Crítica Philomena

O longa de Stephen Frears está indicado à 4 Oscars da Acadêmia.

Leandro de Barros

  quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dirigido por Stephen Frears (A Rainha), Philomena é o indicado ao Oscar 2014 com menos chances de vencer o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, segundo algumas casas de apostas por aí. Isso não significa em nenhum momento que o longa é ruim, mas diz muito sobre a alma desse filme: no fim das contas, Philomena pode ter uma história tocante, atuações impecáveis e uma direção tranquila e segura, mas lhe falta aquele Elemento X, aquele pedacinho de magia que faz com que um filme grude na nossa cabeça e nos move a falar sobre em toda oportunidade, refletir sobre ele o tempo todo.

Afinal, Philomena não é a garota que arrebata o cinema – mas faz valer o tempo que pede emprestado pra contar a sua história.

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Na trama de Philomena, acompanhamos a personagem-título (Judi Dench), uma senhora irlandesa de 60 e tantos anos, que resolve contar para a sua filha numa noite fria que, há 50 anos atrás, ela teve um filho – que foi tomado dela por freiras de um convento irlandês e foi adotado por desconhecidos.

Durante esses 50 anos, Philomena tentou reencontrar o seu filho, mas sempre foi “ludibriada” pelo convento que o deu para adoção (as freiras diziam que um incêndio destruiu toda a documentação do processo do rapaz). É nesse momento que entra em cena Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista britânico que passa por um momento conturbado da carreira – enquanto trabalhava para o governo, Sixsmith se envolveu numa polêmica pública que lhe custou o emprego e comentários depreciativos na TV.

Procurando por uma oportunidade de trabalho, o jornalista passa a se dedicar à história de Philomena, na tentativa de ajudá-la a reencontrar seu filho e conseguir se reestabelecer na carreira.

Uma das primeiras impressões que as pessoas ficam quando descobrem do que se trata o longa, é achar que estamos falando de algum drama choroso, onde veremos por horas e horas o sofrimento da pobre Philomena, que chorará o suficiente para aumentar o nível do mar em uns 4 cm.

Essa impressão é descartada logo no começo de Philomena, que prova ser um filme muito bem humorado (mas com momentos de drama) sobre crueldade e a reação que ela gera; sobre fé e onde escolhemos depositá-la.

Muito do mérito das qualidades do longa se deve ao trabalho do diretor Stephen Frears com os roteiristas Steve Coogan e Jeff Pope, que trabalham a história do filme focando na ideia de como todos nós escolhemos códigos morais que funcionam como “muletas” em nossa vida. Isso sem falar na maneira como o trio evita armadilhas e clichés da trama: em determinado momento, por exemplo, Sixsmith está no telefone “reclamando” das maneiras simples e um pouco fora de sintonia com o padrão que ele está acostumado, fazendo referência à uma cena anterior bem cômica. Essa reclamação leva o espectador a relembrar o momento e rir também; porém, pouco depois, Philomena volta a demonstrar seu desligamento ao acordar Sixsmith no meio da noite, apenas para agradecê-lo por estar ajudando-a a procurar o filho (e porque está sofrendo de jet lag). Mãos mais inexperientes aproveitariam essa cena para fazer o espectador se envergonhar de ter rido dessa pobre mulher segundos antes, provavelmente colocando Philomena em lágrimas e lembrando mais uma vez da tragédia da sua vida; já o trio que cuida do longa evita isso ao mostrar que sim, ás vezes essa falta de familiaridade com o mundo real de Philomena pode ser engraçada, mas que no fundo, essa senhora é uma adorável mulher que é verdadeiramente gentil e sem maldade – apesar de não entender muito bem o conceito de spoiler.

Um dos grandes destaques do longa, claro, é a incrível performance de Judi Dench no papel-título de Philomena. A atriz demonstra uma segurança tremenda ao compor Philomena, apresentando a senhora como uma mulher simples, engraçada e calorosa, mas que carrega uma tristeza de 50 anos nos olhos, capazes de comover qualquer criatura dotada de alma nesse mundo – o que, obviamente, não inclui as pragas que deram seu filho pra adoção, já que essas não possuem alma. Dench decididamente merecia o Oscar de Melhor Atriz nesse ano, que acabará caindo nas mãos de Cate Blanchett (que também fez uma performance merecedora de prêmios em Blue Jasmine).

Coogan, que divide o protagonista do longa com Judi Dench, também faz um trabalho digno de aplausos, interpretando um arrogante Martin Sixsmith, que acaba jogado num ambiente e numa situação que despreza, mas aprende a encontrar o valor desses momentos.

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No fim, Philomena é uma grande história de “interesse humano”, um conto cujos personagens cativam o expectador e que tem uma execução brilhante. Porém, ainda falta aquele “elemento extra”, aquele ó pra esse borogodó – talvez se o filme fosse mais ousado na sua abordagem, talvez se o longa fosse menos íntimo e mais “universal”, como seus concorrentes.

Mas aí não seria sobre a Philomena.

Engraçado, adorável, mas pouco impactante

TL;DR

Engraçado, doce e adorável, Philomena tem o pecado de não impactar o espectador como seus concorrentes o fazem, tornando o filme numa bela experiência que pode ser esquecível depois de algum tempo. Atuações fantásticas de Judi Dench e Steve Coogan ajudam o público a se interessar e adorar a conturbada dupla protagonista Philomena Reino Unido / Estados Unidos / França – 2013 Drama 98 min. Direção: Stephen Frears Roteiro: Steve Coogan, Jeff Pope e Martin Sixsmith (livro original) Elenco: Steve Coogan, Judi Dench, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Sean Mahon, Michelle Fairley
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