Sobre machismo, feminismo, podcasts e panelinhas

Eder Augusto de Barros
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  sábado, 05 de setembro de 2015

Sobre machismo, feminismo, podcasts e panelinhas

Segregação - v.t.d. v.bit. e v.pron. Distinguir com o propósito de separar ou isolar; evitar aproximação; desunir.

Antes que o primeiro petardo atinja meu olho quero deixar registrado um pedido para que você não jogue a pedra achando que esse texto ganha vida como um oportunismo barato. Não é verdade, ele está engasgado aqui dentro desde a semana passada, antes mesmo de toda a confusão envolvendo a Laura Buu, o Jovem Nerd, e posteriormente o AntiCast. O meu desejo era comentar o artigo escrito pelo Jurandir Filho no último The Supernovo Times, porém preferimos tirar da pauta porque não havia muito a ser debatido e acabaria se tornando um ataque gratuito a persona dele, isso não condiz com nosso posicionamento. O Supernovo sempre falou sobre os assuntos que agora são debatidos nas últimas duas semanas nesse meio dos produtores de conteúdo, nerds e podcasters. Nunca tivemos nenhuma restrição editorial. Nossa equipe sempre foi o mais diversa possível, sempre teve a presença de mulheres, de negros, orientais, homossexuais, e só não teve mais por falta de oportunidade — mas se você está aí de bobeira, manda aquele e-mail maroto. Nunca fizemos distinção sobre quais assuntos essas pessoas deveriam falar. Aliás, antes mesmo disso ser o assunto do momento já falávamos sobre segregação no BananaCast #90 sobre Racebending.

Dado o aviso e, na esperança de ainda não ter o olho roxo, eu vou contar uma história para vocês. Em 1985 a Coca-Cola achou que era uma boa ideia mudar sua fórmula centenária do sucesso e lançou uma nova versão da Coca-Cola, que eles chamavam de The New Taste of Coke (O novo sabor da Coca). Porém estava tudo sendo vendido no mesmo rótulo. O que aconteceu? As pessoas provaram, não gostaram, e a Coca-Cola estava então parada nas prateleiras dos super-mercados. Em poucos anos a cagada foi percebida porém o rótulo Coca-Cola estava agora “manchado” por esse sabor de merda que ninguém comprava. Uma cagada monumental. Mudar algo consagrado e usar o mesmo rótulo. Eis que para resolver esse problema eles relançaram a velha Coca-Cola com o nome de Coca-Cola Classic e isso perdurou até 2009 quando eles finalmente foram capazes de tirar o Classic das embalagens porque o público já estava novamente acostumado com o sabor da antiga-nova Coca-Cola.

Rótulos são o grande problema da vez. Existem pra tudo. Cada pessoa carrega dezenas de rótulos. Você é machista, feminista, nerd, geek, rocker, gay, homofóbico, homossexual, bissexual, hétero sexual, metrossexual, puta, vagabunda, vadia, pegador, mulherengo, comedor, xenófobo, transexual, otaku, viado, whatever. Você é muita coisa, e no fundo você deveria ser só uma coisa. Humano. Bípede. Cientificamente conhecido como homo sapiens. E aqui estou eu, rotulando de novo.

Você, eu, o Alexandre Ottoni, a Laura Buu, o Jurandir Filho, o Ivan Mizanzuk, o Beto Duque Estrada, o Affonso Solano, o Diogo Braga, o Deive Pazos, somos todos humanos. E não, eu não estou falando no sentido de “somos humanos e por isso cometemos erros”. Não! JAMAIS! Não é essa a ladainha de hoje. Somos humanos e ponto. Não temos que criar essas rotulações e diferenças. Nós temos um cérebro na cabeça e ele foi feito para ser usado, isso tende a querer organizar as coisas, e daí surgem os rótulos, que são movimentos organizacionais para diferenciar e SEPARAR coisas. Mas não existem diferenças entre os seres humanos. Não deveria. E sim, parece uma criança escrevendo isso propositadamente, esse pensamento é o mais básico possível. DEVERIA ser. Mas como minha querida Roberta disse, isso é uma utopia e na definição de palavra, é algo quase impossível de se atingir pois representa a perfeição.

O rótulo segrega, separa, desuni. O machismo é definitivamente uma coisa ultrapassada, mas que infelizmente está enraizada na sociedade. E você sabe que não é só na brasileira, não é só nos Nerds, nem nos Geeks ou nos Podcasts. O termo machismo é um rótulo, assim como a palavra feminismo também. Porém é importante observar que não são antônimos, o contrário de machismo é misandria, é a repulsa, desprezo ou ódio contra o sexo masculino. Enquanto o contrário de feminismo não existe, porque ele não precisa e nem deve ser discordado. Percebe como rotulamos as situações sem nem ao menos entendermos suas estruturas? Sem levar em consideração sua composição e não seu extremo?

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Enquanto nós rotularmos tudo, estaremos separando as coisas e criando essa “rivalidade” imbecil. Ok, você não chega no mercado e as garrafas de plástico contendo um líquido escuro são expostas sem rótulos. Se fossem, você correria o risco de comprar uma Pepsi no lugar de uma Coca-Cola e isso seria um problema. Mas Pepsis e Cocas não são humanos, não tem sentimentos, é necessária a separação, ninguém quer cometer esse engano de comprar uma Pepsi.

O mundo nerd é machista como foi dito por aí? O mundo é machista. Consequentemente a parte nerd dele também. Mas falando especificamente do mundo nerd/geek. Sim, é bastante. Eu não tenho muito a dizer. É e ponto final, posso lamentar e fazer a minha parte para mudar. E veja bem, não é só machista. É elitista, classista, totalitário, homofóbico e continua. Logo os nerds, que tem na origem do nome o interesse por ir mais fundo na busca por informações. Logo os nerds, que antes eram rechaçados, ofendidos e humilhados.

O que resta fazer é a minha parte individual e como um criador de conteúdos. Dizer que eu sou isento seria uma grande hipocrisia. Já fiz, e por vezes, ainda faço piadas machistas. A qualquer momento posso cometer uma cagada novamente. Não sou a prova de balas como disse o Trevisan nesse excelente texto. Eu tenho uma forte tendencia xenófoba como sempre brincamos nos podcasts e não me orgulho disso. Logo eu que vivo fora do país e senti na pele esse pré-conceito de que o brasileiro é isso e aquilo. E como criador de conteúdo sempre tentamos diversificar ao máximo a nossa opinião em tudo. Tenho o maior orgulho do mundo em dizer que os podcasts do Supernovo têm mais de 95% de participação feminina e sempre falamos de todos os tipos de assunto dentro da cultura pop.

Eu ouvi o AntiCast e muito do que foi dito é um ótimo ponto de partida para começar a entender o que está acontecendo, mas como em qualquer conteúdo, existe sim algum exagero, intolerância e volatilidade em relação ao tema, estão todos de cabeça quente e assim como o Jovem Nerd está sendo crucificado pelo poder que exerce sobre a massa, cometer exageros e intolerância não é saudável para as discussões. Vamos colocar essa bola no chão e jogar com sabedoria. A situação do nosso país está muito polarizada, não se tolera mais o meio termo, é 8 ou 80, ou todo mundo está ou 100% certo ou 100% errado, ou você é de esquerda ou é de direita. E o mundo não é preto e branco, ele é colorido, com sombras e tons.

O que você precisa entender é que a parcela maior do problema não está NO QUE esses caras falam em seus conteúdos e sim na MASSA QUE OS SEGUE. A responsabilidade tem que ser tomada. Se você fala para milhares ou milhões, tem que haver integridade e, principalmente, responsabilidade. E como você entende que sua palavra necessita de ser avaliada com responsabilidade? Quando você tem poder um suficiente para dizer ao seu público que a Pepsi é legal e alguns de seus leitores/ouvintes comprarem Pepsis. Veja bem, você conseguiu vender uma Pepsi. Uma única Pepsi que seja. Não é uma Coca-Cola, não é 1984, é em 2015 e é uma Pepsi. Sua palavra tem força. E quando ela tem força você tem que usar com sabedoria. Você não pode fechar os olhos quando o teu público te defende ameaçando a vida de outra pessoa. Para começar essa conversa, você é quem tem que defender o seu publico e não o contrário.

Em um estado sombrio nós nos encontramos... e um pouco mais de conhecimento ilumina nosso caminho. - Yoda

O Omelete há pouco tempo foi acusado de receber dinheiro para falar bem de um filme e fez um vídeo respondendo que isso nunca aconteceu porque eles precisavam manter a integridade. Um vídeo muito bom aliás, já que eles falam também sobre a falta de tolerância na internet onde os consumidores desse tipo de conteúdo, chamados atualmente de nerds, não aceitam uma opinião diferente. Mas não é o foco do papo de hoje. Porém, no vídeo, Érico Borgo diz que no mundo do cinema ele não conhece nenhum estúdio que paga veículos de informação para “comprar a opinião” para em seguida dizer que nos games é outro papo. Eu não fui, mas sei quem foi. Esse tipo de declaração mancha a sua integridade, não aumenta (que foi o objetivo), e além disso influencia a sua massa a procurar saber quem foi, instiga a curiosidade, mesmo que seja uma acusação fundamentada (se fosse seria citada, acredito eu).

É isso que precisa ser corrigido. Essa influência dos geradores de conteúdo sobre as pessoas que consomem esse conteúdo precisa ser tratada com responsabilidade. É aqui que a diferença deve ser feita, são essas pessoas que têm a voz grossa que precisam usá-la para passar ideologias para a frente. Espero que esses seres, rotuládos como nerds, ouçam quando o Mestre Yoda diz para “ensinar sempre o que aprendeu”.

Blogs como Garotas Geeks, Garotas Nerds, Collant Sem Decote e vários outros são importantíssimos para essa mudança de mentalidade, mas eles são apenas uma parte do ciclo, são a base do movimento. E não digo isso porque elas não têm voz suficiente para gritar o que os rotulados como nerds precisam ouvir. Elas são a porta de entrada para que as mulheres se sintam bem nesse ambiente, se sintam seguras, busquem discurso e força sobre suas próprias situações. Depois disso o trabalho é dos sites mais abrangentes, eles precisam olhar pelo seu público, pelo nosso público, e não permitir a segregação entre eles. Moderar, interferir, ajudar. Ensinar.

Tem outro ponto sobre o AntiCast citado pelo Ivan Mizanzuk que eu adoraria adicionar ao debate do lado negro da força. O host do AntiCast deixa claro que os caras que ele está criticando, Jovem Nerd com o Nerdcast, Jurandir Filho com o Rapadura Cast e o pessoal do MRG, são os heróis dele. Diz inclusive que só começou a fazer podcast depois de ouvir esses caras. Mas ele queria dizer que não é por isso que ele não vai criticar já que não tem “rabo preso” com ninguém. Atitude louvável. Sim, senhor.

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Esse é o câncer da internet brasileira, não esses caras, e sim a famosa panelinha que prende o rabo da galera. Não é exclusivo da internet, existe em todo ramo, e em todo o mundo. No Brasil, em específico, faz parte da cultura, está nas veias da população. Tudo aqui só funciona na base da panelinha. Com o perdão da expressão chula que será usada apenas por falta de palavras melhores para descrever. Mas se você não “lambe as bolas certas” você nunca ganha nada na vida. Você precisa bajular um ou outro para chegar em algum lugar. Parafrasear Roger Moreira do Ultraje a Rigor num texto sobre segregação é no mínimo irônico, mas foram sabias as palavras quando disse que “A terra é uma beleza, o que estraga é essa gente”. E aqui estão as minhas tendencias xenófobas para os que estavam curiosos e com a pedra na mão para me atingir.

Durante a confusão da semana eu vi no twitter muitas pessoas defendendo os atacados pelo AntiCast, e vi comentários de pessoas que diziam achar que a podosfera era unida. O próprio Mizanzuki cita que também leu isso. Doce ilusão. Unida é o CARALHO! Mais uma vez com o perdão da palavra, mas era necessário dar a devida entonação para a exclamação e nós somos pessoas desbocadas, me desculpe.

Você é inocente de pensar que qualquer um da podosfera vai comprar qualquer briga por um podcast pequeno, de 100 ouvintes quinzenais, se esse podcast for atacado por falar qualquer besteira. Não vão. Talvez nem se esse podcast pequeno falar uma verdade e for atacado, nem assim vão defender. Agora se um dos maiores podcasts falar a mesma besteira, boa parte dos pequenos/médios vão defender. Isso é a versão ilustrada da tal da lambeção de bolas que eu falei no parágrafo anterior. É a corrida para ser notado e ver se ganha uma boca nessa panela. Eu respeito uma porção de pessoas da podosfera, poucas são as que tive contato, menos ainda são as quais eu considero como amigos, zero são os que defendo se estiverem errados.

E eu não tenho nenhum problema para falar isso e nem tenho rabo preso com ninguém. Não faço parte das panelas, nenhum desses caras são meus heróis, e se meu site sair dos planos de algumas agências de publicidade porque falei que a podosfera é uma panela, honestamente, foda-se. Não é porque o Bruno Costa do Cinecast é um grande amigo, que fiz graças a internet e aos podcasts — e ele é um grande amigo do Jurandir Filho, inclusive os dois tem um podcast juntos — que eu vou defender o Jurandir por uma merda que ele disse em seu texto sobre o porque dele achar que o cinema não pode ser barato. Mas ele teve humildade para rever os seus conceitos tão rápido quanto o texto levou para ser escrito. Isso é louvável. Assim como o Jovem Nerd pediu desculpas por incitar, não diretamente (que fique claro!), um bando de fãs maníacos à ameaçar a Laura Buu porque ela disse que os Nerdcasts eram machistas, também é louvável o reconhecimento do erro. Isenta-os? Não.

Eu quando criei o Supernovo fui inspirado sim, mas por nenhum desses caras. Eu fui inspirado pelo Judão desde a época do CuDoJudas. O Supernovo já era um rascunho três ou quatro anos antes de realmente ir para o ar, a vontade era antiga. Você que acompanha o Supernovo faz tempo está surpreso agora, sua cabeça explodiu e tem pedaços do seu cérebro colados na parede. Você que não acompanha eu vou explicar a piada interna. Durante muito tempo eu critiquei o Judão aqui no site, no Botecão do Jack, nos podcasts. Critiquei porque eles perderam a identidade, perderam o brio, passaram a ser arrogantes, atuavam no piloto automático e era uma posição que não me agradava, não era a posição que me inspirou.

Eles não deixaram de ser arrogantes, mas nos últimos dois anos fizeram como a Coca-Cola, mudaram a fórmula, recuperaram o brio, passaram a ser mais relevantes. Talvez a audiência tenha caído (ou aumentado, ou mudado) mas isso é o reflexo de não adaptar sua opinião ao que a maioria diz só para agradar.

Eu defenderia o Judão por falar uma merda? Jamais. Eu criticaria em dobro. Eles foram minha inspiração para criar o que eu faço hoje mas não posso me corromper a algo que está errado por que eles dizem o contrário. Ainda mais hoje que eles tomaram uma posição muito mais singular e começaram a ter sua opinião menos influenciada pelo que o público vai ou não achar. Passaram a falar o que queriam falar, e com responsabilidade, o que é importante ressaltar. Se acontecer alguma cagada como as que aconteceram essa semana é porque está mesmo no cerne do site, e merecem ser criticados. Assim como eu quero ser criticado se estiver errado. Criticar não é um crime e ser criticado não é ser baleado. São chances de melhorar, de se fazer ouvir e ser ouvido. Parafraseado (gostei da palavra) o Ricardo Rente do Território Nerd, que tem uma opinião muito peculiar sobre a cultura pop — e que quase nunca bate com a minha, “se você dá sua opinião e ninguém se manifesta é porque ela não é relevante”.

Para deixar claro, nem a Laura Buu e nem o AntiCast eu estou defendendo aqui, não defendo as pessoas e sim os ideais. Também não estou criticando o Alexandre, o Deive, o Jurandir, o Beto, o Diogo, o Affonso, ou qualquer um dos outros envolvidos nos acontecimentos. Eu os respeito. Admiro. Alguns mais que outros, é verdade. Acho que o Jovem Nerd e o Azaghal são exemplos de perseverança, de garra, eles conseguiram realizar o sonho, é óbvio que são inspirações para a vida. Mas fizeram uma cagada. Acontece. Nós cagamos todos os dias. Ou você não caga? O problema é que você não caga e sai do banheiro sem limpar a bunda. É isso que precisa ser feito. Limpar essa bunda.

Falando sobre opiniões peculiares, panelas, internet, e como os nerds precisam melhorar sua percepção do mundo, outro cara que me influenciou a fazer internet e hoje é raro o dia em que minha opinião encaixa com a dele é o Rodolfo Castrezana, que atualmente produz vídeos como Nerd Rabugento (o que diz muito sobre suas opiniões) no Youtube. Acompanho o Rodolfo desde os primórdios do OMEdI, o primeiro blog dele que acabou fechando depois de mais de 10 anos. Curiosamente eu e o Rodolfo somos da mesma pequena cidade de Guararema no interior de São Paulo, éramos quase vizinhos, temos vários amigos em comum, e nunca nos conhecemos pessoalmente. Ele fez um vídeo especial comemorando um ano do canal que é inspirado no discurso do professor Clóvis de Barros Filho. O discurso é muito bom e você deveria ver:

Que incrível, ele está bebendo uma Coca-Cola.

Se eu sou o dono da verdade? Jamais. Ninguém é, use seu cérebro, pense, reflita, não se corrompa, não lamba bolas, a não ser que você goste, nesse caso, lamba.

* Esse texto foi escrito com a colaboração e iluminação de Roberta Rampini.


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