Crítica Trapaça

Trapaça usa de todos os recursos disponíveis para tentar fazer com que a platéia não perceba que o filme não tem nada a dizer

Leandro de Barros

  segunda-feira, 03 de fevereiro de 2014

Desde que eu vi o primeiro trailer de Trapaça, novo filme de David O. Russell (O Lado Bom da Vida) e que tem estreia no Brasil marcada para a próxima sexta-feira (7/2), eu fiquei ansioso pelo momento que eu poderia assistir ao longa. Um elenco recheado de bons nomes, um diretor que gosto muito, uma temática interessante – obviamente que as 10 indicações ao Oscar 2014 não fizeram nenhum mal à expectativa que eu tinha.

Quando eu finalmente cheguei à tela de créditos do filme, eu me empenhei pra encontrar uma razão para gostar de Trapaça – em parte, porque eu não queria me desapontar com o longa, em parte porque todos os filmes merecem uma boa considerada com boa vontade e em parte porque algumas partes da projeção simplesmente parecem… certas. A verdade é que parar para pensar sobre Trapaça só me fez perceber que é um filme que aposta suas fichas no cavalo errado e frusta quem está ao redor.

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Na trama de Trapaça, acompanhamos o golpista Irving Rosenfeld (Christian Bale), que passa aplicar um esquema com sua namorada Sydney (Amy Adams). Porém, eventualmente a dupla acaba caindo nas mãos do FBI, representado pelo agente Richie DiMaso (Bradley Cooper), que coloca os dois para trabalhar numa operação que envolve políticos e a máfia italiana.

O problema com Trapaça é o fato da trama do filme não conseguir (ou evitar propositadamente?) ter alguma espécie de sentido ou propósito, preferindo apostar todas as suas fichas e focar toda a sua atenção nos seus personagens, na esperança que o público se apegue à aquelas pessoas e faça com que toda a experiência criada por David O. Russell seja validada. Porém, apesar do excelente trabalho do elenco do filme, essa conexão entre público e personagens nunca chega a acontecer.

Amy Adams em TrapaçaQuando essa ligação falha, o que resta é acompanhar 2 horas de uma história que soa incrivelmente enfadonha, mesmo com reviravoltas e acontecimentos que são totalmente fora da definição de “enfadonho”.

Para efeitos de justiça, existem alguns momentos em que Trapaça parece querer finalmente começar a falar sobre alguma coisa. Algumas cenas até iniciam alguns comentários sobre temas como vaidade (os personagens do longa parecem dominados pela própria aparência, com o elenco masculino gastando minutos de tela para arrumar seus cabelos, por exemplo; um deles faz todas as ações visando o objetivo de “parecer bem na fita”, tanto literal, quanto figurativamente) ou sobrevivência (um tema que deve dominar o Oscar 2014, já que 12 Anos de Escravidão e Gravidade também contribuem muito para essa temática). Porém, todos esses “inícios” de discussões nunca desabrocham em algo mais concreto, principalmente por causa da má montagem e concepção do longa, que abandona ideias no meio, parte para outros temas (que também ficam incompletos) apenas para retornar na ideia inicial e concluir tudo sem dizer nada.

Porém, contudo e todavia, eu estaria sendo injusto se não dissesse que Trapaça possui sim alguns aspectos muito positivos. O mais flagrante deles é a sua direção de arte, que trabalha com o diretor David O. Russell para recriar os anos 70 não apenas nos sets ou no figurino, mas também na ~vibe~ do filme – não tendo vivido nos anos 70 nos EUA, é difícil conseguir avaliar se a recriação histórica é exata, mas todo o visual do longa parece muito certo.

trapaca american hustle critica 11Quem também merece alguns elogios é o elenco de Trapaça – mesmo que seus personagens falhem em se conectar com o público, dá para admirar a composição deles (e notar como o filme falha em aproveitar esse trabalho). Um bom exemplo desse “desperdício” é a personagem de Jennifer Lawrence, Rosalynd Rosenfeld, que abre o filme como uma dona-de-casa com um comportamento passivo-agressivo que, inicialmente, tende para o humor, mas cujas ações e sua auto-indulgência vão ganhando um ar cada vez mais deprimente com o passar do tempo – características que estão na tela, mas não encontram uso para a história.

No fim, Trapaça é como um bolo que não foi ao forno – o fato de possuir grandes ingredientes, uma boa receita e um cozinheiro exemplar não significa nada se o bolo não estiver cozido. A não ser que…

Bom, eu tenho uma teoria. Talvez seja apenas o meu lado fã falando mais alto, talvez eu esteja me recusando a me decepcionar com esse filme ,mas eu tenho uma teoria sobre Trapaça. Sendo um longa que fala sobre golpes e esquemas, eu acho que há um golpe em Trapaça – e sua vítima é a platéia.

Eu gostaria de acreditar que David O. Russell resolveu fazer uma crítica ao estado atual das coisas em Hollywood. Porém, ao invés de fazer essa crítica da “maneira tradicional” (produzindo um filme sobre), eu gostaria de acreditar que O. Russell decidiu aplicar um golpe em Hollywood, fazendo um filme com todos os defeitos que quer criticar (a falta de coerência, mensagem ou propósito) e mascará-lo com os subterfúgios regulares da indústria (decotes, reviravoltas, um bom elenco e outros estímulos visuais), criando assim um dos filmes de Oscar mais vazios dos últimos anos – e as 10 indicações pro prêmio da Academia, além dos outros troféus conquistados, só provariam que nós caímos no golpe e realmente aceitamos um longa-metragem vazio, desde que ele forneça distrações o suficiente. Isso é o que eu gostaria de acreditar – embora eu saiba no meu íntimo que toda essa rocambolesca explicação seja apenas mais um exemplo de um expectador criando o significado pro artista e uma vã tentativa de tentar colocar algum sentido em um dos mais desapontantes projetos de Hollywood dos últimos anos.

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Na pior das hipóteses, Trapaça é um filme medíocre que se salva de cair nos braços do esquecimento por causa de um elenco afiado e de um diretor especialista em controlar o tom da película. Na melhor das hipóteses, é um filme medíocre que aplica um golpe no público e na indústria, mostrando que bastam algumas distrações e subterfúgios para que sejamos cúmplices silenciosos de um processo de esvaziamento de propósito do entretenimento e da arte.

Seja qual for o cenário, uma constante permanece: Trapaça é um filme medíocre.

A gente tenta encontrar justificativas e argumentos porque nós queremos ser enganados

TL;DR

Trapaça tinha tudo para dar certo: um excelente elenco, um ótimo diretor e a boa vontade do público. Porém, como todo golpe que se preze, o resultado final deixa um sabor de decepção na boca e a sensação de que o expectador foi iludido durante toda a projeção American Hustle EUA – 2013 Crime - Drama 138 min. Direção: David O. Russell Roteiro: David O. Russell, Eric Warren Singer Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña
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