Paul McCartney em Belo Horizonte – Relatos De Um Fã

Ronaldo D'Arcadia

  sexta-feira, 10 de maio de 2013

Paul McCartney em Belo Horizonte – Relatos De Um Fã

Com tenacidade e muito Rock 'N' Roll, Paul McCartney oferece um show memorável e cheio de surpresas em Belo Horizonte.

YT1sJmNjPTA4MDgwOCZoPTQ3MCZzcmM9aW1hZ2VzJTJGaG9tZXBhZ2UlMkZCZWxvRnJvbnRQYWdlLmpwZyZ3PTk2MiZ6Yz0zJmhzPTgwNjA

Thank You – Homenagem dos fãs para Paul

Queria abrir um espaço aqui nesta minha coluna de cinema para falar de música. Sem problemas né? Valeu!

Não é todo dia que um dos grandes mestres do Rock ‘N’ Roll decide tornar o Brasil um de seus lugares preferidos para tocar. O lendário cantor e compositor Paul McCartney (ex-Beatles, ex-Wings) já provou seu amor por nosso país, e nós fãs respondemos muito bem à essa afeição, esgotando os ingressos, elaborando homenagens surpreendentes por meio de mídias sócias e, acima de tudo, vibrando, cantando e pulando como se não houvesse amanhã ao som de sua música, algo que ele com certeza não vê enfaticamente nas frias plateias da Europa e América do Norte.

Eu tive a honra de assistir quatro espetáculos do cara: o primeiro foi em São Paulo (21/11/2010), o segundo no Rio de Janeiro (22/05/2011), o terceiro em Florianópolis (25/04/2012) e o quarto e mais recente foi em Belo Horizonte (04/05/2013), abertura de sua turnê mundial “Out There!”. Lembrando que depois disso ele ainda tocou em Goiânia (com a participação especial do gafanhoto “Harold”) e Fortaleza.

Quem é fã de Paul McCartney sabe que suas apresentações são únicas – nenhum artista hoje em dia oferta três horas de show assim tão fácil. São 36 músicas clássicas interpretadas com vigor por este senhor de 70 anos de idade (71 em junho), que faz isso por amor a música, pois afinal, ele é um dos homens mais ricos do mundo, e com a idade que tem poderia ficar sentado vendo seu patrimônio dobrar com a venda de discos. Muitos se perguntam como ele ainda consegue, de onde vem tanta disposição? Mas como disse o presidente do fã clube Revolution, Marcos Malagoli, para o Estadão, “Os olhos dele ainda brilham quando está em cena”. Acho que isso explica bem. A vida de Paul foi no palco, e abandoná-lo parece uma tarefa impossível.

374982_577617828935979_398237173_n

Estádio do Mineirão lotado

A produção da “Out There!”, assim como de suas outras turnês (como a última “On The Run”), foi sensacional, oferecendo telões massivos, vídeos de fundo incríveis – que ajudam a criar o clima das canções -, e pirotecnia de alta classe. Um espetáculo que faz o ingresso valer a pena. O ex-Fab Four é acompanhado pela “melhor banda com quem já tocou” (palavras dele), e são eles: Abe Laboriel Jr. (batera e voz), Rusty Anderson (guitarra e voz), Brian Ray (guitarra, baixo e voz) e Paul “Wix” Wickens (teclado e voz) – músicos que não se cansam de comentar via internet o prazer de tocar em nosso solo. Esta formação já está junta há onze anos, desde o disco “Drive Rain”, e o entrosamento é máximo. Os cinco, enquanto se divertem, entregam qualidade sonora acima de tudo.

Bem, a “Out There!” está muito diferente da “On the Run”. O fato é que Paul inseriu algumas novas canções que realmente surpreenderam a todos. Veja só, mesmo depois de ter visto três shows fantásticos dele, digo com tranquilidade que este foi de longe o melhor. Em primeiro lugar, esta foi uma estréia mundial de turnê, uma honra que nós nem ao menos compreendemos as proporções. Em segundo, não saber o set list foi maravilhoso. Em todos os outros concertos nós já sabíamos o que iria rolar, ou até mesmo quais seriam as possíveis alterações, pois afinal, os repertórios de turnês não mudam. Agora, se tratando de uma estréia, tudo era mistério, e quando a banda abriu com “Eight Days a Week”, canção que foi tocada ao vivo pela última vez pelos Beatles, tudo poderia acontecer.

“Junior’s Farm” e “All My Loving” completam então uma trinca inicial arrasadora, que dá um soco de adrenalina na sua cara e você se esquece que está em pé há quase cinco horas – e que seus pés estão simplesmente necrosando dentro de seu tênis (sim, o cansaço é foda). Quando os primeiros acordes são disparados isso simplesmente desaparece. Depois de uma tranquilizada com a dançante “Listen to What The Man Said”, vem a bluesística “Let Me Roll It”, talvez uma das mais tocantes canções do repertório.

E como é legal ver Sir Paul arranhar sua guitarra no amplificador no final de “Paperback Writer”. Com o peso da batera de Abe, essa música se torna contagiante ao extremo. E novamente, acalmando as coisas, temos “My Valentine”, música composta para sua esposa Nancy, e que foi inspirada por uma frase que ela disse, que entrou na canção como um dos primeiros versos:

“What if it rained? We didn’t care. She said that someday soon, the sun was gonna shine”

Paul então vai direto para o piano e manda a incrível “Nineteen Hundred and Eighty Five”, a bela e melancólica “The Long And Winding Road”, e aquela que, na minha humilde opinião, foi um dos momentos mais emocionantes do show, a épica “Maybe I’m Amazed”, que contém um dos solos de guitarra mais arrasadores e verdadeiros da história do rock – a canção é uma homenagem brilhante a Linda McCartney, sua companheira de jornada que faleceu em 1998. Balanceando este momento quase espiritual, todos os integrantes agarram seus vilões (Abe no baixo) e tocam a swingada Hope of Deliverance”, para alegria total da nação.

Daí entram em cena mais algumas novidades, como “We Can Work it Out” – que todos cantam até seus pulmões saírem pela boca –, e a maneiríssima “Another Day” – que todos cantam até seus pulmões saírem pela boca. A romântica “And I Love Her” tranquiliza novamente a galera, e prepara o terreno para a auspiciosa “Blackbird”, clássico supremo que Paul toca em cima de uma plataforma, uns quatro metros acima da altura do palco (um adendo sagaz à nova turnê). Ali, só com o violão nas mãos, ele emenda a emocionante homenagem ao amigo John Lennon, “Here Today”, e leva grande parte do público as lágrimas.

941308_577043818993380_933688953_n

Depois de Paul falar “Uai”, a galera vai ao delírio

Então veio a mais grata surpresa da noite, para mim claro. “Your Mother Should Know”, uma das minhas músicas prediletas dos Beatles, era sinônimo de improbabilidade quando o assunto se referia a apresentações ao vivo. Quebrando tudo, logo em seguida, temos “Lady Madonna” e seu incontrolável piano, e pegando todos despreparados, a banda começa “All Together Now”, feita para o filme “Yellow Submarino”. Essa música nasceu para ser tocada ao vivo.

Depois da animada “Mrs. Vandebilt”, e da sombria “Eleanor Rigby”, surge a mais improvável surpresa, de novo (estou repetindo muito essa palavra né? Fazer o quê?): Paul toca ao vivo, pela primeira vez na história, “Being For The Benefit of Mr. Kite!”, uma música complexa e feita por John Lennon para o disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Por essa nem o mais otimista esperava. Genial.

Temos então a incrível homenagem para George Harrison, com Paul tocando uma diferenciada versão de “Something”, que começa no ukulele. “Ob La Di Ob La Da” e “Band On The Run” fazem todos se esgoelarem mais um pouco, e “Hi Hi Hi” – música dos tempos de queimação de erva de Paul no Wings – surge inesperadamente. Novamente, sensacional.

Como é obrigatório, o mestre toca seus hinos. Após chacoalhar o estádio com “Back in the USSR”, o velhote boa praça volta para o piano e manda as clássicas “Let it Be” (com a plateia iluminando o estádio com luzes de isqueiros e celulares), a explosiva “Live And Let Die” (a queima de fogos estava um pouco mais robusta), e a emblemática “Hey Jude”. Uma pequena pausa é feita, e ele volta para o primeiro bis com “Day Tripper”, e novamente, para delírio geral, toca ao vivo pela primeira vez na história a bela “Lovely Rita”, emendando com “Get Back”.

942167_578208042210291_1950148557_n

Paul surpreende a todos com clássicos inéditos no repertório

Outra pausa. E nessa hora, em que o corpo começa a esfriar, você percebe o quão cansado está, como suas pernas e pés estão acabados, destruídos, sua garganta está tão seca que parece que você comeu terra. Mas então ele aparece para o segundo bis e toca “Yesterday”, e nesse momento não dá pra pensar em nada, apenas na canção. Logo em seguida vem “Helter Skelter”, outro soco na cara que joga sua adrenalina lá em cima de novo, e te faz superar toda dor e dificuldade. Finalizando o épico concerto, se inicia a visceral “Golden Slumbers”, uma canção que por muito tempo eu desejava ouvir ao vivo – isso se realizou em Floripa, e Paul a manteve no repertório. “Carry That Weight” faz com que a multidão trabalhe em coro pela última vez, e “The End”, com suas sábias e relevantes palavras, encerra o melhor espetáculo da minha vida.

Dentro do estádio, tudo foi perfeito. Eu sinceramente nunca tinha ouvido um coro tão forte. O trecho em que se canta “I don’t know”, de “Something”, fazia o estádio tremer. Depois de falar “Uai”, “Trem Bão Sô”, e outros termos regionalistas que faziam todos vibrar maniacamente, ele ainda fez brincadeiras com a voz, pedindo para que repetíssemos tudo que falava, e novamente deu pra sentir o poder da platéia ecoando BH adentro. Algo absurdo.

Outra coisa bem legal foi a homenagem das placas de “Thank You”. Ela não saiu como o planejado (rolou em “Hey Jude”), o que acabou sendo mil vezes melhor. Foi algo espontâneo, que surpreendeu não só a banda, mas todos no estádio. Ninguém estava dando nada para essa homenagem, mas no final tudo se acertou naturalmente, e emocionou o cantor. Mas muitos se empenharam para que tudo isso desse certo. Minha mulher Ana Lídia fez 300 cartazes pintados a mão – ela é um caso clínico clássico de Beatlemaníaca. Ela tinha medo de que a homenagem fosse fraca, e não queria decepcionar o Paul, por isso se dedicou e fez um monte de placas para outras pessoas. Creio que muitos pensaram assim e fizeram o mesmo.

As meninas que organizaram o movimento “Paul Vem Falar Uai” também protagonizaram um momento maneiríssimo ao subirem no palco e ganharem assinaturas e abraços. Uma delas, sem medo de ser feliz, ergueu a blusa na altura da costela, mostrou uma tatuagem do Fab-Four e pediu para Paul assinar. Entrou para história com honras. Paul fez uma cara de “fazer o que né? Sou um astro de rock e agora vou assinar o corpo dessa gatinha”. Impagável.

Paul McCartney Out There Tour 2013

Desculpa aí Nancy…

The Other Side Of Liverpool

A única nota triste disso tudo foi a péssima organização das filas, feita pela empresa Nó de Rosa, que por sinal não se desculpou enfaticamente, alegando em nota oficial que “em qualquer lugar do mundo haverá filas”. Pelo que parece, tudo correu bem em outros setores, mas na pista comum foi uma verdadeira tortura. Não havia muito bem uma fila, apenas um largo corredor em que todos democraticamente sentaram sob um sol escaldante. E depois de torrar a tarde inteira, eles abriram o portão e não ofereceram nenhum tipo de grade guia para controlar a galera até as catracas.

Obviamente todos saíram correndo como malucos, tomados por aquele instinto humano de conquistar uma melhor posição, de “dar ao outro camarada o inferno”. Nessa balburdia, grupos de amigos se perderam, e pessoas que não estavam acostumadas aos 100 metros rasos em dez segundos (após muito sol na cabeça) passaram mal, desmaiaram (a turnê pode ser a “Out There”, mas os fãs, literalmente, continuavam na “On The Run”). A polícia e membros da produção estavam totalmente perdidos, e simplesmente não sabiam como proceder. Ficou feio pra caramba, uma bagunça generalizada. Eu corri muito e consegui pegar um lugar na grade, mas para isso me separei de quase todos os bons amigos da fila. Tá certo que no lugar que fiquei fiz novos amigos também, mas foi meio chato assim mesmo né. Outra coisa estranha foi uma queda de energia que desligou o som da banda por alguns segundos durante a “Band On The Run” – dava para ouvir o timbau do Abe moendo de longe -, mas isso não foi tão grave assim, todos continuaram cantando normalmente.

Fora estes problemas o show foi simplesmente memorável! Eu nunca pensei que teria a honra de ouvir “Being For The Benefit Of Mr. Kite!” pela primeira vez ao vivo. Paul nos colocou na história com essa música. Daqui 100 anos (com ele bem velhinho), quando estiverem investigando sua história ávidamente, vão relatar que o mesmo tocou esta épica composição de John Lennon, ao vivo e pela primeira vez, no dia 04 de maio de 2013 em Belo Horizonte. E eu estava lá.

Ao fazer parte da história do Paul, nós fazemos parte da história também.

Paul já foi embora do Brasil. Dá mesma forma que tocou com alegria e entusiasmo em BH, ele tocou em Goiânia e Fortaleza – deu até uma benção de casamento para um casal apaixonado no palco. Estes foram concertos incríveis que ficarão na memória de todos para sempre. No final, o tio Rock ‘N’ Roll novamente disse “Até a próxima!”. Ansioso por 2014.

Paul_067

Com os amigos da fila: este que voz escreve é o barbudo anão da direita

 


Já está nos seguindo no Twitter e no Facebook? Vem trocar uma idéia com a gente também no Botecão do Jack, nosso grupo no Facebook. Se quiser algo mais portátil, corre pro Telegram.

Comentários