Crítica O Abutre

A estreia de Dan Gilroy na direção funciona pelo misto entre belíssimas atuações e uma crítica afiada ao jornalismo "carniceiro".

Pedro Luiz

  quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Abutre. Ave de rapina de grande envergadura. Necrófago. Astuto e paciente. Aguarda a captura e execução de um possível alimento, aproveitando-se dos restos deixados por um predador já saciado. Não importa se os restos deixados estão podres, em decomposição ou recentes. Para um abutre, o banquete está servido. Diante de casos como esse, o reino animal, muitas vezes, parece absurdo demais. Cruel demais. Bizarro demais. Entretanto, se colocadas em perspectiva, vemos que as práticas humanas se assemelham (e muito!) a algumas das bizarrices do mundo animal. A começar por essa ave incompreendida, que é encarnada – por falta de palavra melhor – todos os dias, nos mais diversos horários e nas mais diversas emissoras de TV, estações de rádio e redações de jornais.

O espetáculo da carne é o tema de O Abutre (Nightcrawler, EUA, 2014).

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Quantos aqui já não viram um programa jornalístico que sente prazer em mostrar fatalidades e desgraças em geral? A TV brasileira está cheia desses exemplos, e é por isso que a identificação acontece de imediato. Não basta somente reportar uma fatalidade. É necessário que o espectador tenha no conforto do seu lar as nuances físicas do ocorrido e, se disponível, em altíssima definição.

Com uma câmera na mão, o desempregado e desajustado Lou Bloom (Gyllenhaal) adentra as noites de Los Angeles em busca de cenários sangrentos em geral. Serve um assalto violento, uma briga, uma batida de carros com vítimas fatais… O que puder chocar qualquer ser humano coeso e racional, vale. Os registros, que serviriam muito bem para encher uma página de malucos na deep web, são levados até uma emissora de TV, e lá são comprados por valores tão absurdos quanto seu conteúdo. Ao lado da editora chefe do jornal matinal (Rene Russo), Lou começa a ganhar notoriedade, até que decide ir além.

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Não bastasse a crítica ferrenha ao estilo nojento – sim, nojento – de algumas práticas jornalísticas dos dias atuais, em que o sangue e a morte são verdadeiros espetáculos a serem cultuados, o filme ainda consegue apresentar e desenvolver um personagem de extrema complexidade. Jake Gyllenhaal, que já havia feito o excelente Enemy de Villeneuve, apresenta evidências irrefutáveis de talento, coroando um ano absolutamente positivo para sua carreira. Seu Lou Bloom é um sociopata, e a serenidade com que conversa e demonstra facilidade na aprendizagem é tão aterrorizante quanto os vídeos que grava. Surtado. Gyllenhaal está surtado.

Ao seu lado na trama está a personagem de Rene Russo, uma editora-chefe de tele-jornal matinal, disposta a transmitir qualquer lixo para manter sua posição. Igualmente complexa, Russo destrói como a profissional de meia idade com a iminente aposentadoria – forçada, muitas vezes, pela própria dinâmica desse mercado absurdo.

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A realidade próxima construída pelo roteiro é também notada na crueza com que os quadros são compostos. Com exceção, somente, pelas cenas em que Lou está fazendo seus “voos rasantes em direção ao alimento recém dilacerado”, no caso, filmando em close-ups absurdos os corpos ensanguentados. Em uma cena específica – peça chave para a construção do personagem – o nosso abutre rodeia o alimento com sua câmera. Graciosamente, filma ao mesmo tempo que encara aquilo que ninguém deveria ver.

O Abutre é atual, poderoso e repugnante.

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O Abutre concorre na categoria de melhor roteiro original no Academy Awards 2015.

A representação quase documental de um fenômeno repugnante do jornalismo atual, identificável, inclusive, no Brasil.

Nightcrawler EUA, 2014, 117 min Direção Dan Gilroy Roteiro Dan Gilroy Elenco Jake Gyllenhaal, Rene Russo e outros
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