Crítica Elysium

Neill Blomkampp (Distrito 9) vem com o seu segunda longa-metragem para cavar cada vez mais o seu lugar como um dos principais nomes do cinema de ficção-científica atual

Leandro de Barros

  segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Em 2009, o sul-africano Neill Blomkamp se tornou um dos nomes mais promissores do cinema de ficção-científica após estrear Distrito 9 nos cinemas e ser ovacionado pela crítica internacional. Com um orçamento baixo, mas com criatividade, Blomkamp conseguiu nos lembrar que a ficção científica serve para se fazer críticas e comentários sociais (uma das ideias iniciais do gênero!) de uma maneira que deixaria H.G. Wells orgulhoso.

Assim, não é difícil imaginar porque Elysium era um dos filmes mais aguardados do ano. O que Neill Blomkamp poderia fazer com um orçamento mais recheado, mais apoio dos produtores e com nomes como Matt Damon (Trilogia Bourne), Wagner Moura (Tropa de Elite), Alice Braga (Cidade de Deus), Jodie Foster (Silêncio dos Inocentes) e Sharlto Copley (Distrito 9)?

Vamos descobrir.

Elysium Critica 01

Em Elysium, estamos no Século XXII e a humanidade sofre com os malefícios da super-população na Terra. Fugindo da poluição e dos outros perigos do planeta, a parcela mais rica da sociedade vai viver em Elysium, uma estação espacial gigantesca que não deve nada aos Campos Elíseos da Mitologia Grega. Lá, o ar é mais puro, não há fome, doenças (cada casa tem um equipamento fantástico capaz de curar qualquer doença) ou violência e a maior preocupação dos seus habitantes é decidir se irão comer caviar ou um Kinder-Ovo enquanto passam o dia na piscina.

Na Terra, porém, o buraco é mais embaixo. Tratados como animais, os ‘terráqueos’ brigam pelas poucas gotas de recursos que ainda está na Terra, lutam por uma oportunidade de conseguir imigrar para Elysium e se sujeitam à patrulhas de drones e robôs que não poupam energia na hora de descer o cacete em quem faz piadas pra eles.

No meio dessa maravilhosa aventura está Max da Costa (Matt Damon), o nosso protagonista. Ex-ladrão de carros e atualmente em liberdade condicional, Max trabalha como operário na Armadyne (a empresa de tecnologia responsável por criar e fornecer todo o suporte tecnológico à Elysium) e vive a sua vida de cabeça baixa, tentando juntar uma grana para conseguir um bilhete que o leve para a estação especial que dá título ao filme. Entretanto, os seus planos vão para o ralo quando Max sofre um acidente no trabalho e recebe uma dose letal de radiação. Quando recebe a notícia de que só tem mais 5 dias para viver, da Costa não pensa duas vezes: é hora de forçar o seu caminho até Elysium para conseguir uma cura.

Elysium Critica 02

O primeiro pensamento que se pode ter de Elysium é que esse é um dos filmes mainstream mais socialistas que Hollywood já produziu em anos. A representação que Blomkampp faz da sociedade ocidental atual e do sistema em que vivemos é tão flagrante que já dava para sacar no trailer do filme.

Em Elysium, os ricos vivem metaforicamente acima dos pobres, num lugar onde podem usufruir de todos os recursos possíveis e de todo o potencial da humanidade – enquanto os pobres ficam com o resto e precisam ralar para ganhar um lugar em Elysium, como se precisassem ‘provar’ que são dignos de estar lá.

Depois de ver o filme, fica claro que Blomkamp trabalhou com três temas principais em Elysium: a desigualdade social e a disparidade na distribuição de recursos, a utilização de drones e a robotização do efetivo militar e a sua utilização contra civis e a questão da imigração aos EUA e outros países mais ricos – com a primeira e a terceira com maior destaque.

Grande parte da exploração desses três temas fica na ambientação de Elysium (um dos pontos fortes do filme), com a trama do longa ficando com uma visão mais simples e ingênua do que é dito. Sem dar spoilers, o roteiro de Elysium chega à uma conclusão específica ideológica que acaba soando até um pouco superficial quando analisada um pouco mais de perto.

O problema é que, quando comparado com Distrito 9, Elysium é um filme muito mais comercial e até mesmo “conservador” e isso reflete nessa mensagem do filme. Enquanto D9 trabalhava a ideia do preconceito na África do Sul (e no resto do mundo) de uma forma mais ampla, mostrando ideologicamente o ‘erro’ e explorando as origens, causas e consequências práticas desse problema, Elysium acaba ficando um pouco mais retraído, só dizendo “Isso é errado e assim que deveria ser”.

Elysium Critica 04

Apesar de ter muitas qualidades (e já vamos falar sobre elas!), preciso referenciar apenas mais um problema de Elysium: suas cenas de ação. Enquanto todo o resto do longa é filmado de maneira muito segura e pensada por Neill Blomkamp, as cenas de ação derrapam feio. O problema não está na concepção, nos efeitos ou na coreografia das cenas, está na câmera. Durante os momentos de mais ação, Blomkampp adota uma câmera que treme DEMAIS e nem de perto dá a sensação de imersão que o efeito propõe inicialmente – não dá mesmo pra entender o que acontece em alguns momentos e a ideia de abusar da shaky cam fica ainda mais incompreensível quando outras cenas de ação, que NÃO utilizam o recurso, são exibidas e com um visual e resultado muito superior.

Dito isto, vamos falar de coisa boa.

Apesar do que dito acima, é preciso fazer notar a habilidade de Neill Blomkampp (que também escreve o roteiro do filme) ao contar uma história. A jornada de Max da Costa é bem envolvente e é muito fácil se relacionar com alguns dos (ótimos) personagens de Elysium – e esse mérito é dividido entre roteirista e o elenco do projeto.

Dois atores (e personagens) se destacam durante a projeção: Wagner Moura e o seu Spider e Sharlto Copley com Kruger. Eu juro que não digo isso porque Wagner Moura é brasileiro, mas ele realmente mandou muito bem na construção e interpretação do revolucionário Spider – que não é bom, nem mau (só muito agitado), mas é uma das pessoas mais interessantes em tela (mesmo com a sua injustificada influência naquele mundo). Já o agente Kruger é um psicótico de marca maior que funciona muito bem como a primeira cerveja de um adolescente: a princípio você estranha demais, não consegue entender a graça, mas depois cai no seu gosto e percebe que você estava sendo infantil antes.

Alice Braga vive a jovem Frey, mãe de uma garotinha com leucemia e responsável pela parte mais humana do longa e por aproximar o espectador dos problemas daquele mundo e dos personagens em cena. Jodie Foster, numa interpretação bem aquém do que nos melhores momentos da sua carreira, faz a fria Secretária Delacourt, responsável por barrar as tentativas de imigração ilegal à Elysium.

Elysium Critica 05

Quando os assuntos são efeitos especiais, o negócio fica de outro nível. Elysium tem, facilmente, alguns dos melhores efeitos especiais do ano, à ponto de ficar realmente complicado dizer com certeza o que foi feito por computador, o que foi construído de verdade, qual cena foi filmada com fundo verde (se alguma foi) e coisas do tipo. Apesar de não fazer ninguém voar ou soltar raios de energia, os efeitos de Elysium se mesclam tão perfeitamente com o cenário que passam um ar de naturalidade que colabora demais com a imersão do espectador.

Pra concluir, Elysium é uma ficção-científica de qualidade enorme, mas que peca um pouquinho na sua abordagem mais “padrão”. Ainda assim, é um dos melhores longas do gênero do ano e um dos meus filmes favoritos de 2013, com grandes efeitos, uma história envolvente, um bom elenco e ideias interessantes para mostrar para o público. Se tiver a chance, vá ver.


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