Crítica Garota Exemplar

Filme traz discussão sobre relações humanas, grandes atuações e uma direção primorosa

Leandro de Barros

  sexta-feira, 03 de outubro de 2014

A adaptação cinematográfica de Garota Exemplar, livro escrito por Gillian Flynn (que assina o roteiro do filme), estreou nessa semana nos cinemas nacionais desse glorioso país chamado Brasil.

O longa-metragem dirigido por David Fincher, o mestre por trás de obras como O Curioso Caso de Benjamin Button, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres e A Rede Social, e estrelado por Ben Affleck e Rosamund Pike tem dado o que falar na crítica internacional e vem sendo cotado como um favorito para a “temporada dos prêmios” que se aproxima.

Mas será que todo esse barulho é justificado?

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Sim, é.

Ok, por hoje é só, até a próxima pessoal! Um abraço.

Hm, quê? Eu tenho de escrever mais? Ok, vamos lá.

Em Garota Exemplar, a gente acompanha o caso do desaparecimento de Amy Dunne (Pike). No dia do seu 5º aniversário de casamento, seu marido Nick (Affleck) chega em casa e encontra sinais de luta e não vê sua mulher. A polícia logo chega ao local e uma busca logo é estabelecida; porém, com o surgimento de novas evidências, o caso lentamente vai se transformando e logo recai sobre Nick a suspeita de ter assassinado a esposa.

Isso é o que está nos trailer e dizer qualquer coisa mais é desnecessário, já que a trama do filme segue numa direção envolvente onde parte do seu mérito é a descoberta gradual da vida desse casal e os eventos que conduziram ao ponto mostrado no longa.

Para isso, o roteiro do filme corre em dois tempos: no primeiro, acompanhamos o presente da investigação sobre o desaparecimento de Amy, sempre de olho em Nick e nos detetives que cuidam do caso (a ótima Kim Dickens e Patrick Fugit); no segundo, somos apresentados a entradas do diário de Amy, sempre narradas por ela e com o seu ponto de vista sobre diversos momentos do relacionamento do casal.

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Desse ponto e conforme o caso vai ganhando repercussão nacional, o longa passa a apresentar um comentário interessante sobre a nossa percepção da verdade, a importância do jornalismo num caso como esse, mas principalmente passa a refletir sobre a capacidade humana de se apropriar, julgar e tirar nossos próprios benefícios das vidas e ações de outras pessoas; mostrando uma sociedade onde cada pessoa encontra uma forma de sugar algo aproveitável do outro, retrabalhar esse “algo” e projetá-lo de volta na pessoa, impondo sua visão para benefício próprio – os exemplos disso são enormes dentro do filme, desde a repórter que precisa de um vilão masculino pra vender pra sua audiência até os pais que transformam a infância que queriam para a filha em uma bem sucedida série literária infantil, passando pelo advogado que prefere trabalhar a estratégia de defesa do seu cliente pensando na imagem dele perante ao público e nem considerando procurar evidências que o ajudem no tribunal (além de outros casos que não podem ser citados por revelar informações cruciais da trama de Garota Exemplar).

Porém, todo esse subtexto seria perdido se o filme não fosse controlado por mãos talentosas como as de David Fincher. O diretor consegue imprimir seu estilo clássico de thriller, obtendo a atenção do seu público como um mágico prestes a executar um truque particularmente difícil, nos surpreendendo ao revelar o coelho dentro da cartola antes da hora apenas porque nós já estamos amarrados na cadeira quando percebemos (já tarde demais) que o truque não era o do coelho, mas o de serrar alguém no meio – e os voluntários somos nós.

Um outro ponto que vale destaque é a fotografia de Jeff Cronenweth, que não só constrói takes muito bonitos, como é essencial na criação das metáforas visuais que o filme aplica, como a cena onde vemos um poste com um relógio no meio da rua dividindo a tela, sinalizando a divisão que o tempo faz entre os Nick-Amy do passado com os do presente, ou quando Nick está totalmente coberto por sombras no momento em que mais quer esconder.

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Falar sobre Garota Exemplar e não mencionar o trabalho da dupla Rosamund Pike e Ben Affleck seria impossível. Pike faz um trabalho tão competente que será muito improvável não ver seu nome nas indicações aos principais prêmios vindouros, inclusive o cobiçado Oscar de Melhor Atriz. Já sobre Affleck, o melhor que pode ser dito é que quem reclamou da sua escolha como o próximo Batman nos cinemas por causa das suas habilidades de ator (incluindo este que vos fala) leva um grande tapa na cara com esse filme – não que o seu Nick tenha algo de Batman, mas Affleck mostra uma segurança e uma capacidade em viver o personagem que faz qualquer dúvida sobre o seu talento cair por terra no fim da projeção.

Garota Exemplar é, portanto, um excelente filme técnico, carregado com comentário social e que, de quebra, ainda tem uma história que vai segurar o espectador na ponta da cadeira até o fim dos créditos, na esperança de “ter mais alguma coisa” depois, só pra ter um pouco mais do gostinho do que acabou de ver. Obviamente, é um filme essencial pra qualquer cinéfilo.

A velha máxima de não conhecer bem o seu parceiro nunca foi tão verdadeira

TL;DR

Com uma direção primorosa de David Fincher, que conduz a sua trama num ritmo envolvente, sem abandonar o thriller, mas ainda mantendo o seu comentário social, e atuações espetaculares, Garota Exemplar é um dos grandes lançamentos do ano e presença indispensável na lista de qualquer cinéfilo em 2014. Gone Girl EUA , 2014 149 minutos Drama | Mistério | Thriller Direção: David Fincher Roteiro: Gillian Flynn Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens, Patrick Fugit, David Clennon, Lisa Banes, Emily Ratajkowski, Scoot McNairy
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