Nesse caso, o melhor é explorar o stealth, se esgueirar pelas beiradas, matar primeiro os peões – de forma silenciosa, claro –, e depois olhar as fraquezas e invulnerabilidades dos capitães, disponíveis assim que você os acha em terreno. Achar um jeito de integrar o terreno, inclusive, é um grande trunfo. Estão espalhados pelas fortalezas dos orcs pequenas pilhas de explosivos ou fogueiras que podem (e devem) ser usadas à distância. Se o warchief em questão tiver problemas com fogo, amigo… Aí está o caminho das pedras.

Ainda no combate, volto a repetir. O jogo não está fácil. Mas está divertido. Monte numa das bestas quadrúpedes e brinque de rodeio por alguns segundos.

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Bonito de ver. Épico de ouvir.

Os cenários de Sombras de Mordor são muito bonitos, não há dúvida. Afinal, estamos falando de Terra Média, e esse lugar costuma encher os olhos. O trabalho feito na concepção das cores do dia e da noite é muito bom, e tudo parece ter bastante vida. Mesmo nosso protagonista meio morto. As fortalezas orcs podem soar repetitivas na aparência, ainda que na prática os caminhos e curvas de cada uma se diferenciem bastante. Em campo aberto percebe-se também um cuidado interessante com as texturas, sendo possível jogar, inclusive, em versão ultra HD em um PC.
Os orcs de maior patente também recebem atenção. Cada um aparenta personalidade própria, e isso é comprovado no exterior (armaduras, faces e formas).

A trilha sonora é algo digno de um produto com a marca Senhor dos Anéis. A música orquestrada característica dá o tom de pontos específicos da jogatina. Correr pela Terra Média pede um clima mais calmo, ainda que alerta. Já enfrentando um determinado capitão, a tensão e os instrumentos mais pesados se fazem presentes de imediato. O meio termo também é sentido através da música. Com um inimigo iminente e o destino incerto, o jogador sente junto de Talion a incerteza, à medida que a música avança.

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Porque jogar?

Um sistema totalmente novo, um gameplay inteligente, mecânicas consagradas, níveis de dificuldade avançados e, claro, o melhor background possível. Pontos muito positivos e outros discutíveis. Assim eu defino o melhor jogo que passou pela minha mão desde a entrada da nova geração.
E cá para nós. Se liderar um ranger pela Terra Média com a missão de enfraquecer o exército de Sauron não te convenceu a jogar, eu não sei mais o que o fará.


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