O que há de errado com o remake de Oldboy?

Leandro de Barros

  quinta-feira, 11 de julho de 2013

Coluna /// Sala9 Sala9

O que há de errado com o remake de Oldboy?

Depois da onda de ódio que a versão de Oldboy, dirigida por Spike Lee, sofreu, tentamos responder: o que há de errado com o filme, afinal?

and here we go

Então o remake hollywoodiano de Oldboy, dirigido por Spike Lee (Malcom X), ganhou seu primeiro trailer. Obviamente, muita gente já começou a reclamar da simples ideia desse projeto existir. Porém, o trailer confirmou aquilo que nós já estávamos falando por aqui desde 2011: Oldboy PODE ser um bom filme.

Guardem seus martelos e esperem eu explicar o porquê. Depois, se for o caso, venham até a minha casa para arrancar meus dentes com o martelo.

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Primeiro de tudo: qual o problema com um remake?

Por que um remake de algum filme causa tanta raiva e agitação por aí? Na época do anúncio (e depois com os trailers e tudo mais) do remake de Evil Dead, muita gente chiou – mesmo sem perceber que Sam Raimi, Bruce Campbell e Robert Tapert (os criadores do original!) estarem envolvidos com o remake. O filme saiu, teve uma pegada bem diferente do longa dos anos 80 e, surpreendentemente, o mundo não acabou.

Verdade, eu não estou mentindo: fizeram o remake de um clássico e a Terra continuou girando. Confira comigo olhando pela janela.

Então, qual o problema com um remake de Oldboy? O primeiro e mais comum argumento é: “esse filme é descenessário“. Ok  um ponto válido. A história já havia sido contada no original coreano, dirigido pelo ótimo Chan-wook Park. Não há a necessidade de recontá-la, certo?

Bem, usando essa lógica, nem o filme coreano era necessário, já que a história de Oldboy já havia sido contada no mangá homônimo de  Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi.

Nossa, mas você é um desonesto intelectual mesmo hein, autor do texto? Que vergonha, como você é burro, cara! Eu não entendo o que você falou porque você fala de uma maneira burra! O filme coreano é uma ADAPTAÇÃO e o americano é um REMAKE, são coisas diferentes. Nunca mais acessarei o Supernovo e vou só entrar na concorrência“.

Primeiro, o americano é uma adaptação do mangá também. Segundo, nós estamos falando sobre NECESSIDADE de cada filme. Necessário, o filme coreano não era. Ele foi feito para que essa história pudesse ser contada para um público maior (e aqui não tem nada a ver com o fato de quadrinhos ser uma mídia com menos público que o cinema, mas sim em misturar esse público) e também para que Chan-Wook Park pudesse dar a sua visão para a história.

Se o cineasta coreano pôde adaptar o mangá tranquilamente, então por que Spike Lee não pode? Se você disser que é porque ele é asiático, então você é um racista sem vergonha. Se você disser que é porque os americanos só ligam pro dinheiro e vão estragar a obra, você abre um ponto interessante para eu puxar meu segundo argumento…

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Olhem as pessoas envolvidas

Versão americana de Oldboy – direção: Spike Lee, o cara que fez Malcom X, Faça a Coisa Certa e O Golpe Perfeito. Um diretor que já mostrou que sabe o que fazer pra contar a história que quer passar, não tem medo de colocar polêmica na tela e que fica mais tempo trabalhando nas suas causas sociais do que pegando grandes filmes pra ganhar dinheiro.

O protagonista é Josh Brolin, que você deve conhecer por Onde os Fracos Não Tem Vez. A “mocinha” é Elizabeth Olsen, chamada de “a irmã Olsen talentosa” e que já mostrou seu trabalho em alguns filmes menores como Martha Marcy May Marlene. O “quarteto prinicpal” ainda é composto por Sharlto Copley (veja Distrito 9!) e Samuel L. Jackson (se você acha que ele é um mal ator, vá ver Django Livre).

Resumindo meus dois últimos parágrafos: os envolvidos são talentosos – não é como se o filme fosse dirigido por Michael Bay e estrelado por Adam Sandler e Megan Fox. Gente talentosa está trabalhando no projeto.

Para fins de honestidade intelectual, eu sou o primeiro a dizer que é verdade que nomes envolvidos não garantem um bom filme – veja Truque de Mestre, por exemplo. Um bom elenco e um longa ruim. Porém, parece mais provável que as coisas andem pra frente e não para trás com gente desse naipe envolvida.

Pra desenhar meu argumento, eu peço ajuda à uma declaração de Sharlto Copley: ” [Oldboy] É uma história tão boa! Algo desse tipo surge raramente e é perfeitamente razoável ter uma reimaginação disso. É bem comum ver Hollywood refazendo algo só porque já existe uma audiência pré-feita, apenas pelo aspecto comercial da coisa. É justo, acho. Mas nesse caso, se você ver as pessoas envolvidas, é mais por motivação criativa. Não se trata de uma franquia massiva que nós estamos tentando rebootar ou alguma coisa que lucrará gazilhões de dólares. É apenas um filme que é artisticamente inspirador para as pessoas. Spike [Lee] é um artista que foi inspirado a fazer esse filme. A motivação por trás do projeto não é um estúdio ou um executivo pensando que se trata de uma grande oportunidade de marketing. A motivação por trás disso são os produtores, atores e diretores, é simplesmente a inspiração dessa história. Vocês notarão que não é um projeto feito por pessoas conhecidas por aceitarem trabalhos apenas por serem comerciais“.

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Remakes não vão roubar a sua alma

Você já viu Scarface, com o Al Pacino? Pode ser que sim ou pode ser que não. Em todo o caso, o filme conta a história de um imigrante cubano em Miami que começa a subir na vida do crime organizado. É um projeto bem idolatrado por aí, tem direção do Brian de Palma, roteiro do Oliver Stone e criou uma das frases mais conhecidas do cinema americano. Essa:

O plot twist? Scarface é remake de um filme de 1932 – que por sua vez foi inspirado em um livro dos anos 20. No original, a história (obviamente) não era baseada na Miami dos anos 80, mas na famosa época da proibição da venda de álcool nos EUA – um cenário bem comum em filmes e séries, como em Boardwalk Empire por exemplo.

O Scarface de Brian de Palma tirou o que os cineastas chamavam de “excesso melodramático” no filme original, adaptou a sua história para uma época diferente e agradou à muita gente.

Você já viu Por um Punhado de Dólares, com o Clint Eastwood? Pode ser que sim ou pode ser que não. Em todo o caso, o filme conta a história de um pistoleiro do Velho Oeste que coloca duas famílias rivais para brigar. Filmado na Espanha e dirigido pelo italiano Sergio Leone, o longa é um dos símbolos do Western Spaghetti, o conhecido bangue-bangue à Italiana no Brasil.

Sergio Leone, Clint Eastwood, o Velho Oeste… clássico de Hollywood, certo?

Claro que sim! Só que primeiro essa história se chamou Yojimbo e foi contada pelo sensacional Akira Kurosawa, em 1961 (só 3 anos antes de Por um Punhado de Dólares). Na trama do filme japonês, um ronin coloca duas famílias rivais de uma cidade para brigar.

O que o filme Euroamericano de Sergio Leone fez foi pegar uma história baseada no Japão antigo e perceber que o sentido dela era universal e poderia ser adaptado para o público ocidental através das figuras dos pistoleiros do Velho Oeste.

Você já viu Os Infiltrados, do Martin Scorsese? Pode ser que sim ou pode ser que não. Em todo o caso, o filme conta a história de dois infiltrados (um da polícia no crime organizado e outro do crime organizado na polícia) que precisam descobrir a identidade do outro enquanto protegem o seu próprio segredo.

O filme foi um grande sucesso, ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2006 e ainda rendeu o (merecido) Oscar de Melhor Direção para Martin Scorsese. A reviravolta que você já espera é que, sim, Os Infiltrados é um remake.

O honconguês Conflitos Internos, com Andy Lau e Tony Leung, foi o original que serviu de base para Os Infiltrados, de Martin Scorsese. O original possui uma abordagem até mesmo mais religiosa do que o americano, com alguns conceitos budistas que não fariam muito sentido para o público ocidental, mas a história é praticamente a mesma.

Você já viu… ok, acho que você já entendeu. Meu ponto aqui não é defender, proteger, abraçar, amar e ter dois filhos com a ideia de se fazer remakes cinematográficos. Meu ponto é dizer que NÃO É só porque um filme é um remake que ele será ruim.

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O Oldboy de Spike Lee é baseado no mangá

Essa não é uma tentativa de refazer o original. O nosso filme terá um ponto de vista diferente. Além de focar no filme coreano, há também o mangá japonês. Nós estamos usando a graphic novel como fonte primária. Será uma história diferente“, disse a atriz Elizabeth Olsen há algum tempo atrás.

Se te faz sentir melhor, o Oldboy de Spike Lee é uma adaptação do mangá japonês, publicado por aqui pela Nova Sampa, e não um remake do filme coreano.

Você pode achar que o filme de Chan-wook Park é a perfeita adaptação da obra de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi (algo que é seu direito), mas isso não tira a validade de outros cineastas, independente da nacionalidade, de adaptar a história também.

Honestamente, eu não vejo esse ódio ao novo Oldboy como uma defesa do filme coreano – até porque, eu imagino que vocês saibam que o original não vai ser modificado e vai continuar ali para sempre, né? Eu vejo esse ódio ao novo Oldboy como um ódio à Hollywood e à sua atitude de focar mais no lucro e menos na visão e capacidade artística dos seus profissionais.

Essa é uma “causa” bem válida, só que teve um efeito contrário dessa vez. Um remake de Oldboy NÃO É FEITO para lucrar, pelo simples fato de que POUCA GENTE ter visto o original. Você viu, eu vi e provavelmente seu primo viu, mas é porque nós entramos de cabeça nessa história de filminhos e não é raro ouvirmos falar de projetos de sucesso em outros países – como Battle Royale (Japão), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França) ou Biutiful (Espanha) – porém, para a gigantesca maioria do público, que só considera o cinema como um meio de entretenimento casual e não foge muito do mainstream do cinema Hollywood, Oldboy é praticamente um projeto alienígena.

A versão americana do filme não está tentando lucrar bilhões de dólares em cima de uma obra obscura que faz você se sentir especial por ter visto, seu hipster. Eles estão pegando essa mesma história e contando para mais pessoas.

Pode até ser que o filme seja péssimo, pode ser que o longa não seja bom o suficiente em comparação ao coreano (o que não significa que será ruim) e pode até mesmo ser que o filme seja até melhor que o primeiro. Pra sabermos isso, vamos ter de esperar para ver.

Mas eu não tenho o direito de não gostar e de não querer ver esse filme no cinema?

Pelo contrário, caro leitor! Você tem absolutamente TODO o direito do mundo de achar esse projeto uma bela merda e até mesmo de expressar isso pelos quatro cantos do mundo. Porém, precisa saber que à partir do momento que se expressa algo, é esperado algo do tipo de uma resposta.

Ser injusto com um filme só porque, na sua opinião pessoal, esse filme não será bom é seu direito – é ser babaca também, mas não deixa de ser seu direito.

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