Crítica Guardiões da Galáxia

O novo filme da Casa das Ideias reacende o espírito irreverente e divertido dos quadrinhos - e prepara o terreno para Vingadores 3.

Pedro Luiz

  sexta-feira, 01 de agosto de 2014

Sinto-me pisando em solo sagrado. Se não sagrado, pantanoso, traiçoeiro. Ir ao cinema para mais uma aventura da House of Ideas sem ter qualquer conhecimento prévio daquele universo ou de seus personagens, e incumbir-me a missão de escrever sobre, é algo realmente assustador. O fanatismo de uns, aliado à preguiça de tentar entender um ponto de vista diferente do próprio tornam a tarefa ainda mais complicada. Por sorte, o filme da vez é extremamente agradável – e espero que a repercussão sobre este texto sem qualquer teor fanático também seja para você, fã.

Passados os disclaimers, vamos ao texto.

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Tornamo-nos questionadores. E quando escrevo ‘’nós’’, me refiro ao público que bateu palmas para filmes como os três Batmans de Nolan, para as versões realistas de Capitão América e outros que, através do mínimo de surrealismo, construíram suas narrativas. A realidade tornou-se pré-requisito para uma adaptação cinematográfica das histórias em quadrinhos. A própria indústria acostumou o espectador a questionar a verossimilhança desse ou daquele fato, ou da possibilidade real dessa ou daquela cena. Passamos a questionar demais do ‘’porque?’’, sem antes cogitar o ‘’porque não?’’. Ao assistir Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014), esse debate se reacendeu de forma muito positiva.
Absolutamente descompromissado, o mais novo filme da Marvel Studios é um resgate ao significado inicial dos quadrinhos: Comic Book.

Na história, Peter Quill (Chris Pratt) é um ladrão por encomenda, ‘’recrutado’’ da Terra ainda criança, logo após o falecimento de sua mãe. O que parecia ser um dia normal de ‘’trabalho’’, acabou envolvendo-o em uma aventura de nível intergaláctico: um orbe contendo a Joia do Infinito interessa grandes colecionadores, grandes saqueadores e, claro, grandes vilões. O da vez é Ronan (Lee Pace), que precisa reaver o artefato para seu mestre, Thanos (Josh Brolin). Numa confusão que mais parece um esquete dos Trapalhões – com um pouco mais de violência, admito -, os desajeitados Rocket (voz de Bradley Cooper) e Groot (voz de Vin Diesel) conhecem Peter e Gamora (Zoe Saldana), subordinada de Ronan. Todos acabam presos. Na prisão, o grupo conhece Drax (Dave Bautista), e juntos arquitetam a fuga e a venda do tal orbe a um colecionador.

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A estrutura é conhecidíssima. O grupo tem inúmeras desavenças entre si, cada um, a princípio, trabalha sob o próprio conceito. Mas o objetivo em comum os une, e assim nasce a parceria. As particularidades de cada um, como de costume, ‘’seguram’’ o grupo. Temos aqui um Guaxinim, Rocket, de inteligência incomum até para um humano – e extremamente engraçado. Seu amigo, Groot, é uma espécie de árvore humanoide que carrega a sensibilidade de uma criança e a lealdade de um cão de guarda. Groot representa o famoso Boneco de Lata; o ser que sente – ou que queria sentir -, ao contrário da aparência ou da limitação física. É o personagem que mais me agradou, apesar do clichê.  Curioso é ver que ele só pronuncia três palavras: ‘’I’’, ‘’am’’ e ‘’Groot’’.
Drax, personagem da força bruta, é um colosso que entende tudo de forma literal. Metáforas não são seu forte e expressões terráqueas o confundem. Ele rende boas risadas.
Os principais aqui são Peter Quill e Gamora. Peter é assumidamente o líder, e consegue manter-se na posição sem se esforçar. Palhaço e mulherengo, o terráqueo diverte pelo cinismo e referências oitentistas. Por outro lado, a filha de Thanos, Gamora, é a que menos representa algo na equipe. Na trama, temos a impressão de que ela só está ali porque conhece as nuances do inimigo – ou porque despertou a paixão de algum outro personagem. Olhando o quadro geral da equipe, todos os personagens parecem ter sua leve (veja bem, disse LEVE) profundidade. Gamora, por sua vez, foi mal concebida. E essa frase poderia ser mal interpretada por Drax.

Um ponto extremamente fraco é o vilão Ronan. Unidimensional, sem motivação para as ações praticadas e, em alguns momentos, canastrão. A impressão que fica é que a Marvel precisava de um degrau a mais para chegar ao grande Thanos, que aparece aqui em duas ou três cenas. E como introdução ao universo – literalmente – de Guardiões da Galáxia, o vilão serve para mostrar que existem personagens muito mais poderosos. É uma pena que esses só surgirão de forma posterior.

A grande sacada, porém, fica por conta da retomada ao descompromisso. E notamos isso a partir dos personagens (uma árvore e um guaxinim), passando pelo design de produção extremamente colorido, vivo e alegre, pela fotografia ‘’viva’’ – diferente das paletas de cores neutras dos filmes pseudo realistas da Marvel -, e, claro, pelo humor excessivamente simples e pastel que a muito não vemos. Divertir é o objetivo principal, sem que haja um arcabouço dramático gigantesco ou questões filosóficas primordiais.

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Um fato curioso que pude notar é o ponto de interseção deste filme com a série Star Trek. Andar nas ruas de um planeta desconhecido, ver figuras humanoides pintadas – sim, pintadas – de azul, de verde, de laranja… Em determinados momentos, a maquiagem dos atores soava extremamente artificial, como se tudo aquilo fosse um algo sarcástico, uma espécie de paródia. O vilão Ronan é o que mais sofre com isso.
A linha tênue que se criou entre o fabulesco e a galhofada é extremamente curiosa. Mais curioso ainda é ver que é possível se divertir dessa forma.

Disposto a pegar a realidade, amarrá-la num foguete e jogá-la no espaço, Guardiões da Galáxia dá um novo sentido aos filmes de quadrinhos. Se a Marvel resolveu se arriscar colocando dinheiro em algo potencialmente desfavorável e em um grupo aparentemente desconhecido, ela se saiu melhor do que o encomendado – porque sim, o dinheiro virá. Estou curioso para ler mais a respeito. Alguém aí tem bons arcos para me indicar?

 

O ato de tirar os pés do chão - literalmente ou não - ainda pode render em Hollywood. E os guardiões da Marvel estão aí para provar.

TL;DR

Disposto a ir contra o ''movimento'' realista das últimas adaptações de quadrinhos, Guardiões da Galáxia oferece uma alternativa. Guardians of the Galaxy EUA , 2014 121 minutos Aventura Direção: James Gunn Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman Elenco: Chris Pratt, Zoë Saldana, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Dave Bautista
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