Crítica Selma: Uma Luta pela Igualdade

Filme aborda um tema muito rico para a sociedade americana ainda hoje

Luiz Alexandre Andrade
@luizalexandre82

  segunda-feira, 09 de fevereiro de 2015

Martin Luther King é uma das personalidades mais célebres do século XX. Do seu discurso mais famoso, “I Have a Dream”, até sua trágica morte, quando assassinado em 4 de abril de 1968, o pastor protestante e ativista político tem sua vida envolta a mitos e um filme sobre ele poderia cair facilmente cimentar sua mitificação, o que geralmente  acontece em cinebiografias, mas em “Selma: Uma Luta pela Igualdade” a diretora Ava DuVernay deixa o mito de lado e se concentra em outro ponto da trajetória de Martin Luther King talvez não tão conhecida por nós.

Selma

O filme é ambientado durante os dias em que Martin Luther King esteve na cidade de Selma, no Alabama. De lá, iniciou uma grande marcha exigindo o direito do voto negro nos Estados Unidos. Mesmo tendo recebido o Nobel da Paz em 1964, como vemos no início do filme, King não teve sua luta facilitada, pois o que encontrou durante suas manifestações foram muita violência e morte.

Ava DuVernay é muito feliz ao abordar Martin Luther King como um homem, não como um mito. King é um pastor protestante, carismático e um ativista político a favor dos direitos dos negros nos Estados Unidos. No filme, vemos um homem que além de ser o guia espiritual e político para muitos, é também um chefe de família que chora, que tem problemas conjugais, que recua e que busca a ajuda de seus amigos. É um homem que também sabia ser pragmático, pois não é a toa que escolhe a cidade de Selma para levar suas manifestações. King esperava pela reação forte do xerife da cidade, Jim Clark, que poderia criar comoção nacional. Merecido destaque ao ator David Oyelowo que dá o tom certo a todos os momentos que Martin Luther King está em cena.

“Selma” monta de forma interessante o contexto político da época nas figuras centrais de King, do presidente Lyndon Johnson e do governador do Alabama George Wallace. Mas não se atém apenas a “grandes figuras”, é no povo também que se encontram personagens importantes para contar essa história e DuVernay equilibra esses dois núcleos num elenco de primeira que reúne Tom Willkinson, Tim Roth, Cuba Gooding Jr. E Oprha Winfrey.

O filme é dividido entre os bastidores políticos da época e pelo drama familiar do líder protestante o que acaba deixando o filme um tanto desequilibrado e com quebra de ritmo. Mesmo deixando de lado mitificar Martin Luther King, DuVernay abusa de técnicas recorrentes em cinebiografias como o uso da câmera lenta, uma trilha sonora melosa, o uso de letreiros (o que é até interessante o modo como é usado nesse filme, mas em alguns casos foram extremamente desnecessários), ao final, informa o que aconteceu na vida real de alguns personagens do filme assim como o usa de imagens reais da marcha de Selma até Montgomery, fazendo parecer um documentário ou um telefilme.

SELMA

O quanto aos fatos históricos? A diretora Ava DuVernay consegue imprimir na tela o que de fato aconteceu em Selma no dia 7 de março de 1965 quando a primeira marcha foi duramente reprimida? Numa entrevista para a Folha de São Paulo, o jornalista Gay Telese, hoje com 82 anos conta: “eu estava lá, eu vi tudo”.

Na entrevista, Telese revela que “o filme oferece um retrato muito realista do que aconteceu de verdade”. “Eu estava observando, ao lado da ponte Edmund Pettus, naquela tarde de domingo, dia 7 de março de 1965, quando os homens do xerife atacaram os que vinham marchando e os derrubaram no chão, depois, perseguiram os que escaparam pelas ruas da cidade e pelo bairro negro de Selma”, relembra. O jornalista também acompanhou a marcha de Selma até Montgomery e afirma que ficou impressionado com o modo acurado do filme.

Gay Telese ainda fala sobre um dos pontos polêmicos do filme, a presença do presidente Lyndon Johnson. O círculo do presidente acusa o filme de cometer injustiça a Johnson, pois em “Selma” é mostrado como um antagonista e contrário a marcha. “Eles quiseram transformá-lo no responsável pela marcha, e não Luther King, e mesmo hoje, 50 anos depois, os admiradores e apoiadores do então presidente ainda estão nisso, mas como eles sabem exatamente o que, exatamente, estava na cabeça e no coração de Lyndon Johnson?” questiona Telese.

“Selma: Uma Luta pela Igualdade” é um filme que talvez passe desapercebido para muitos, o que se deve a uma fraca campanha de divulgação que reflete em apenas duas indicações ao Oscar (Melhor Filme e Melhor Canção Original). Mas apesar de alguns deslizes, o filme aborda um tema muito rico para a sociedade americana ainda hoje. Os negros nos Estados Unidos conquistaram seu direito de votar e tornaram-se elegíveis. Hoje, um negro comanda a nação, mas teria o sonho de Martin Luther King se concretizado? Teria seu sonho de igualdade enfim tornado uma realidade? Infelizmente não. Se relacionarmos o filme com as recentes manifestações em Ferguson, quando o jovem negro Michael Brown foi assassinado pelo policial Darren Wilson que não foi indiciado pelo crime provocando manifestações pelas ruas da cidade, reprimidas de forma violenta, a marcha de Selma não está tão distante de nós e o sonho de King ainda caminha pela busca da igualdade.

"A marcha de Selma não está tão distante de nós"

Selma EUA – 2014 Biografia - Drama - História 128 min. Direção: Ava DuVernay Roteiro: Paul Webb Elenco: David Oyelowo, Carmen Ejogo, Oprah Winfrey, Tom Wilkinson, André Holland, Tim Roth
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