Crítica Robocop

Uma estreia satisfatória para José Padilha, um filme que tinha elementos para ser melhor.

Eder Augusto de Barros
edaummm

  quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

José Padilha tem uma carreira relativamente curta no cinema, ele dirigiu apenas dois longa-metragens (e mais 4 documentários)  antes de rumar para Hollywood – merecidamente diga-se de passagem. Logo de cara pegou um belo abacaxi para resolver: dirigir um remake de um filme que marcou uma geração, ser refém da censura etária e fazer algo pop com os $100 milhões de dólares de orçamento e, claro, não perder a sua essência de colocar algum conteúdo à mais em seus filmes. Citando uma fala de Tropa de Elite: “Missão dada, é missão cumprida!”

Essa nova versão de Robocop se passa no ano de 2028 numa época onde os drones já são usados pelos EUA em guerras pelo mundo afora e, agora, a empresa OmniCorp quer finalmente convencer os americanos a usar os drones nas grandes metrópoles. Pensando nisso, o executivo da OmniCorp, Raymond Sellars (Michael Keaton) tem a ideia de criar um robô que tenha consciência humana, de forma a aproximá-lo da população. A oportunidade perfeita surge quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado que o coloca entre a vida e a morte.

Joel Kinnaman

Ele pensa que está no controle, é uma falsa sensação de livre-arbítrio Dr. Dennett Norton

Pela sinopse já podemos notar uma ou outra diferença ao filme original de 1987, dirigido por Paul Verhoeven. E esse é o maior acerto de Padilha em sua visão do Robocop, não se prender muito aos pequenos detalhes da trama do filme original. Obviamente temos semelhanças de direções tomadas ao longo da projeção, mas no geral as grandes semelhanças são o policial que acaba ficando entre a vida e a morte e é submetido ao programa da OmniCorp para se o primeiro sujeito de testes para o Robocop, e pronto. E por que eu digo que o Padilha acerta nisso? Pois assim ele consegue imprimir na trama o tal algo à mais que eu falei no inicio, ele consegue passar ao espectador um pouco da sua visão do mundo ou como ele gostava de chamar em Tropa de Elite 2, a sua visão do Sistema. Além é claro, de fazer algo mais pop e sem restrições etárias.

O Robocop original abusava da violência para fazer uma crítica ao momento que os EUA passavam 1987, sobretudo a cidade de Detroit (onde a história se passa) que era a cidade mais violenta do país e no longa é retratada como algo completamente perdido, sem escrúpulos. E isso fica claro numa cena onde o funcionário da prefeitura faz o prefeito e outros colegas de trabalho de refém por algo insignificante, e um dos pedidos que ele faz a polícia é que envie café fresco e prometam que vão manter o emprego dele ao libertar o prefeito, ou seja, o crime em troca de nada. Numa opinião bem pessoal e ciente de que não estou com a maioria das pessoas, esteticamente não gosto muito da violência do original justamente por ser bem escrachada, visualmente beirando o trash, o que para mim não surte o efeito crítico pretendido e digo isso porque acredito que hoje, algo assim, não passaria a mensagem pretendida. Mas são épocas diferentes e, consequentemente, críticas diferentes.

Joel Kinnaman;Abbie CornishSendo assim, José Padilha acaba usando o seu Robocop para um retrato mais atual da nossa sociedade e para criticar o que ele gosta de chamar de Sistema, as mãos atadas da polícia e o que acontece quando polícias corruptos se misturam com bandidos. É possível reconhecer muita coisa dos dois Tropa de Elite nesse novo trabalho de Padilha, desde a brincadeira com a cor preta do Robocop até o retrato da corrupção na polícia local. O mais interessante ainda nessa nova leitura do Robocop é a falsa sensação livre-arbítrio que o longa crítica, sobretudo com o personagem de Gary Oldman explicando a concepção do Robocop nas várias vezes que ele discute o tema.

Uma visão bem interessante é o processo de “se tornarem robôs” que a polícia e o exército passam. E o Robocop é mostrado como o grande símbolo disso. Em uma certa cena, o Alex Murphy, revoltado por ser um robô, acaba sendo obrigado pelo Dr. Norton à se ver no espelho sem a parte robótica, e é então que podemos perceber que apenas a mão de Murphy foi mantida, justamente a mão que puxa o gatilho como disse o político que é contra o uso de robôs pela polícia. Porém essa mão acaba agindo com o falso livre-arbítrio criado pelo Dr. Norton.  É como acontece com a polícia e a população, que acha certo matar criminoso e diminui essas questões pra equações matemáticas: “fez merda, mata!”, esquecendo que é todo mundo humano e deveríamos agir com mais humanidade (inclusive a polícia).

1174829 - ROBOCOP

Joel KinnamanComo complemento ao falso livre-arbítrio, o filme ainda passeia por outro tema bem interessante, ao juntar a corporação que apenas quer faturar, a policia corrupta, e a imprensa tendenciosa com o personagem interessantíssimo criado para Samuel L. Jackson. Eu digo que passeia porque ele junta essas três forças e nos mostra o quão reféns do sistema nós somos, porém falta uma figura representando o povo para que esse tema seja sentido com o peso devido (a esposa de Alex, vivida por Abbie Cornish fica num meio termo mas não consegue dar a sensação necessária para compreender isso). Não chega a ser um erro, mas poderia ter sido mais explorado. Numa análise mais profunda, caba que o personagem de Gary Oldman representa um pouco disso também, uma vez que ele acaba sendo refém de uma corporação e tem que abdicar da sua ética profissional em alguns casos, o que acaba caído no tema que falei anteriormente, o falso livre-arbítrio, e gerando um ciclo vicioso. Se olharmos dessa forma, faz sentido o povo não ser retratado, já que a solução desse problema está na mão do povo (ao votar, ao fazer valer seus votos e assim por diante) e o povo é refém de um sistema que lhe passa essa sensação e a imprensa que informa a população, acaba manipulando o que é passado da maneira que mais lhe convém e eu poderia continuar por horas retratando esse circulo vicioso até que algo me fizesse parar.

Talvez tenha faltado para Robocop um bom vilão, até para poder tornar esses temas mais presentes distinguir melhor os lados da situação. Alex Murphy acaba por não ter em momento nenhum uma grande ameaça ou alguém com personalidade o suficiente para ficar marcado. Michael Keaton, como chefe da OmniCorp não tem presença na trama, não tem carisma, não tem pulso, não tem nada. Jackie Earle Haley até que faz um personagem com essa personalidade necessária, e até tem carisma, mas não chega a ser um vilão ou uma ameaça para Murphy, e acaba sendo mais uma peça curinga encaixada em vários trechos da trama da maneira que fosse mais conveniente. O personagem de Gary Oldman é muito bom, construído ao longo da trama, responsável pelas frases de reflexão, e em certo momento tem a chance de se tornar um grande personagem e evoluir bastante o nível da trama, mas como se fosse um RPG, a escolha do roteiro para o seu personagem não foi a mais efetiva e ele acaba por ser aproveitado de maneira bem básica quando mais importava.

A ligação da história também não é das melhores, o filme acaba por sofrer um pouco com o ritmo, o primeiro ato dura quase metade do filme com a apresentação da situação da sociedade, explicação sobre quem é a OmniCorp e porque os drones ainda não são usados nos EUA, quem é Alex Murphy e o porque ele vai se transformar no Robocop. Segundo e terceiro atos acabam por sofrer com isso e o desenvolvimento de Alex como Robocop e a revelação da trama final acabam sendo executados em simultâneo e tudo parece muito corrido e sem o devido peso, apesar de conseguir transmitir a história sem parecer confuso. Aliás, o excesso de explicações acaba por atrapalhar um pouco também, tudo tem que ser explicado e re-explicado.

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Os efeitos especiais são bem interessantes, e eu confesso ter gostado da versão em preto do Robocop, acho que realmente fica mais tático, porém os mais saudosistas vão se encontrar na versão mais parecida com a clássica. Aliás, quando o personagem de Jay Baruchel apresentar o projeto para o dono da OmniCorp, é possível ver a versão clássica no exemplo, uma homenagem para os atentos.

Nas atuações, cabe a Gary Oldman o destaque, o ator britânico vai muito bem no papel do Dr. Dennett Norton, só é pena o seu personagem ser aproveitado de uma maneira muito básica. Já Samuel L. Jackson além de uma ótima atuação, com a personalidade necessária, tem ainda como aliado o personagem Pat Novak, que é um versão americana do Datena e apesar de parecer dispensável à primeira vista, acaba por ser parte importante para essa leitura de que o povo é refém do sistema. Michael Keaton entrega um vilão sem sal. O Robocop Joel Kinnaman está apenas na média, eu acho que ele poderia dar mais, ser mais carismático, é um ator que fez um trabalho muito interessante na série do AMC, The Killing.

O saldo é positivo, principalmente para quem não colocava fé no remake. Padilha conseguiu conduzir o filme de maneira eficiente e melhor que isso, conseguiu imprimir seu modus operandi, conseguiu incluir alguma mensagem e não entregar apenas entretenimento. É óbvio que o longa tem deslizes, e está longe de ser uma unanimidade, mas é um bom filme.

 

Não tão bom quanto era possível, mas melhor que o esperado.

TL;DR

José Padilha consegue com seu Robocop entregar um filme com um pouco mais de conteúdo que um puro entretenimento, é um saldo positivo para a sua estreia em Hollywood. Porém o longa tem alguns deslizes, sofre com o ritmo de sua montagem e a falta de vilão realmente ameaçador. Robocop EUA – 2014 Ação - Crime - Ficção Científica 117 min. Direção: José Padilha Roteiro: Joshua Zetumer Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jackie Earle Haly, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, Samuel L. Jackson, Aimee Garcia, Marianne Jean-Baptiste
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