Pokémon GO e uma carta aberta ao R7 e ao senhor Bruno Krasnoyev

Eder Augusto de Barros
edaummm

  domingo, 07 de agosto de 2016

Pokémon GO e uma carta aberta ao R7 e ao senhor Bruno Krasnoyev

O sucesso do jogo não está na jogabilidade, está no quão bem ele fez para aquelas pessoas que estão saindo de casa, conhecendo suas cidades, fazendo amizades

Este texto é uma resposta a este artigo publicado pelo R7.


Eu tenho um irmão e uma irmã. Ela quando chegou eu já estava perto de completar a primeira das quase três décadas de idade, aliás, ela chegou um ano antes do anime de Pokémon estrear. Ela que neste ano completa duas décadas de idade, chegou no mesmo ano que o famigerado game de caçar monstrinhos.

Já ele foi um caso complicado, eu era muito novo. Havia completado meu segundo aniversário há alguns meses. Falava apenas algumas palavras. Estava acostumado com a atenção toda do pai e da mãe. Não queria dividir meu boneco do R2-D2 com ninguém.

Eis que um dia, minha mãe chega em casa, depois de alguns dias no hospital, com um ser cabeludo, que fazia um barulho irritante de tempos em tempos e todo mundo só ficava a volta dele. Eu parecia um brinquedo velho, esquecido. Qual foi a minha reação? Bater a cabeça contra o tampo da mesa de centro da sala. O tampo era de vidro, o resto vocês imaginam.

Fiquei frustrado. Não funcionou. Os dias passavam e aquele ser continuava fazendo barulhos irritantes de tempos em tempos e todos os adultos direcionavam a atenção para ele. Resolvi ser um pouco mais radical. Minha mãe já me deixava usar o penico sozinho. Caguei. Mas não só. Caguei fedido. Peguei a bosta. SIM, com a mãos. Esfreguei por todo o banheiro. Pelas paredes. Chão. Tudo.

Quando minha mãe viu minha arte, eu finalmente recebi alguma atenção. Mas não foi tão positiva quanto eu esperava. Esta é uma história verídica. Podem confirmar com os envolvidos.

O senhor Bruno Krasnoyev, colunista do Portal R7 (coluna “Tá lendo por quê?”) fez exatamente como eu: se sentiu excluído por não achar muita graça na “mania do momento” e bostejou no banheiro da internet brasileira.

Atacar gamers não é novidade nas empresas do grupo fundado por Edir Macedo, diversas “”matérias”” associando videogames à violência já foram produzidas, tanto pelo canal de televisão quando pelo portal de internet. Recente destaque para o caso do menino que supostamente matou a família porque jogava Assassin’s Creed: Brotherhood, como foi dito por Marcelo Rezende em seu programa, Cidade Alerta. Marcelo Rezende que depois acabou por dublar um jogo violento, Battlefield: Hardline.

A falta de preparo na casa começa logo nas primeiras palavras do texto de Bruno: “Além de garantir dinheiro aos montes para uma corporação, aliena os usuários que o jogam”.

Um jogo que faz jovens que sofrem depressão e dificuldade de socializar a saírem de casa por vontade própria para se divertir pode estar alienando-os? Pessoas que sofrem com autismo conseguindo socializar também são alienados? Eu acho que está havendo alguma confusão nas ideias do autor. Ou pesquisa na hora de bostejar.

O senhor Bruno Krasnoyev, que por acaso não tem coragem de usar seu nome real, deve ser do tipo que acha que a mulher que sai na rua com roupas justas ou curtas merece ser estuprada, julgando pelo título do seu artigo. E como ele mesmo afirma eu seu texto, duas vezes: não dá pra ter pena de pessoas que fazem por merecer os crimes que bandidos cometem, como por exemplo, andar na rua com um celular comprado com o suor de um trabalho honesto. Onde já se viu isso? Não pode, num país de bandidos, não pode.

Vendo os títulos do blog em questão nota-se uma certa necessidade de dizer exatamente o contrário do que a maioria pensa. Talvez seja apenas um blog humorístico que não deixa claro isso e eu estou sendo um idiota de escrever isso. Ou não. Porque sempre tem alguém com cabeça de Bruno, no Facebook está brotando Brunos bostejando sobre os dados que o jogo rouba de você e sobre espionagem da CIA. Brunos por todos os lados. Que me perdoem os Brunos de verdade. Mas humor, se assim o for, tem limite, e o R7 como portal sério que julga ser, não deveria permitir isso.

Como dito no bostejo, o jogo de fato nem é tão divertido. Para quem tem uma certa bagagem entre os jogos da franquia nintendista o game chega a ser precário. Mas o sucesso dele não está na jogabilidade, está no quão bem ele fez para aquelas pessoas que estão saindo de casa, conhecendo suas cidades, fazendo amizades. Pessoas como eu que não saiam de casa há meses pois o mundo lá fora estava cheio de pessoas mimadas que precisam de atenção o tempo todo.


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