Crítica Ida

O filme de Pawel Pawlikowski é belo, técnico e relevante. No papel da noviça Ida, Agata Trzebuchowska faz sua belíssima estreia.

Pedro Luiz

  domingo, 25 de janeiro de 2015

Em nossas escolas, pouco se ensina a respeito da situação de alguns países europeus após a segunda guerra mundial. Países que sofreram invasões nazistas e tiveram boa parte de sua população dizimada, como é o caso da Polônia, lar dos maiores e mais cruéis campos de concentração impostos pelo terceiro Reich. É comum, portanto, nos limitarmos às produções culturais que retratam esse período. Por sorte, o cinema polonês se mostra presente e relevante, e Ida (idem, 2013) é um bom exemplo do mix entre o bom uso do plano de fundo histórico e uma narrativa tipicamente europeia.

Ida 2

Sabe-se que todo e qualquer judeu encontrado pela Alemanha Nazista naquela área durante o breve período que antecedeu a Segunda Grande guerra era capturado, torturado e morto. E o legado dessas pessoas, retiradas à força de suas casas, fora substituído. Na Polônia stalinista e ferida do início dos anos 60, notamos com clareza esse fenômeno, e somos convidados a conhecer Anna, uma noviça. Antes de professar os votos que a tornariam freira, Anna deixa o convento para conhecer Wanda, sua única familiar viva. Juíza, alcoólatra e tia de Anna, Wanda revela à sobrinha que seu nome verdadeiro é Ida e que ela havia nascido judia. A partir disso, as duas partem em busca da história dos pais de Ida, que haviam se escondido e sucumbido às investidas nazistas.

Temos aqui um flerte com o filme-estrada, e, como bom representante do leste europeu, o conflito não é exatamente definido. Na busca pelas informações a respeito de seus pais, Ida se confronta com Wanda, um exato oposto. De um lado a casta noviça, do outro, a carnal e beberrona mulher da cidade. Ambas anseiam por respostas sobre elas mesmas. Wanda não aparenta sentir mais prazer em ser útil. Ida experimenta a vida do lado de fora do convento, e parece buscar mais do que versículos e capítulos num livro. A câmera excessivamente parada contempla duas personagens em constante inquietação.

Ida 1

A personagem de Ida é interpretada pela talentosa Agata Trzebuchowska, que faz aqui a sua estreia no cinema. Seus semblantes hora blasé, hora incomodada seguram a personalidade de uma noviça que não tem alternativas ou perspectivas diferentes da continuidade de sua fé no convento. Já Wanda é interpretada pela também bela e talentosa Agata Kulesza, mais experiente em idade e carreira. Rouba a cena durante seus atos de inconsequência.

Os planos predominantemente estáticos atrelados ao preto e branco adotado tornam o contexto ainda mais complexo. Os quadros com um enorme vazio colocam as personagens em cantos ou cortadas, incluindo algo grande e invisível ali junto delas, as oprimindo. Fugindo do debate político, o filme aborda a questão da Polônia sessentista dessa forma. E quando Ida finalmente encontra alguma resposta, a câmera se mexe. E ela agora está inquieta.

Ida, other films

Com delicadeza, o diretor Pawel Pawlikowski (de Estranha Obsessão) nos leva a um país de feridas não cicatrizadas e, na companhia de seus fotógrafos (Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal), executa um trabalho sensacional na concepção dos belíssimos quadros.

Ida é belo, técnico e relevante.

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Ida é o representante polonês na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira no Academy Awards 2015.

A busca de si mesmo em uma Polônia pós Segunda Guerra Mundial. Em cada quadro, personagens de carne e osso e um legado. Este último, de forma invisível, mas palpável.

TL;DR

Com delicadeza, o diretor Pawel Pawlikowski (de Estranha Obsessão) nos leva a um país de feridas não cicatrizadas e, na companhia de seus fotógrafos (Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal), executa um trabalho sensacional na concepção dos belíssimos quadros. Ida é belo, técnico e relevante. Ida Polônia, Dinamarca, França e Reino Unido, 2013, 82 min. Direção Pawel Pawlikowski Roteiro Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz Elenco Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik e outros.
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