Sofazão | Requiem – Crítica

  Pedro Luiz   |    sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Alternativo o bastante para ninguém conhecer, Requiem, dirigido por Hans-Christian Schimd, é um filme alemão ousado e simples, que rende boas e intermináveis reflexões.

O único desafio dos filmes de exorcismo, após 1973, é o de superar o GRANDE “O Exorcista’’, de William Friedkin. Se não for possível superar, seria interessante ao menos acrescentar algo ao gênero. E é o que Requiem (2006) tenta fazer. Indo para a direção oposta dos roteiros desse subgênero, Requiem explora os perigos e as conseqüências do  apego e da valorização exacerbada da fé.

O filme do alemão Hans-Christian Schimd, que se destaca por seus documentários, narra a história (real) de Michaela Klingler, uma jovem ariana que desde muito cedo sofre com crises de epilepsia. Quando chega a hora de ir para a faculdade, seus pais não são a favor da idéia, já que sabem qual é a condição clínica de Michaela. Pouco tempo depois, e com a ajuda de seu pai, a jovem alemã vai para a faculdade com a missão de se formar pedagoga, mas algumas crises epiléticas a deixam mal o bastante para deixarem seus amigos preocupados. A solução: procurar o padre que é amigo de sua família. O tal padre recomenda acompanhamento médico, que consta problemas muito mais graves, como esquizofrenia crônica. Daí então, Michaela começa a ter alucinações e comportamentos atípicos, levando-a a crer que estava possuída, mas na verdade, precisava de tratamento psiquiátrico.

O primeiro ponto curioso a respeito desse filme está no lugar que o encontrei. Um pequeno mercado local vende alguns DVDs de filmes –digamos- alternativos. Comprei achando que se tratava do filme de Aronofsky, Requiem para um sonho. Mas o que tinha em mãos era um filme alemão pouco conhecido, que chama atenção pela simplicidade e ousadia.

O segundo ponto curioso do filme está na sinopse, que logo chama a atenção pela frase ‘’baseado em fatos reais’’. Não sei vocês, caros leitores, mas isso me atrai muito. E o caso dessa moça, que na verdade se chamava Anneliese Michel e faleceu nos anos 70, de fato ocorreu, e aconteceu como no filme. A fé que tanto é vista como saída para os problemas da humanidade é apontada, no filme,  como a culpada pela morte prematura da garota que na verdade precisava de cuidados psiquiátricos. Esse roteiro, que não tem absolutamente nada de extraordinário, rende uma reflexão que transcende os minutos de energia gastos com a TV e o aparelho de Blu-ray, e trata-se de um assunto muito maior que o bem e o mal, ou anjos e demônios.  Trata-se de comportamento humano. Algo que, talvez, nenhum psicólogo ou psiquiatra poderá explicar, e que está diante de nossos olhos todos os dias, com seus problemas e dilemas, como esse, de Annaliese, que preferiu a fé, e acabou falecendo por conta de rituais de exorcismo desnecessários.

Fato é que o filme fez um barulho considerável na seu lançamento, pelo menos na Europa.  A atriz que interpreta Michaela, Sandra Huller, ganhou o Urso de Prata no festival de Berlim por sua brilhante desenvoltura.

O cinema europeu é isso. Liberdade para expressão, seja com assuntos polêmicos ou com sangue jorrando na tela sem sentido algum. Quem sabe o cinema hollywoodiano deixe, algum dia, de premiar os filmes certinhos e politizados só porque agradam a massa. Em tempos de Oscar, Requiem (2006) é um prato cheio de controvérsia.

OBS: O filme não é  de terror, e sim drama.


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