Crítica Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Nem 8, nem 80: Batman vs Superman não é o desastre que a internet ecoa mas está longe de ser o que você queria

Eder Augusto de Barros
edaummm

  quarta-feira, 23 de março de 2016

Você percebe o quão importante é o encontro da Trindade nos cinemas quando eles quebram a internet quando o filme é anunciado, quando as primeiras imagens são reveladas, quando sai um trailer, quando sai um segundo trailer, quando finalmente vem o terceiro e último trailer e por fim quando o filme é massacrado pela crítica. Para os amantes das nona e sétima arte, o filme que estreia no próximo dia 24 de Março nos cinemas nacionais é, com toda certeza, um marco. O encontro dos heróis mais populares dos quadrinhos na telona pela primeira vez é algo que esperamos por décadas.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça é a segunda incursão de Zack Snyder no Universo cinematográfico da DC Comics, universo este que é idealizado pelo próprio Snyder desde O Homem de Aço. O diretor responsável por levar a clássica graphic novel, Watchmen, para as telonas em 2009 tenta novamente reunir um time de super-heróis. Em Batman vs Superman acompanhamos duas linhas distintas de acontecimentos: de um lado Bruce Wayne busca, com seus próprios ideias, justiça pelo que aconteceu no embate final de O Homem de Aço e que ocasionou na queda de um edifício das Empresas Wayne; de outro lado vemos um Superman que dividiu a humanidade entre os que o enxergam como um Deus e os que acreditam que sua presença no planeta só cria problemas. Como já fica deduzido nos trailers, graças ao marketing não tão bom da Warner, em algum ponto eles vão se unir contra algo maior.

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O novo filme de Zack Snyder repercutiu diversas vezes durante sua produção pelas mais diferentes razões, principalmente pela escolha de Ben Affleck para viver o Homem-Morcego e pelo segundo trailer que revelou a presença do Apocalipse no filme e foi imensamente criticado por mostrar demais. A internet estava errada quando criticou Ben Affleck.

É complicado escrever sobre filmes que dividem muitas opiniões e Batman v Superman é um deles. Os fãs mais assíduos dos quadrinhos, principalmente dos da DC Comics, vão gostar do filme, não há como dizer o contrário. Zack Snyder preparou um show de referências que vai arrancar os mais diversos sorrisos dos que conhece esses personagens à fundo. A primeira aparição do Batman é das coisas mais legais já feitas, no que tange à super-heróis, no cinema. O Batman em ação é algo que esperamos por muito tempo. A trilogia do Nolan é ótima, deu uma escorregada no terceiro filme, mas ainda assim é um marco para o cinema de super-heróis (que hoje em dia é um gênero), mas aquele Batman nunca foi “O” Homem-Morcego. A versão do personagem vivida por Christian Bale nunca conseguiu ser assustadora como deveria. Veja bem, o clima sombrio não tem nada a ver com assustador.

O Batman do Zack Snyder é assustador.

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Falando em Zack Snyder, o diretor está longe de ser o “visionário” que lhe cabe como alcunha. Snyder não passa de um Michael Bay evoluído, tentando tirar o máximo impacto de cada cena, qualquer cena, qualquer frame, o importante é causar impacto. E tem que ser visual. A overdose de efeitos digitais em seus filmes é algo que eu nunca aceitei por completo. CGI em demasia causa bastante estranheza e Batman vs Superman não foge ao modus operandi do diretor. É verdade que aquele Batman completamente digital do trailer está mais convincente na tela grande, mas ainda assim, causa bastante estranheza.

Nessa preocupação com causar impacto, conectar os vários filmes e personagens do recém formado Universo DC nos cinemas, parece que o roteiro ficou em segundo plano. O principal problema de Batman v Superman é falta de um bom plot e a indecizão de qual caminho seguir. É um dos filmes mais retalhados que eu já vi. A história tem muitos escorregões, a motivação do Batman para ir atrás do Superman já soava barata demais nos trailers, parecia que ele só queria vingança pelo prédio das Empresas Wayner e no filme não melhora muito. Óbvio que o Bruce não quer essa vingança ele está com medo do que o Superman pode fazer contra a humanidade se ele quiser, e isso é algo que acontece também nos quadrinhos. O Morcego é completamente paranóico com o próprio Superman e os outros poderosos da Liga da Justiça, tanto que ele guarda em um cofre “uma maneira” de derrotar cada um deles se for preciso. Ainda assim, no filme parece que é apenas pelo prédio da empresa. Já a motivação de Clark para confrontar Bruce, essa sim é fraquíssima, incoerente, o Homem de Aço nunca faria o que fez e nunca se deixaria por naquela posição, é difícil comentar sem dar spoilers. Foi uma decisão preguiçosa de roteiro, tão preguiçosa que numa tacada só foi arranjado um uso para Lex Luthor, até então completamente perdido na trama, coloca os dois heróis frente a frente, cria a ameaça maior que vai uni-los e traz a Mulher-Maravilha para o embate. Tudo isso com uma solução que o Superman resolveria em 10 segundos e todo mundo poderia ir para casa.

O embate entre os dois é causado de uma maneira completamente estranha e incoerente com o que a passada uma hora de filme vinha desenhando, e como o embate termina é das coisas mais ridículas que já fizeram nos filmes do gênero. A motivação do Batman desaparece num passe de mágica. E não é do tipo: “Ah, se eles conversassem não rolava briga.”, sim de fato, mas não deixaria de ser a motivação do Bruce desaparecendo num passe de mágica. Isso é o que eu quero dizer com Snyder querendo causar impacto visual. Ele não tinha uma boa razão para fazer os dois entrarem numa briga. Na verdade tinha uma razão mediana de ambos os lados, trabalhou elas de maneira errada e depois decidiu esquecê-las e criar uma razão secundária que serviu apenas para iniciar e terminar o confronto. Jogou fora uma hora e meia de filme, assim, do nada. O embate só está ali para causar impacto visual. Mais nada. Não tem porque, não tem conclusão. Não tem peso algum.

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Espera aí cara, vamos conversar?

Mas são só erros?

Não. Claro que não. Aliás, o filme tem três grandes problemas “apenas”. O roteiro retalhado, Lois Lane e Lex Luthor. Amy Adams é uma graça. Uma atriz extraordinária. Mas eu ainda não entendi essa fixação do Zack Snyder e seus roteiristas pela menina Lane. Em Homem de Aço ela foi apontada como o principal problema do longa exatamente porque tentaram inseri-la em todos os momentos importantes do filme e não foi diferente dessa vez. Juro que em certo acontecimento do longa eu pensei que ela salvaria o dia e confesso que gargalhei sozinho no cinema quando a cena que gerou esse pensamento aconteceu. Se você já viu o filme, sabe do que eu to falando. Se eles fizessem isso eu sairia da sala sem ver o final.

Já o Lex Luthor é complicado. Eu gosto do Jesse Eisenberg. Gosto de verdade. Mas detestei com todas as minhas forças o Lex Luthor. É um personagem completamente destoante do resto do filme, do resto do Universo que vem sendo trabalhado. É diferente de tudo que vimos e sabemos sobre o personagem. E talvez o erro nem seja só do Jesse, o erro deve ser uma combinação da atuação completamente afetada e a concepção do personagem. Essa versão extremamente esquizofrênica e caricata é tão “over” nesse universo sombrio que gera uma repulsa imediata. Esses adjetivos combinam com vários vilões da DC, a maioria deles do universo do Homem-Morcego, mas não combinam com o Lex.

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E quais os acertos que ficam para o Universo DC

O filme tem bastantes acertos sim. Ben Affleck calou a boca de muitos, ele é “O” Batman que esperávamos: detetive, bom de porrada, assustador. Ainda que suas motivações de querer enfretar o Superman possam ser discutíveis (apesar que você reclamou a destruição causada pela batalha de O Homem de Aço que eu sei), essa é a melhor representação do Morcegão na tela grande. O Alfred de Jeremy Irons também está bem legal e o Perry White de Laurence Fishburne rouba a cena em vários momentos, ele tem provavelmente as melhores linhas de diálogo do filme. A Mulher Maravilha também está ótima, mal posso esperar pelo filme solo dela, Gal Gadot é outra que calou a boca de muitos. É pena que a personagem tenha tido pouco tempo de tela e que boa parte do que tenhamos visto dela estava nos trailers.

Zack Snyder sacrificou o roteiro do seu filme, o grande encontro desses personagens tão famosos e amados, para agraciar o público com impacto visual, esse impacto tinha que ser ao menos bom, correto? E é. MUITO. As páginas da DC ganham vida na tela grande e se tem um cara certo para fazer isso esse cara é o Snyder. Ele fez isso em Watchmen, em 300, em Homem de Aço e agora ele fez de novo. Visualmente o filme é demais e isso não se pode negar. Cabe a você julgar se um filme vazio pode valer só pelo seu visual.

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Para concluir, Batman vs Superman: A Origem da Justiça vai dividir opiniões, vai encerrar amizades, destruir casamentos, vai estabelecer uma guerra internética para saber quem é o crítico de sofá que tem mais razão. Enfim. Vai ser falado por mais algum tempo. Daqui um ano, quando as pessoas revisitarem o filme, os problemas serão mais evidentes, tal como aconteceu com O Cavaleiro das Trevas Ressurge ou ainda o próprio Homem de Aço, dois filmes bem problemáticos e que dividiram muitas opiniões quando saíram. Isso só acontece com aqueles que arrastam multidões. Que me desculpem os fãs da Marvel, mas para Steve Rogers e Tony Stark chegarem a esse nível ainda falta um bom pedaço.

Batman v Superman: Dawn of Justice
EUA – 2016
Ação, Aventura e Fantasia
151 min.

Orçamento:$250.000.000 Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terio e David S. Goyer
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Diane Lane, Jeremy Irons e Scoot McNairy

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