Crítica A Morte do Demônio

Com seriedade, a refilmagem de Evil Dead perturba pela violência.

Pedro Luiz

  sábado, 27 de abril de 2013

Quando anunciaram a refilmagem do já clássico Evil Dead (1981), os fãs do cinema trash, de Sam Raimi e do bom senso logo viram problemas. Como refilmar algo que necessita de tantas particularidades para ser visto, em tempos de processo, escassez de bons exemplares e gênero capenga? Nada mais me assusta. Nada mais me impressiona. O cinema de terror vem morrendo, assim como a exigência do espectador, que paga o ingresso e avalia de forma positiva as produções polidas e sem alma que saem aos montes todos os anos.

O Evil Dead de Sam Raimi podia ser tudo, menos polido. O que se esperava da refilmagem era que, no mínimo, a crueza fosse mantida, seja nas cenas de interação com o demônio, ou na própria direção, movimentação de câmeras, etc.
O que vimos em A Morte do Demônio (Evil Dead, 2013), infelizmente, é mais um exemplo de obra polida e marcada pelo formatinho criado para o gênero em Hollywood. Mas, calma. Por obra de alguma entidade, o filme consegue se sustentar, mesmo polido. Como fã do gênero e do início da filmografia de Raimi, o filme teria que passar por sérios requisitos para conseguir me ganhar. Ele me ganhou. E é isso que vamos discutir agora.

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A história sofre leves mudanças em relação ao original. Se nos anos 80 a motivação dos jovens era simplesmente passar uns dias em uma cabana, em 2013 o grupo tenta fazer uma intervenção.  Mia (Jane Levy) é viciada em cocaína e é convencida por seus amigos, e irmão, que passar uns dias em uma cabana no meio do nada poderia fazer bem. O objetivo era ‘’limpar’’ Mia. Como isso não poderia dar certo, acabaram impregnando-a de maldade e entidades demoníacas quando o ‘’nerd’’ do grupo acha o Necronomicon, e inteligentemente, recita as palavras necessárias para libertar o demônio que ali jazia preso.

Fede Alvarez, diretor do curta Panic Attack! (2009), assumiu a cadeira mais importante do set de filmagem para trazer à nova geração essa excelente história oitentista.  Não sei se por medo de errar em suas estreia, ou por conselhos do próprio Sam Raimi (que produz o filme), Alvarez entrega uma direção bastante similar a que encontramos por aí. Não há qualquer assinatura ou personalidade. O que acontece, acontece na ‘’visão’’ comum. Lembrando que o primeiro Evil Dead tinha a modesta quantia de 350 mil dólares. Na refilmagem, Alvarez contou com ‘’modestos’’ 17 milhões de dólares.
Dava para ter arriscado mais, inovado mais… Não acha?

O grupo se mantém na formação batida de duas gostosas, uma problemática, um galã e um nerd. Os atores não são ruins, só não demonstram carisma algum. O destaque fica somente com Jane Levy (da série Suburgatory), que precisa aparentar insanidade extrema e demonstrar estar possuída por um demônio sanguinário. Curioso é ver que ela se sai melhor possuída, do que atuando normalmente.

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A refilmagem é fiel ao original quando utiliza muitos efeitos práticos ao invés do sintético CGI. A famigerada cena da língua cortada, disponível nos trailers, é um bom exemplo de efeito prático empregado no filme. Essas técnicas fazem o filme demonstrar muito mais organicidade, ajudando as mutilações, esquartejamentos e mortes a funcionarem de forma bastante realista.

Mais sério que o original, A Morte do Demônio não alivia a tensão em momento algum. A comicidade a qual o filme oitentista ficou famoso não existe aqui, e é um dos grandes problemas encontrados pelos fanáticos. Para mim, são duas propostas distintas. Nessa refilmagem, as mortes e os eventos demoníacos são encarados com seriedade. E você consegue enxergar essa abordagem funcionar quando um braço está sendo decepado, a câmera está focada naquilo e os seus dentes estão rangendo. Nas cenas ainda mais fortes, os poucos guerreiros presentes na sessão viravam seus rostos em uma tentativa de fuga, falha pelas excelentes mixagem e edição de som.

A Morte do Demônio ganha na violência. Perturbadora e extremamente realista, a ação do demônio nos jovens rende leves ânsias de vômito. Os efeitos práticos que mencionei ajudam tanto nisso que até a chuva de sangue passa tranquilo pelo filtro de descrença.

Angustiante, aflitivo e sanguinolento. A trasheira está presente, porém, em um filme polido. A fórmula e o formato estabelecidos pelo gênero – mal das pernas – estão lá. Mas a violência é boa. Tão boa que fez esse coração trash querer saltar com a cena da famosa (e presente no original) moto-serra.

Outra proposta. Um novo fôlego. Ou a falta dele, no meu caso.


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