Crítica O Destino de Júpiter

Filme reúne bons ingredientes, mas sua mistura fica incompleta

Leandro de Barros

  sexta-feira, 06 de fevereiro de 2015

Os Wachowski estão entre os mais criativos diretores a trabalhar em Hollywood no momento e, ao mesmo tempo, estão entre os mais criticados.

Criadores da Trilogia Matrix (essa, por sua vez, tem 2/3 de si amplamente mal-compreendidos pelo público), os Wachowski não entregaram um único trabalho desde então que não tenha sido recebido com certa controvérsia: Speed Racer, em 2008, teve um dos melhores testes da história da Warner, mas estreou com um dos piores fins de semana de estreia do estúdio; A Viagem, de 2012, foi aplaudido em diversos festivais e chamado de pretensioso em outros tantos.

Diante dessa controvérsia, eu sempre estive no #TeamWachowski e sempre gostei dos trabalhos deles – mesmo os filmes em que eles são produtores e não diretores, como V de Vingança ou Ninja Assassino.

Agora, o casal de irmãos entrega O Destino de Júpiter, depois do filme ter sido adiado no ano passado para finalizar seus efeitos especiais, e pela primeira vez me sinto na posição de efetivamente ter saído do cinema um pouco desapontado com o trabalho da dupla.

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Na trama de O Destino de Júpiter, nós acompanhamos a jovem Júpiter Jones (Mila Kunis), um jovem de origem russa que trabalha com a família como faxineira na cidade de Chicago. A vida dela muda quando aliens tentam matá-la, mas são impedidos por Caine Wise (Channing Tatum), um mercenário espacial contratado para protegê-la.

A primeira coisa a ser dita sobre O Destino de Júpiter é que o filme tem muita (MUITA!) ação exagerada e plástica. Muita mesmo – é difícil uma cena do filme que, em algum momento, não envolva uma perseguição aérea ou uma troca de tiros de plasma.

A segunda coisa a se dizer sobre O Destino de Júpiter é que se trata de um projeto de gênero e que os Wachowski mergulham de cabeça nisso, trazendo o que seria uma história de um livro de space opera barato produzido com milhões e milhões de dólares. O resultado fica uma coisa meio cheesy (que, na falta de uma tradução melhorzinha, dá pra explicar como ‘brega’), mas não num sentido prejorativo: coisas como o fato de um dos seus protagonistas ser uma mescla de um humano com o DNA de um canino, resultando num guerreiro meio-albino com patins flutuadores, FAZEM parte do valor do longa. Essa abordagem exagerada compõe o estilo do filme, que vai na contra–mão de Hollywood no momento, interessada em explicações e verossimilhança em excesso – vide filmes como O Homem de Aço ou o vindouro reboot do Quarteto Fantástico.

Uma terceira coisa a se dizer sobre O Destino de Júpiter é que, assim como as outras criações dos Wachowski, nós não estamos falando de um filme vazio. O longa usa dos seus simbolismo, metáforas e recursos de gênero para construir uma discussão sobre o valor de uma vida – e, mais especificamente, um comentário sobre como o capitalismo tem a capacidade de desumanizar e avaliar vidas humanas em números, valores e poder.

Uma quarta coisa do longa, também característica dos seus diretores, é o bom uso dos seus valores de produção. O Destino de Júpiter possui cenários muito lindo, que compõem cenas de encher os olhos – algumas delas são em CGI, outras são com efeitos práticos (eles efetivamente colocaram pessoas no céu em Chicago pra filmar uma das cenas de ação do longa). Como a trama do filme envolve rejuvenescimento, alguns atores aparecem em certas cenas com uma idade avançada e mais jovens em outras – a maquiagem utilizada para atingir esse efeito de envelhecimento é excelente. Os figurinos do filme, especialmente os usados por Mila Kunis em diversos momentos (com destaque para o vestido que ela usa num jantar), são muito belos também.

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Então, se o filme tem todos esses ingredientes tão legais, por que eu fiquei decepcionado com O Destino de Júpiter? Foi essa pergunta que eu fiz para mim mesmo depois de sair do cinema. Eu comecei então a listar as coisas que me desagradaram no longa e percebi que, apesar de tudo, O Destino de Júpiter é mal-montado.

SFX - August 2014Seu ritmo é bastante oscilante e não consegue colocar o espectador a bordo da história de maneira satisfatória, deixando momentos de ação longos demais, momentos de ligação entre o espectador e os personagens curtos demais.

Esse é, talvez, o principal defeito do longa: não dá para investir nessa história – apenas apreciá-la de longe. Júpiter não é uma personagem interessante o suficiente; Caine até que é, mas não tem exploração o suficiente. Juntos, eles formam um par muito sem personalidade em cena – mesmo que Mila Kunis e Channing Tatum não sejam atores ruins.

Mais à vontade em cena está Eddie Redmayne, favorito ao Oscar de Melhor Ator esse ano por A Teoria de Tudo. O ator interpreta o vilão Balem e parece se libertar em cena, compondo um personagem teatral (de novo, combinando com a postura do filme), sendo o personagem de maior profundidade na tela.

Assim, O Destino de Júpiter parece um projeto mal-executado, repleto de bons ingredientes e boas ideias, mas que não consegue criar liga com o que tem em mãos.


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