Ferrugem e Osso – Crítica

Ronaldo D'Arcadia

  terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ferrugem e Osso – Crítica

Em "Ferrugem e Osso", o diretor francês Jacques Audiard faz do improvável sua ferramenta de construção.

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É interessante perceber que dois sucessos recentes do cinema francês, a comédia dramática “Intocáveis” e o romance dramático “Ferrugem e Osso”, trazem como conceitos de suas histórias dois personagens extremamente parecidos: o ignorante desprovido, mas sábio a sua maneira, e o cidadão bem sucedido (no caso do romance, seria cidadã) de classe média alta que é infeliz e debilitado.

É certo dizer que este é um tema de apelo fortíssimo, que gera uma reflexão positiva sobre nossa condição humana e a forma egoísta com que avaliamos nossos problemas a todo o momento. Mas ver um tema específico assim, duplicado em um curto período de tempo, pode fazer com que alguns, inconscientemente, questionem as escolhas deste “Ferrugem e Osso”, cogitando até mesmo certa falta de criatividade na composição da obra. Mas este é um pensamento fugaz, que não ganha força com o desenrolar da trama, pois as semelhanças ficam apenas nestes quesitos básicos.

Dirigido e roteirizado por Jacques Audiard, que tem no currículo os excelentes “O Profeta” e “De Tanto Bater Meu Coração Parou”, o filme conta a história de Stéphanie (interpretada incrivelmente pela bela Marion Cotillard) e Alain (Matthhias Schoenaerts, do ótimo “Bullhead”). Ela é uma domadora de baleias Orca (creio que este seja um dos raros filmes que trazem uma protagonista com esta profissão) e ele é um Zé Ninguém, que faz dos punhos e da força bruta seu ganha pão – o cara tem um filho, e passava maus bocados com o pequeno antes de ir morar com a irmã.

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Após um acidente no parque aquático em que trabalhava, Stéphanie perde suas duas pernas. Arrasada pelo acontecido, ela busca consolo numa improvável amizade com Alain, que em meio a sexo casual e mudanças completas de paradigmas, surge um forte sentimento que mistura amizade, amor, e proteção mútua.

O grande mérito de “Ferrugem e Osso” é o choque de realidades. Stéphanie, antes de ter sua vida virada do avesso, parecia fútil e infeliz no relacionamento que mantinha. No entanto, devido a sua classe social, usava aquela habitual imagem exterior: educada, inteligente e formal (isso se fortalece quando falamos de França e Europa). Ele por sua vez é um homem sem formação, educação ou compreensão de como se relacionar de maneira funcional com pessoas próximas, sendo Stéphanie a única que consegue criar um diferenciado laço com o mesmo.

A história amarrada pelo roteiro da obra é corajosa e inventiva. A improbabilidade de situações e reviravoltas são absorvidas eficientemente pela direção de Audiard, que não se prende a estilos na hora de capturar suas cenas, se reinventando a cada momento por meio de uma ótima edição, montagem, o uso da steadycam – que aproxima seus personagens com muito movimento e belos closes -, e a utilização coerente do slow motion, em particular nas sequências com lutas, para evidenciar os detalhes e tornar tudo mais atrativo.

Por diversos momentos, apoiado pela debilidade física de sua personagem principal, o diretor consegue emoldurar, em tórridas cenas de sexo, uma beleza disforme e memorável – lembrando que os efeitos especiais que removem a perna de Cotilard são dignos de admiração.

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Outro quesito da produção que merece aplausos é a opção honesta de não enfeitar a aparência da realidade, oferecendo personagens críveis em todos os sentidos, tanto em estado mental como físico. Marion Cotilard, que é dona de uma beleza incomparável, exemplifica bem esta opção quando surge, durante quase todo o filme, com vestimentas mal-ajambradas, cabelos desgrenhados e provavelmente imundos. O ator Matthhias Schoenaerts também passa longe do rótulo de galã quando exibe seu porte bombado, meio barrigudo… ou seja, algo normal, que pode ser chamado também de realista.

Apoiados então por estes fatores, os atores oferecem pura espontaneidade com seus papéis, e como é de costume do cinema francês, esta naturalidade programada às vezes força um pouco a barra, o que resulta em altos e baixos nas interpretações, mas o bom tom domina – Cotilard é destaque absoluto ao explorar com honestidade as diferentes camadas de sua Stéphanie… Ela merecia ao menos ser lembrada no Oscar deste ano.

Em resumo: “Ferrugem e Osso” é um filme surpreendente. Nada pode preparar a audiência para os acontecimentos da trama, e isso é empolgante  O longa aproxima de maneira cult o bizarro do natural, misturando universos distintos e os testando com realidades improváveis. Recomendado.

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