Crítica Êxodo: Deuses e Reis

Ridley Scott pega Gladiador e reconta aquela história com novos personagens e uma nova ambientação

Leandro de Barros

  quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ridley Scott dá prosseguimento ao seu novo hábito de lançar um novo filme por ano com Êxodo: Deuses e Reis, filme que “fecha” o calendário de 2014 no Brasil.

Se os filmes de 2012 e 2013 (Prometheus e O Conselheiro do Crime, respectivamente) foram recebidos de maneira controversa por público e crítica – nenhum dos dois chegou a agradar de verdade – a esperança do cineasta é que esse épico bíblico que conta a história de Moisés e do êxodo dos hebreus do Egito volte a colocá-lo em boas graças com o público.

Seja como for, vamos descobrir se Ridley Scott nos deu um presente de Natal ou um presente de grego.

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Na trama de Êxodo: Deuses e Reis, nós acompanhamos a história de Moisés (Christian Bale), criado entre a nobreza egípcia e melhor amigo de Ramsés II (Joel Edgerton), conhecido posteriormente como Ramsés, o Grande. Após uma visita aos escravos hebreus e uma conversa com Nun (Ben Kingsley), Moisés descobre a verdade sobre sua origem e acaba sendo exilado do Egito – voltando depois para libertar os hebreus da escravidão.

A história do Êxodo da Bíblia não é desconhecida na nossa cultura e sociedade, principalmente no Brasil – um país de maioria católica. Nessa nova interpretação, Ridley Scott segue uma tendência de Hollywood iniciada por Christopher Nolan em Batman Begins, no longínquo ano de 2005.

De lá pra cá, a gente consegue perceber um movimento na indústria de reinterpretar histórias, lendas e folclores da maneira mais verossímil possível, sempre seguindo a linha de tentar exibir argumentos e explicaçõe capazes de aumentar a imersão do espectador e sua suspensão da descrença.

Êxodo bebe dessa fonte adaptando a história bíblica à alguns fatos históricos e fornecendo elementos na história que tentam apresentar uma “alternativa interpretativa” para quem prefere não acreditar nos elementos mais místicos da trama – por exemplo, Moisés é retratado como um cético desde a primeira cena do longa e só passa a ter uma relação com Deus quando bate a cabeça após uma tempestade e personagens do longa passam a cogitar que seja tudo imaginação dele. Um outro exemplo que vale mencionar é a reação dos egípcios após as sete pragas, quando eles passam a buscar por teorias científicas ou lógicas que possam explicar o que está acontecendo.

exodus critica 03Se por um lado essa abordagem funciona bem para quem tem uma maior dificuldade de aceitar elementos narrativos com explicação vaga (“Foi Deus quem fez”), por outro pode soar um pouco decepcionante para quem aguardava por um filme que fosse mais religioso do que dramático.

Um outro ponto que vem à mente quando Êxodo termina é a sua semelhança com Gladiador, grande sucesso da carreira de Risley Scott – e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2001. A história de Moisés e Ramsés é muito parecida com a de Maximus (Russell Crowe) e Commodus (Joaquin Phoenix): o “herói” não é da realeza, mas é visto como filho pelo Faraó/Imperador; fica subentendido que o príncipe é o responsável pela morte do pai; o herói é exilado e escravizado, começando e se tornando o símbolo de uma revolução; vale mencionar até mesmo o fato de Moisés ter uma esposa e um filho, assim como Maximus, bem como Ramsés também ter um filho (como Commodus teve).

Se a ideia de Scott era refazer Gladiador com uma temática bíblica/egípcia, a verdade é que Êxodo é bem inferior a sua contra-parte de 2000. Isso não faz do longa de 2014 ruim, mas a história de Moisés fica alguns passos atrás da jornada de Maximus.

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Um ponto forte que vale mencionar é a representação de Deus em Êxodo. Evitando seguir a direção de reverência e medo à figura divina que existe na Bíblia e na maioria das interpretações bíblicas, Ridley Scott escolhe retratar Deus como uma figura vingativa, tirana e infantil (aqui, literalmente) e aproveita para traçar um paralelo entre ele e o “vilão” do filme, Ramsés – esse paralelo é sutil durante todo o longa, mas fica bem evidente quando o Faraó faz uma ameaça específica num momento e Deus faz dessa ameaça a sua vingança – enquanto o Moisés de Christian Bale age mais como um sábio ponderado no meio desses dois maníacos.

Essa visão pode gerar algum mal-estar aos religiosos, embora seja bem compreensível que o material de origem da história dá margem para essa interpretação e é importante saber gerenciar opiniões divergentes.

exodusAlém da tentativa de deixar a história mais verossímil, Êxodo também aproveita a temática de libertação de escravos, domínio de uma cultura sobre a outra e afins para estabelecer argumentos de cunho social. Moisés é visto como um libertador ao estilo Che Guevara (e inclusiva aplica táticas de guerrilha durante toda a projeção), treinando seu povo a questionar, exigir direitos e se defender da opressão egípcia.

Um ponto fraco da película fica na sua ambientação. Apesar de uma produção de altos valores, que procurou recriar o figurino de época, bem como os cenários, alguns elementos do filme causam uma má impressão de que se trata mais de uma encenação do que uma “história de verdade” – o que contrasta muito com a tentativa de ser verossímil mencionada anteriormente. Alguns desses exemplos acontecem logo na primeira cena de batalha, onde termos como “Fire!” são usados na hora de dar indicações de combate.

No geral, Êxodo: Deuses e Reis é um bom filme, que adiciona uma relevância ao trabalho de Ridley Scott que ele não conseguia atribuir desde… bom, desde Rede de Mentiras. Sendo religioso ou não, é um filme que vale conferir, pois adiciona e estimula debate sobre questões bíblicas e sociais.

Um presente de Natal de Ridley Scott

TL;DR

Êxodo é um filme que adiciona bastante em questões religiosas e sociais graças à ação do Moisés, interpretado por Christian Bale, e também graças ao paralelo entre Deus e o vilão Ramsés (Joel Edgerton). Apesar de bons valores de produção e uma fotografia bonita, um dos defeitos da película acaba ficando na sua ambientação contemporânea e ocidental demais para a época. Exodus: Gods and Kings EUA | Reino Unido | Espanha – 2014 Ação - Drama 150 min. Direção: Ridley Scott Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian. Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Ben Kingsley, Aaron Paul, John Turturro, Sigourney Weaver, María Valverde.
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