Crítica Percy Jackson e o Mar de Monstros

O segundo filme da saga Percy Jackson não salvou as decepções do primeiro. Mar de monstros fez um trabalho preguiçoso em roteiro e produção.

Roberta Rampini

  sábado, 17 de agosto de 2013

No dia 10 de fevereiro de 2010 entrei no cinema feliz porque com o fim de Harry Potter eu teria algo para amar. Com Percy Jackson e o Ladrão de Raios começa a adaptação cinematográfica da saga Percy Jackson. Duas horas depois eu e milhares de fãs saímos de nossas sessões pensando: onde está a Clarisse? Porque a Annabeth é morena? Isso vai ter um segundo filme? E, okay, Grover negro até que é legal.

Pois é. Isso teve um segundo filme.

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O segundo filme da saga Percy Jackson deveria salvar a franquia, ele tinha a difícil missão de honrar o sucesso dos livros e manter seus fãs felizes e pagando pelo ingresso de ainda mais três filmes. E eles tentaram nos fazer acreditar que estavam se esforçando. Das fotos promocionais aos trailers percebemos coisas como Clarisse finalmente ter aparecido e Annabeth (Alexandra Daddario) agora ser loira (sem explicação alguma durante o filme, se me permitem o spoiler). O problema é que esse ranço de coisa feita nas coxas ainda estava ali. Tyson (Douglas Smith) e Clarisse (Leven Rambin)  eram bonitos de mais, teenstars de mais. Desconfiada mantive um pé atrás e essa foi minha sorte, ou teria caído. Eu não esperava lá muita coisa.

E essa sou eu sendo esperta.

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Quando decidi trabalhar com criação (minha amarga ilusão) desenvolvi um código de autopreservação: não faria nada que eu não soubesse fazer no mínimo bem, ainda que isso significasse fazer o simples – porém fazer bem – pelo resto da minha vida. E acreditem, foram muitos anos fazendo apenas barras pretas e escrevendo de branco no paint.

Dramas a parte alguém em Percy Jackson e o Mar de Monstros merecia o mesmo conselho. E assim aproveito para começar pelo primeiro ponto que merece atenção: a parte de produção. Uma vez que ainda estou tonta com a parte narrativa da coisa.

E não, isso não é um bom sinal.

Como você deve imaginar, mesmo não tendo lido o livro aí vai um fato: aparece muita água e muitos monstros em um filme que chama “O Mar de Monstros”. Para fazer a água dançar conforme a música é preciso uma boa dose de efeitos. Para se fazer monstros metade cavalo, metade baleia e coloridos com textura furta-cor também. A questão é: sabe quando seu pai decide pintar a fachada inteira com só 100 ml de tinta? Pois é…

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O filme começa pecando pela economia e a intensão de fazer algo grandioso, mas que aparentemente não era viável com os recursos que tinham. O tempo todo o filme te leva por um vai e vem de ‘nossa, que bicho lindo’ e ‘sério que isso é uma onda?’. A impressão que dá é que gastaram toda a grana em efeitos de computação – e que não deu nem para isso – e na hora da produção sobrou grana apenas para uma lancha para o que devia ser um navio. Aos versados, sim, o Princesa Andrômeda virou uma lancha.

Como já disse, a plástica não é de todo mal. Ainda que muitas vezes a parte mais estrutural nos efeitos que formam o cenário e os monstros não seja tão bem construída seus olhos são facilmente enganados pela bela aplicação das cores.

Se você não se importar com um duelo entre Luke (Jake Abel) e Percy  (Logan Lerman) em cima de uma onda onde o movimento parece ter saído de uma série dos anos oitenta e o céu atrás de um chroma key tão verossímil como um fundo dos jornais dos anos noventa, meus pêsames, ainda tem coisa ruim por vir.

Não sei bem como definir isso, mas consigo imaginar algum produtor sentado em sua mesa de reunião pensando ‘como vou transformar o desastre de Ladrão de Raios em algo popular entre a moçada?’. Pois é, ele é o tipo de cara que fala moçada.

Forçaram tanto em fazer desse um filme teen, cool, pop, ou seja, lá que adjetivo estejam usando que a trama se perdeu inteira. Virou algo como os filmes da Disney para a TV ou mesmo Malhação. Mais uma vez.

Se em o Ladrão de Raios eu tinha duas perguntas básicas, em o Mar de Monstros passei 70% do filme apertando a testa e perguntando para a minha amiga do lado “era assim mesmo no livro?” Sei que li isso já faz alguns anos, mas a cagada na história é tão grande que não fui capaz de acionar minhas memórias primárias sobre a trama. A adaptação do roteiro é tão porca, que foi preciso forçar o que eles devem estar de chamando de “um final épico”. Algo que as pessoas sensatas talvez possam chamar de “o final da saga” veio parar, sabe os Deuses como, no segundo filme de possíveis cinco.

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A adaptação é tão confusa que o final que estava no livro não bastaria. Precisavam de um monstro chifrudo para a batalha final do blockbuster valer o ingresso. Ou talvez, estavam com medo de não ter a oportunidade de um próximo filme.

Faltando apenas alguns parágrafos para o fim da crítica você já deve conseguir ver o número de estrelas dado e agora se pergunta: Se a Rampini achou o filme tão ruim, porque o número de estrelas ainda é positivo? Bem, para mim, cinema tem a ver com experiência, às vezes depende até do humor com que você entra na sala. E aqui vão dois fatos sobre essa tal experiência.

Para quem não leu o livro, para quem não é fã, deve ser um bom filme. Deve ser um filme quatro estrelas para a faixa etária a qual ele se destina. Essa galera não está se importando com a ordem em que os personagens aparecem ou como vão fazer para a trama se amarrar lá no final. Não é problema deles, sabe? Não foi por isso que eles entraram ali. De certa maneira, se você se imaginar no lugar dessa galera, o filme se sustenta. Até a saga, talvez.

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E para quem se chama de semideus, sabe o número do seu chalé e vai para lá berrar vestido com uma camisa laranja ridícula, apenas estar ali vestindo a bendita camisa laranja ridícula (que não aparece em momento algum no filme) já vale algo. Ele não precisou desse filme para se apaixonar pelo universo e reclamar também o faz feliz. Acredite, todo fã adora reclamar. É o jeito que nós arrumamos de ser mais consumidor que o resto.

Com certeza não é um filme quatro estrelas, nem de longe um cinco estrelas. Uma seria maldade. Mas na dúvida entre duas e três uma piada tão boa quanto “Volta para o lance do Zé Ramalho” tirou todas as minhas duvidas. Ser a única no cinema inteiro a rir vendo Malcolm “Mal” Reynolds, (Nathan Fillion, o Deus Hermes) Capitão da nave Serenity dizer “era uma série muito boa para ser cancelada” com certeza valeu a terceira estrela.

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Queria poder dizer “Até a Maldição do Titã”. Mas também não estou muito certa disso.


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