Crítica O Jogo da Imitação

A fantástica, e triste, história de Alan Turing com a ótima atuação de Benedict Cumberbatch

Eder Augusto de Barros
edaummm

  quinta-feira, 05 de fevereiro de 2015

O norueguês Morten Tyldum consegue em sua primeira aventura no cinema Hollywoodiano (ainda que O Jogo da Imitação seja mais britânico que qualquer coisa) emplacar 8 indicações ao Oscar com uma história bem difícil de ser contada sobre uma das pessoas mais importantes e injustiçadas da nossa era.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho. Alan tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas.

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O principal trunfo de O Jogo da Imitação é o ritmo imposto pelo roteiro, cada tema abordado durante o filme tem seu tempo, e o itinerário foi minuciosamente construído para que as peças se encaixem no final. O longa aborta três fases da vida de Turing, a adolescência em pequenos fragmentos conforme a história vai evoluindo, o trabalho dele durante a Segunda Guerra Mundial para conseguir quebrar o Enigma, e o interrogatório que vai culminar em sua condenação, divido em fragmentos, também ao logo do filme.

Tyldum não usa a homossexualidade de Alan como uma vitimização do personagem, o brilhantismo e a personalidade forte de Turing é que são o centro da trama. E o diretor acerta mais ainda quando mostra em seus flashbacks, a capacidade de Alan de esconder sua homossexualidade, escondendo inclusive do público (pelo menos os que não conheciam a história) e o quão isso foi importante para que sua missão de quebrar o Enigma fosse bem sucedida. O sucesso de Tyldum está em arquitetar tudo o que Alan Turing foi capaz de fazer e como ele o conseguiu fazer, as milhares de milhares de vidas que ele poupou com seu trabalho, e como a humanidade é desprezível pelas razões mais absurdas possíveis. Um herói de guerra reduzido à uma castração química seguida de suicídio por ser homossexual. É uma mensagem bem entregue, para alguns até um soco no estômago, sem precisar vitimizar seu personagem central, e muito menos sem ser didático ao extremo.

benedictAlgo que o longa não consegue ser é marcante, mesmo que a história de Alan Turing seja fantástica. O Jogo da Imitação não é aquele filme que vai nós fazer lembrar de momentos, frases, trilhas ou bater aquela vontade de assisti-lo novamente. Não é como Birdman e Whiplash, ambos adversários na disputa pelo careca pelado de Melhor Filme. E por quê eu digo isso? Porque o trabalho de Tyldum, como eu já disse antes, é minuciosamente construído (e eu poderia dizer calculado, pa dum tsss!) para estar onde está nessa disputa. O filme ganha forma com vários clichês premiáveis e frases dramáticas que levam às lágrimas o público. É ambientado na Segunda Guerra Mundial, sobre um cara problemático, uma história real, de superação, com um drama de plano de fundo. É aquele tipo de filme que você já viu, várias vezes. Isso é um problema? Definitivamente não. É um trabalho bem feito, porém pouco ousado.

Benedict Cumberbatch, que quase sempre viveu personagens fortes e com grande imponência em cena, consegue magistralmente dar vida à um sujeito que poderia ser tudo, menos imponente. Alan é um personagem calado, concentrado, introvertido. Se traçarmos um paralelo entre o seu Sherlock Holmes e Alan Turing conseguimos perceber a grade mudança em sua atuação. Keira Knightley, que já esteve ótima em Mesmo se Nada der Certo, consegue a atuação mais memorável, até o momento, de uma carreira de altos e baixo. A sua personagem é a única mulher do elenco principal, e a grande incentivadora de Alan, ela incendeia o personagem, e o motiva até o fim de sua jornada. Mark Strong, Charles Dance e Matthew Goode, apesar de estarem em papeis estereotipados e mecanicamente colocados para impulsionar determinados momentos da trama, conseguem entregá-los com honestidade.

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Esse é O Jogo da Imitação, ótimas atuações, uma história fascinante sobre um cara que mudou a história da humanidade, mas infelizmente não obteve seu reconhecimento devido em vida. Foi humilhado e reduzido a escolha de ser preso ou sofrer uma castração química. O filme se equilibra em fatores que criam filmes vencedores e passeia por alguns clichês, mas não deixa de ser um grande filme.

Tyldum não inventa, e entrega uma bela história com excelentes atuações

TL;DR

Esse é O Jogo da Imitação, ótimas atuações, uma história fascinante sobre um cara que mudou a história da humanidade, mas infelizmente não obteve seu reconhecimento devido em vida. Foi humilhado e reduzido a escolha de ser preso ou sofrer uma castração química. O filme se equilibra em fatores que criam filmes vencedores e passeia por alguns clichês, mas não deixa de ser um grande filme. The Imitation Game Reino Unido/EUA – 2014 Biografia - Drama - Thriller - Guerra 114 min. Direção: Morten Tyldum Roteiro: Graham Moore e Andrew Hodges (livro) Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong, Allen Leech, Rory Kinnear e James Northcote
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