Crítica Jobs

Ashton Kutcher desinspirado, um roteiro manco, e a liberdade poética que reinou.

Eder Augusto de Barros
edaummm

  quinta-feira, 05 de setembro de 2013

No dia 5 de Outubro de 2011 falecia o homem responsável por muitas mudanças de cultura, comportamento e, sobretudo, mercadológicas do nosso tempo: Steve Jobs.

Steve Wozniak e Steve Jobs

Infelizmente a corrida por conseguir “fazer algo” sobre a vida do então ex-CEO e fundador da Apple foi grande. Tivemos documentários, livros, e até mangá. Porém o projeto que ganhou mais atenção da mídia foi Jobs, de Joshua Michael Stern (O Segredo de Neverwas), onde Ashton Kutcher viveria Steve Jobs da juventude até os anos de glória do empresário.

O filme aborda Steve desde o período da Universidade, na Reed College. Sua namorada da época. Seus amigos. A viagem à Índia. O trabalho na Atari, e o relacionamento com Steve Wozniak. A “invenção” do computador pessoal. A fundação da Apple, sua visão mercadológica, seus impulsos e relação com funcionários e investidores. A saída e a volta para a Apple.

Numa primeira olhada, o roteiro de Jobs é interessante para quem desconhece a história de Steve. É bem concebido, tem um bom começo, e bastante informação no meio. O fim entretanto já não é tão harmonioso com o resto do longa. A busca por não retratar o fundador da Apple como um “ser-supremo” fez até com que sua personalidade arrogante ficasse mais em evidência. Falando em personalidade, o visionarismo exagerado mostrado no longa incomoda um pouco também, principalmente quando a liberdade poética entra em ação.

Mike Markkula e John Sculley

Porém, para quem conhece um pouco a história de Steve Jobs a frente da Apple, nota-se muito o uso exagerado dessa liberdade poética, mudando muitos fatos centrais da história real. Muita coisa que poderia entrar ficou de fora. E por “poderia”, eu digo “deveria”. Por exemplo: o caso onde Steve Jobs ter declaradamente “roubado” a ideia de um sistema operacional voltado para a orientação de objetos com interface gráfica da Xerox e a história de que Bill Gates também teria “roubado” a mesma ideia enquanto prestava serviços à Apple confeccionando softwares com a Microsoft. Nada disso é muito bem explicado no filme. O que para os mais inteirados do assunto faz com que Jobs pareça uma Rede Social sem sustância, sem alicerces.

A volta de Steve para a Apple também fica em dívida por falta de veracidade. A impressão passada é que o fato de Jobs estar de volta é a resolução de todos os problemas e não foi bem assim que aconteceu. Tem a história do “acordo de paz” com Bill Gates durante a MacWorld de 1997, onde a Apple (ou Jobs, não sei ao certo) retirava todos os processos de propriedade intelectual contra Bill Gates em troca de um recheado cheque de 150 milhões de doláres, que dão sangue novo à maçã.

Outra parte pouco explorada, e que na minha modesta opinião fez muita falta, foi o desenvolvimento do iPod, já que o dispositivo sim teve mais envolvimento direto de Jobs, e mudou não só a tecnologia como a industria fonográfica e cinematográfica, e a distribuição de conteúdo.

Assisti a Jobs hoje à noite. Achei que as atuações são boas. O filme me prendeu e divertiu, mas não o bastante para recomendar o filme. Suspeito que muito do que há de errado no filme veio da própria visão que Ashton tem de Jobs. – Steve Wozniak

Jobs

Eu nem deveria comprar Jobs com A Rede Social de David Fincher pois é injusto, o primeiro não tem nem metade do calibre do segundo, começando pelas pessoas envolvidas e terminando com a falta de paixão pelo filme. Em A Rede Social, mesmo sendo uma retratação dos fatos de pessoas que estão brigando em tribunal por um pedaço daquele sucesso, o filme tem paixão. As situações mostradas desde a concepção de Zuckerberg até a conclusão do projeto do Facebook te inspiram. Não tem como não ver o filme e se sentir indiferente aquilo tudo.

Já Jobs não consegue fazer isso, não tem paixão, não tem inspiração. Nem o próprio Ashton Kutcher estava inspirado e nos entregou um Steve Jobs sem motivações. Sem vontade. Toda sua semelhança física com o fundador da Apple não foi suficiente para nos convencer que ele poderia segurar o papel de um dos homens mais influentes do nosso tempo, que tem uma personalidade forte, e passava por cima de qualquer um ou qualquer coisa para concluir seus objetivos.

Ainda comparando as duas obras, o ritmo não-linear de A Rede Social beneficiou muito o longa de Fincher, te dando sempre duas visões a cada trecho da história contada, e as vezes poupando de se mostrar uma informação sendo criada e apenas jogando para o espectador durante um diálogo na audiência. Faltou um recurso desse em Jobs, como falei pouco antes, muita coisa foi mal contada, ou ficou de fora. Se o roteiro usasse um encurtador de informações para reduzir o tempo sem deixar de passar dados importantes o resultado poderia ter sido mais satisfatório e não necessitaria tanto dos ajustes da liberdade poética. Mesmo o filme sendo longo, mais de 2 horas, a história de Steve Jobs ficou incompleta.

Jobs na sede da Apple

Bom, se tem alguma coisa que deve ser lembrada em Jobs é a trilha sonora com REO Speedwagon e Bob Dylan. Dá um charme para os mais saudosistas e encaixa bem ao contexto da época e até do gosto pro próprio Steve, que já sinalizou ser fã de Dylan e inclusive já usou frases do cantor em suas apresentações.

Jobs é um filme bom, sem graves problemas, só peca ao não contar a história como ela é. Vale ser visto mas está longe de ser o filme definitivo sobre Steve Jobs. Depois de ver o filme eu recomendaria assistir ao documentário Steve Jobs – Como ele mudou o Mundo que está disponível no catálogo nacional do Netflix.


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