Crítica Godzilla

Referenciando o clássico Godzilla e os tokusatsus japoneses, a releitura de Gareth Edwards tem saldo positivo.

Eder Augusto de Barros
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  sexta-feira, 16 de maio de 2014

O jovem diretor Gareth Edwards surgiu para o cenário Hollywoodiano em 2010 com seu filme independente Monsters, onde atua como diretor, roteirista, diretor de fotografia, faz os efeitos especiais e parece que fazia o café também. O filme tinha um orçamento de menos de 1 milhão de dólares e ainda assim Gareth conseguiu fazer um bom trabalho que lhe rendeu uma indicação ao BAFTA como Melhor Estréia de Roteirista, Diretor ou Produtor. Em 2014 o diretor tem 160 milhões de dólares de orçamento e a difícil missão de fazer mais uma (de muitas) releituras do clássico de 1954 e ainda ter no seu encalço o recém-lançado Círculo de Fogo para rivalizar entre os filmes de “monstros gigantes”. Edwards consegue cumprir bem a tarefa e nos entregar um filme com um enredo consistente e sem muitos deslizes.

Nesse novo Godzilla, Joe Brody (Bryan Cranston) teve de criar o seu filho sozinho após a morte de sua esposa (Juliette Binoche) em um acidente na usina nuclear de Janjira onde os dois trabalhavam, no Japão. Joe nunca aceitou o acidente que matou a esposa e mesmo após 15 anos de sua morte ele continua remoendo o que aconteceu e tentando encontrar uma explicação. Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), agora adulto, é um tenente do exército americano e vai precisar lutar com todas as suas forças para salvar a população mundial – especialmente sua família – do gigantesco monstro Godzilla.

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Se Círculo de Fogo é uma homenagem aos monstros gigantes japoneses, em especial o Godzilla que foi pioneiro no gênero, eu não sei bem o que dizer desta releitura do Gareth. Na primeira cena do longa já fica claro que o filme será um grande tributo ao Rei dos Monstros quando o pequeno Ford brinca em seu quarto e ao fundo temos um pôster do Godzilla lutando contra outro monstro, numa arte clássica da terra do sol nascente (exemplo).

godzilla2014-textless-posterO enredo desse Godzilla consegue misturar bem elementos novos e ligar tudo com ideias da versão original, onde testes atômicos no Oceano Pacífico despertaram o monstro. Consegue passar a mensagem de que o Homem tende a brincar com coisas perigosas sem saber realmente a gravidade da situação e ao mesmo tempo consegue homenagear os clássicos tokusatsus com batalhas entre monstros gigantes. E a história parece bem construída ao longo dos 15 anos que o filme retrata, desde o acidente em Janjira até a aparição do Godzilla, e essa demora para o Rei dos Monstros dar as caras acaba gerando uma expectativa interessante no público. E esse exito acontece graças a introdução de alguns personagens para passar os fatos aos espectadores. O Dr. Ichiro Serizawa vivido por Ken Watanabe por exemplo é a voz do diretor dentro do filme, ele está ali apenas para explicar certas situações que aconteceram no passado e depois no presente e ligar tudo, e mesmo o personagem não sendo de grande importância para a trama, acaba sendo importante para a narrativa. Eu diria até que ele é um agente articulador que acaba passando informações e movendo as peças necessárias para o desenrolar de tudo, mesmo que o seu personagem futuramente não seja lembrado ou marcado como herói ou vilão do filme, e sim apenas um coadjuvante.

Porém, nem só de acertos vive esse novo Godzilla. O principal problema do filme é o pouco tempo de tela do monstrão. Explico: como eu disse no parágrafo anterior, a presença do astro principal é cozinhada em banho-maria durante uma boa parte do filme e só somos contemplados com a sua presença com mais de 60 minutos de projeção. Mas até aí tudo bem, a expectativa gerada é boa para o andamento do filme e condiz com o enredo. Quando o Rei dos Monstros finalmente dá as caras é tudo muito bonito, bem feito, respeitando o visual clássico, mas a atenção da câmera continua na jornada de Ford Brody e esquece a estrela do filme. A maioria das cenas (não todas, que fique claro) do Godzilla são interrompidas por cortes bruscos para nos mostrar onde estão os outros personagens, ou então vemos um momento de destruição a partir de uma televisão dentro de um hospital, coisas desse tipo.  Faltou esquecer os outros personagens e focar no cara que carrega o nome do filme e nos deixar ver direito do que ele é capaz. Faltou Godzilla no filme do Godzilla, mesmo o Godzilla sendo decisivo para o filme do Godzilla. Deu pra entender?

A arrogância do homem é pensar que a natureza está sob seu comando. Dr. Serizawa

O lado técnico da produção é excelente. A trilha sonora de Alexandre Desplat marca a tensão e expectativa na primeira metade do filme e na parte final da o ritmo da ação necessária, e como bônus, temos uma cena do Godzilla na Chinatown de São Francisco onde Desplat vai além do básico e usa ritmos orientais que ajuda a compor uma cena visualmente (e auditivamente) sensacional com Rei dos Monstros caminhando pelo bairro coberto e uma fumaça densa com luzes avermelhadas, semelhante ao visual dos pôsteres do filme.

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Sobre o monstro em si: visual muito fiel ao original, o rugido que era um marco do personagem também foi re-criado em cima do original que é característico por não ser parecido com nenhum outro animal. Gareth Edwards trabalhou todos os detalhes dos efeitos especiais em seu primeiro longa-metragem, Monsters, e mostra que entende do quesito. Percebe-se que o novo Godzilla tem a mão de quem entende como são feitos os efeitos especiais e sabe as melhores maneiras de retratar uma cena e fugir das armadilhas que tornam o CGI falso. Essa noção de Gareth contribui para excelentes efeitos visuais. Já o 3D é totalmente dispensável e serve apenas para profundidade o que é uma pena, monstros gigantes em 3D até que são maneiros segundo Guillermo Del Toro.

Bryan Cranston, que não teve muita sorte em O Vingador do Futuro, tem aqui um bom papel e consegue entregar uma atuação segura dentro do que já conhecemos de Breaking Bad, o papel até deixa Bryan brincar um pouco mais além do que apenas diálogos insossos, mas não tem aquele grande momento para o ator brilhar. Aaron Taylor-Johnson, que eu gostei muito em O Garoto de Liverpool, vem mostrado cada vez mais que é apenas um ator regular. Teve em Kick-Ass o seu melhor momento até agora (mas eu prefiro O Garoto de Liverpool) e depois apenas entregou papéis regulares. O Ford Brody vivido por ele é provavelmente o personagem com mais tempo de tela durante o filme e falta carisma ao ator para fazer o público simpatizar com sua jornada e esquecer que o Godzilla aparece pouco na tela, deixando evidente o principal problema do filme que já comentamos anteriormente. Ken Watanabe como já falei no início, vive um personagem que representa a voz do diretor dentro do filme, não exigido muito do ator, mas o personagem acaba sendo importante para o desenvolvimento da trama. Elizabeth Olsen é uma coadjuvante de luxo com menos tempo de tela que o Godzilla.

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Esse é Godzilla, uma boa releitura do Rei dos Monstros, técnica de topo, mas que erra em seus personagens, dividindo mal a importância deles pelo tempo de filme, deixando os menos carismáticos para fazer a maior parte do trabalho e o astro da franquia mal dosado ao longo de duas horas de projeção. Fuja do 3D, dica de amigo.

Gojiraaaa!

TL;DR

Godzilla é uma boa releitura do Rei dos Monstros, técnica de topo, mas que erra em seus personagens, dividindo mal a importância deles pelo tempo de filme, deixando os menos carismáticos para fazer a maior parte do trabalho e o astro da franquia mal dosado ao longo de duas horas de projeção. Fuja do 3D, dica de amigo. Godzilla Estados Unidos/Japão – 2014 Ação | Aventura | Sci-Fi 123 min. Direção: Gareth Edwards Roteiro: Max Borenstein e Dave Callaham Elenco: Bryan Cranston, Ken Watanabe, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Sally Hawkins, Juliette Binoche e David Strathairn
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