Crítica Transcendence: A Revolução

Wally Pfister deixa a fotografia de lado - por um momento - e dirige o blockbuster estrelado por Johnny Depp e Rebeca Hall.

Pedro Luiz

  sábado, 12 de julho de 2014

Para um criador, debutar significa deixar uma marca. Tratando-se de arte, a primeira criação necessita, de antemão, impactar. Para isso, é preciso um misto de ambição, coragem e empenho. A combinação desses três fatores torna a primeira criação algo notável, único na carreira de qualquer criador.  No cinema, essa máxima se fortalece quando surgem filmes como Transcendence – A Revolução (Transcendence, 2014). Tão ambicioso quanto um jovem cientista a retomar os antigos projetos de faculdade. Mas porcamente executado, assim como a criança que sonha em mudar o mundo com seu vulcão de argila recém-construído. O estreante Wally Pfister decide trocar de cadeira. De diretor de fotografia – tendo trabalhado com Christopher Nolan em alguns filmes – para diretor geral. E como primeira criação, uma marca foi deixada. Nada positiva, que fique claro. Mas ela está lá.

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A história traz Johnny Depp como um notável cientista, que junto de sua equipe (Paul Bettany e Rebeca Hall) busca construir o primeiro computador com consciência. Um grupo de terroristas antitecnologia arquiteta um atentado conta o cientista, que acaba matando-o. Decididos a levarem o projeto à frente, os cientistas da equipe transplantam a consciência de Will Caster (Depp) para o protótipo. A partir daí, as coisas saem do controle. Tanto na história, quanto da mão do experiente fotógrafo Wally Pfister. O roteirista Jack Paglen também debuta. Curioso notar como uma premissa absolutamente relevante pode, em poucos minutos, soar patética. Questionamentos a respeito do limite do conhecimento humano despontam no espectador a sensação de estar vendo algo substancial, com potencial para discussões futuras ao final da projeção. A frustração, porém, vem logo após as primeiras perguntas levantadas, apresentando ao espectador um emaranhado de cenas com pouco poder de impacto e conexões confusas.

Nenhum dos três personagens principais é realmente desenvolvido. Tampouco se entende a relação existente entre eles. O casal vivido por Depp e Hall não transparece aquilo que é dito em texto, o que acaba por prejudicar as ações e motivações de cada um no decorrer da trama. O cientista vivido por Bettany é desenvolvido de forma igualmente desleixada e desatenciosa. Se os acontecimentos centrais do filme giram em torno dos três, e se entre os próprios não há comunicação que reforce os acontecimentos, o filme passa a soar como um comercial. Nesse caso, a ideia da cena precisa ser passada rapidamente, sem que haja uma extensão maior no desenvolvimento.

Rebecca Hall em Transcendence

A impressão que fica é a de imediatismo, correria. Aparentemente, ao final do primeiro corte, o estúdio optou por diminuir drasticamente a duração do filme, o que resultou numa edição dinâmica demais para um filme que, em sua essência, trata de assuntos não muito democráticos. Ora, quem gostaria de assistir um filme de ficção científica com questionamentos filosóficos relevantes por quase quatro horas em plena temporada de filmes blockbuster nos EUA? Bom, pelo visto, todo mundo. Mais tempo para desenvolver… Talvez fosse essa a solução.

Ainda na narrativa, nota-se uma falta de humanidade bastante inquietante. Os debates levantados envolvem o futuro da espécie, do convívio e das decisões coletivas. Atrelado a debates dessa magnitude, existem as quebras de paradigmas. Se olharmos a História, conseguimos identificar os grandes avanços atrelados a uma polêmica levantada por grandes pensadores. Galileu, Newton e tantos outros. Foram ouvidos, rebatidos e, tempos depois, suas perspectivas mudaram o rumo das coisas. Já em Transcendence – A Revolução, não há o que ouvir. O debate se inicia, mas não se desenvolve.

Sobre Johnny Depp não há muito que comentar. Já digo por aqui há algum tempo que, se não atrás do ‘’kit Burton’’, Depp atua no automático. Aqui, então, vemos alguém aparentemente desinteressado. Se não existe empolgação no próprio criador em relação à criação, fica realmente difícil de passar alguma verossimilhança.

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Ao ponto de parecer um filme feito para canais fechados de baixa audiência, a primeira criação de Wally Pfister deixa a sua marca. Assim como a maioria dos estreantes, a ideia parece – e de fato, é – genial demais para ser enxugada e colocada na fórmula vendável de Hollywood. Que os cem milhões de orçamento fossem usados, então, em algo menos promissor. Que paradoxo, não? Em suma: ponto de partida cheio de possibilidades e pretensões. Resultado final desleixado e abaixo do esperado.

Se os estúdios de Hollywood vivessem somente de ambição, Transcendence teria um futuro brilhante - e lucrativo.

TL;DR

Os cem milhões de dólares não foram suficientes. Na estreia de Wally Pfister na direção, vemos um filme extremamente ambicioso e mal executado. Parte de premissas instigantes e cai no desinteresse.

Transcendence EUA | 2014 119 minutos Ficção científica

Direção: Wally Pfister

Roteiro: Jack Paglen

Elenco: Johnny Depp, Rebecca Hall, Morgan Freeman, Paul Bettany, Cillian Murphy, Kate Mara, Cole Hauser, Clifton Collins Jr.

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