Crítica X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Bryan Singer retorna à franquia para entregar o melhor filme dos X-Men até o momento

Leandro de Barros

  sexta-feira, 23 de maio de 2014

Depois dos ótimos lançamentos de Capitão América: O Soldado Invernal e O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, a e pressão para a estreia de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido só não era maior do que a necessidade de usar subtítulos em filmes de super-heróis nesse ano.

Com a concorrência mandando bem, os mutantes da Fox (e da Marvel) tinham a missão de não deixar a peteca super-heróica cair e, amigos, eles fazem muito mais do que isso. X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é o melhor filme dos X-Men até o momento, mesmo que tenha alguns problemas aqui e ali.

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Primeiro, vamos por pontos. Esse longa é uma adaptação de um arco dos quadrinhos dos X-Men chamado Dias de um Futuro Esquecido, criado por Chris Claremont (que tem uma participação no filme!), John Byrne (que não faz participação no filme) e Terry Austin, e entende a diferença entre adaptar alguma coisa e recriar fielmente os eventos das HQs – uma diferente que, infelizmente, uma parcela barulhenta de fãs não compreende. Na trama do filme, somos levados à um futuro próximo onde os X-Men estão sendo caçados impiedosamente por máquinas conhecidas como Sentinelas. Com apenas um punhado de mutantes vivos, um plano é formado para tentar acabar com essa guerra antes mesmo dela começar: Kitty Pryde (Ellen Page) usará seus poderes para levar a consciência de Wolverine (Hugh Jackman) aos anos 70, para que ele possa impedir o assassinato de Bolivar Trask (Peter Dinklage), que incitaria o desenvolvimento das Sentinelas.

A sinopse do filme já deixa claro qual a postura do diretor Bryan Singer pra adaptar os eventos das HQs: ao trocar quem viaja no tempo (nos quadrinhos é a Kitty Pryde, no filme é o Wolverine), o diretor monta o filme ao redor do ator mais popular da franquia, além do australiano Hugh Jackman ser o único ator a poder transitar entre os dois núcleos dos X-Men.

Dias de um Futuro Esquecido é cheio dessas pequenas adaptações, nunca deixando que o conteúdo dos quadrinhos criado nos anos 80 determine o que as cenas do filme.

Como já dito, o longa se divide em dois núcleos: o time do passado, composto pelo elenco de X-Men: Primeira Classe; e a galerinha muito louca do futuro, com o elenco dos três primeiros filmes dos mutantes.  Aqui, o foco é ação, já que os personagens precisam evitar que as Sentinelas se aproximem do corpo do Wolverine, cuja consciência está no passado. Dessa necessidade nascem algumas das cenas mais legais de ação que o cinema hollywoodiano nos entregou em 2014.

dias de um futuro esquecido critica blinkSério, a estrutura das cenas de ação do futuro são inteligentes e bem formadas. Bryan Singer e o seu montador, John Ottman, realmente merecem os elogios que vão receber pelo filme porque essas cenas são complicadas de se fazer, mas muito, muito fáceis do expectador entender. O ponto central dos dois grandes momentos de batalha do futuro é a mutante Blink (Fan Bingbing), que é um rosto novo na franquia. Seu poder é a habilidade de abrir portais por onde se pode transitar facilmente pelo espaço em cena e o filme usa a mutante para transformar o que seriam um grupo de heróis em um time de verdade.

Explico: sabe em os Vingadores finalmente se unem em Os Vingadores para lutar e cada um vai pra um lado derrotando alguns aliens? Bem, o que acontece em Dias de um Futuro Esquecido é uma aula de trabalho em equipe. Usando os poderes de Blink, os X-Men do futuro se transformam num time de verdade, agindo em conjunto e de uma maneira que o expectador consiga entender as táticas dos heróis. Com os portais da Blink, o time ataca, defende, potencializa os poderes dos outros, engana os adversários… tudo feito através de uma montagem impecável de John Ottman, que nunca deixa a geografia do combate complicada (e olha que estamos falando de portais dimensionais no meio de robôs enormes enfrentando mutantes com poderes especiais) e da ótima decisão de Bryan Singer de não explicar as coisas através de diálogos expositivos – ao invés de parar as cenas pra dizer “Blink, use seu portal para me ajudar!” ou coisa do tipo, Singer poupa tempo e surpreende o expectador com os combates. Além da mutante chinesa, ainda vale mencionar que o Homem de Gelo (Shawn Ashmore) realmente parece bem mais legal e mais poderoso aqui do que na primeira trilogia dos X-Men (seu poder naquela época parecia meio bobo).

Se no futuro tudo é muito épico, urgente e impactante, Singer faz bem em pisar um pouco no freio nas cenas no passado, onde o filme ganha mais conteúdo e seus dois arcos de desenvolvimento principais: um com o Professor Xavier (James McAvoy) e outro com a Mística (Jennifer Lawrence).

dias de um futuro esquecido critica misticaCom o Professor Xavier, nós acompanhamos uma interessante rima temática com o primeiro filme da série, onde o Wolverine passa a tentar resgatar um quebrado, auto-destrutivo e depressivo Xavier, invertendo o que aconteceu em X-Men (2000). Aliás, a rima não pára aí: se no primeiro filme dos X-Men o Carcaju da Marvel é movido pelo desejo de ajudar a Vampira (Anna Paquin), cujo poder pode ser um perigo para os mutantes se cair nas mãos erradas, aqui o Professor Xavier é movido pelo desejo de ajudar a Mística, que se encontra na mesma situação – e, pra completar tudo, ambas as histórias possuem o Magneto (Ian McKellen/Michael Fassbender) como um “catalizador” que atrai as duas mutantes para o caminho perigoso.

É com a Mística, porém, que Singer faz o comentário central do filme, sobre o direito e a capacidade inerente de cada um de nós de nos definirmos. Não é segredo que os X-Men nasceram para representar a luta de minorias por direitos sociais (afinal, eles foram criados no começo dos anos 60, bem quando estourava nos EUA uma enorme luta por direitos sociais das mulheres e dos negros) e, se nos primeiros filmes eles falaram muito sobre ser temido e excluído da sociedade, esse longa deixa esse tema de lado e se foca mais na capacidade individual de cada um de nós de definir nosso próprio destino e quem nós somos. É interessante ver que, apesar do filme possuir um “vilão” (Bolívar Trask), no fim das contas o verdadeiro obstáculo que a Mística e os X-Men precisam superar é o rótulo de monstros e de “o inimigo” que lhes imputam.

Ainda nos pontos positivos do longa está no fato de como ele é muito fluído em todos os seus momentos, sem que nenhuma inserção ou transição pareça forçada, desde os momentos de humor (que surgem naturalmente com o Mercúrio em tela – aliás, os pôsteres nos enganaram completamente, o cara está sensacional no filme, muito engraçado, leve e ainda protagoniza uma das cenas visualmente mais espetaculares do ano) até as várias participações especiais no longa, desde personagens da trilogia inicial até personagens de Primeira Classe que não aparecem mas tem ausência justifica.

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O principal problema de Dias de um Futuro Esquecido, porém, é fora das telas. Com a missão de organizar a bagunçada cronologia dos X-Men nos cinemas (X-Men Origens: Wolverine e Primeira Classe só criaram conflitos nesse sentido), o longa acaba bem sucedido na sua missão, mas não sem antes complicar ainda mais.

Para evitar spoilers, é como se você contratasse um encanador pra consertar um problema num cano do banheiro, mas o cara quebra o encanamento da casa toda antes de efetivamente sumir com o seu problema.

Nós estamos destinados a nos destruir ou podemos mudar e nos unir? O futuro é realmente definido? Charles Xavier

Essa situação da cronologia acaba sendo bem chatinha pra quem tem os elementos dos filmes anteriores frescos na cabeça, já que personagens que não deveriam aparecer, aparecem; itens que são o tema principal de um filme são criados aqui, 30 anos antes; etc. Vai incomodar os mais detalhistas e prova que X-Men: Dias de um Futuro Esquecido não conseguiria viver naquele universo sem alterá-lo, mas essas mudanças e contradições acabam justificadas porque proporcionam arcos e desenvolvimentos que são mais importantes do que manter a cronologia de filmes de 12 anos atrás.

Fora isso, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é um entretenimento exemplar. Com efeitos de primeira linha, uma boa história e a representação justa de alguns dos mais importantes heróis da cultura pop, o filme encerra muito bem com uma bela homenagem a rostos que deram início à onda de filmes de heróis que invadem o cinema hoje em dia e ainda consegue limpar o caminho para aventuras futuras.

Ah, um recado: não saia do cinema sem ver a cena pós-créditos, ok?

É o tipo de filme de um presente que a gente não quer esquecer

TL;DR

Dias de um Futuro Esquecido mescla cenas de ação impecáveis com uma trama interessante, que baseia bem nos seus personagens cativantes e no seu elenco extremamente competente e carismático. Diverte quem procura por pipoca, quem procura por um bom cinema e também quem é fã dos quadrinhos e quer ver aqueles personagens nas telas. X-Men: Days of Future Past Estados Unido – 2014 Ação | Aventura | Fantasia 131 min. Direção: Bryan Singer Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn (Conceito da História), Simon Kinberg (Roteiro) Elenco: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Patrick Stewart, Ian McKellen, Ellen Page, Halle Berry, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Omar Sy, Evan Peters, Bingbing Fan
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