O cinema de Edgar Wright: One, Two, Three, Four…

Ronaldo D'Arcadia

  quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O cinema de Edgar Wright: One, Two, Three, Four…

Para Edgar Wright, dirigir é muito mais do que explorar um bom roteiro. É preciso inserir um pouco de eletricidade ao processo.

Com três cortes rápidos de cena, acompanhados de zoom in e out ensandecidos, Edgar Wright conseguiria explanar de forma compreensível toda sua carreira. Este jovem diretor inglês é hoje, sem dúvida, um dos mais influentes desta nova geração, e os motivos para tal afirmação são óbvios: primeiramente ele oferece uma linguagem extremamente criativa, misturando cinema europeu com americano, o que se revela uma combinação ideal. “Segundamente”, tudo que ele fez até o presente momento é, no mínimo, agradável aos olhos, e no máximo, algo memorável dentro do rico universo da sétima arte.

Analisando resumidamente sua trajetória, percebemos que, além de talento, o cara sempre demonstrou ousadia na criação de seus trabalhos, e sempre buscou parcerias relevantes de mentes tão criativas como a dele.

Início Promissor

Wright começou a carreira muito jovem, fazendo pequenos vídeos já aos 14 anos de idade. Com 21 anos dirigiu o curta western “A Fistful of Fingers”, que foi exibido pela TV inglesa via satélite Sky Movies. Neste primeiro trabalho, o diretor já daria pistas de suas paixões:  quadrinhos, animações, comédias de ação, movimentos e simbolismos minuciosamente argumentados.

Confira abaixo a interessante abertura de “A Fistful of Fingers”:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=1t2Gwa8YWTw

Esta estreia bem executada lhe abriu portas para a TV britânica, onde construiu uma prolífera carreira dirigindo séries como “Asylum” (onde conheceu os futuros parceiros Simon Pegg e Jessica Hynes), “Mash and Peas” (com Matt Lucas), “Very Important Penis” (em que trabalhou como diretor de segunda unidade em alguns episódios), “Is It Bill Bailey?” (novamente com Pegg), “Alexei Sayle’s Merry-Go-Round”, “French and Saunders”, “Murder Most Horrid”, e “Sir Bernard’s Stately Homes” – foram mais ou menos 35 episódios dirigidos de 1996 a 1999.

Foi então que “Spaced” ganhou vida. A série nerd, extremamente cultuada planeta adentro, foi uma criação em parceria com os citados Simon Pegg e Jessica Hynes, e ambientava o dia-a-dia de dois amigos desempregados (que não são um casal) em uma Inglaterra ácida e surreal. Recheada de personagens estranhos, com humor frenético e direção inventiva, o projeto foi o primeiro passo do diretor rumo a construção de uma carreira sólida e de ideias mais pungentes – na verdade esse upgrade rolou com a maioria dos envolvidos.

Confira o trailer de “Spaced”:

Fase Pegg & Wright

Foram apenas duas temporadas de “Spaced” (14 episódios), algo que tornou fãs depressivos em potenciais suicidas. Mas com a moral razoavelmente alta, Pegg e Wright iniciaram então a construção de uma obra prima chamada… “Todo Mundo Quase Morto” – sim, o nome em português é horrível, sendo o título original, “Shaun of the Dead”, uma brincadeira com o “Dawn of the Dead” de George A. Romero (“Madrugada dos Mortos” aqui no Brasil), e consequentemente com o remake de Zack Snyder de 2004, mas as semelhanças ficam apenas no nome mesmo. Em resumo, a dupla roteirizou o projeto e Wright dirigiu.

Com certeza muita gente passou longe desse título tão horrível, e se você foi um deles (e até hoje não viu a fita por isso), reconsidere agora!

Mas o fato importante aqui é: nunca antes no cinema, um filme de comédia com zumbis havia sido feito (mas e o “Fome Animal” do Peter Jackson seu mané?)…

Mas o fato importante aqui é: nunca antes no cinema, um filme de comédia com zumbis havia sido feito de maneira tão bem sucedida. O resultado obtido em “Shaun of the Dead” foi incrível. Ele oferece humor negro visceral, dramas de verdade, ação contagiante, litros de sangue, pernas arrancadas e cabeças arrebentadas… tudo apoiado por interpretações inspiradas, principalmente da dupla inseparável de protagonistas: Simon Pegg & Nick Frost  – por causa desta forte referência de união, ambos fizeram os irmãos Dupont no mega blockbuster “As Aventuras de Tintim”, de Steven Spielberg. Veja só que legal!

Depois do lançamento de “Shaun…”, surgiram alguns bons clones deste “novo gênero”, como “Fido – O Mascote” e “Zombilândia”, filmes claramente influenciados pelo trabalho de Wright. Até mesmo Romero optou por momentos bem humorados em seu “Terra dos Mortos”, algo nunca feito enfaticamente por ele. E para homenagear esta “influência”, o mestre criador dos mortos vivos chamou a dupla Wright e Pegg para uma ponta em seu filme – eles interpretaram zumbis acorrentados que servem como diversão para os humanos, elemento este que foi muito bem explorado em “Shaun…”.

Ou seja: moral extrema, podemos dizer. Veja o trailer de “Shaun of the Dead”:

A parceria Pegg & Wright  ainda renderia mais um excelente trabalho, intitulado aqui no Brasil como “Chumbo Grosso” (“Hot Fuzz” lá fora). Nesta comédia policial de horror mórbido (excelente descrição, hein?), a dupla inseparável da qual falamos anteriormente, Pegg & Frost (tente não se confundir com as duplas, certo?!), interpreta policias que investigam assassinatos macabros em uma pequenina cidadezinha inglesa.

O que vemos então é uma tiração de sarro monumental com filmes de ação noventistas, sobrando referências, por exemplo, para “Caçadores de Emoção”, com cenas como a de Keanu Reeves não disparando no amigo bandido (Patrick Swayze), e descarregando o revolver no ar, com os nervos à flor da pele…  atitude que era um sonho a ser realizado pelo policial gordo vivido por Frost (sempre hilário!).

Acredite, estas duas obras são simplesmente obrigatórias. Veja o trailer de “Chumbo Grosso”:

Hollywood – Destino Final

E depois de dirigir um trailer falso intitulado “Don’t” – para o projeto “Grindhouse” de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez -, Edgar Wright foi escalado para adpatar o épico gamer/geek/nerd/pop/cult/one, two, three, four “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, inspirado na HQ de mesmo nome de Bryan Lee O’Malley, que fazia um sucesso insano na época.

É certo dizer que o filme não alcança a qualidade de seus antecessores, e sofre principalmente como adaptação – ao se focar muito no primeiro volume das revistas, e meio que compactar o resto de maneira não tão atenciosa. No entanto, foi com esta fita que Wright literalmente fez miséria com sua peculiar edição, elevando a mesma para um nível além das estrelas, deixando Guy Ritchie com saudades da Madonna, fazendo da ferramenta algo tão relevante quanto o próprio… sei lá?… roteiro! (o que faz bastante sentindo em se tratando de uma adaptação de quadrinhos… e no final a edição ficou mesmo melhor que o roteiro).

Em termos de direção e produção, é tudo impecável. Temos elaborações de cenas incrivelmente bem talhadas, efeitos especiais extremamente maneiros e referências aos montes do universo gamer/geek/nerd/pop/cult/one, two, three, four  (aquele tema de baixo de “Seinfield” foi simplesmente coisa de gênio).

Veja o trailer de “Don’t” e “Scott Pilgrim Contra o Mundo”:

Futuro Apocalíptico

Mas agora tudo que temos que fazer é esperar. Wright está com diversos projetos interessantes agendados, sendo o primeiro deles “The World’s End”, que roteiriza ao lado de, novamente, Simon Pegg.

Sim! Ele repetirá sua parceria mais bem sucedida, sendo seu maior objetivo completar esta “blood and ice cream trilogy” (algo como “trilogia de sorvete sangrenta”). Teremos no elenco, mais uma vez, a dupla inseparável Simon Pegg & Nick Frost, além de Paddy Considine e Rosamund Pike.

Em seguida, está programada a ficção científica “Collider”, obra sem muitas informações sobre a trama até agora (seria algo com o Large Hadron Collider do CERN?). A fita será produzida por J.J. Abrams e Nira Park (ambos da Bad Robot), e escrita por Mark Protosevich (“Eu Sou a Lenda”) – se bem que no Internet Movie Database (IMDb), como roteirista de “Collider”, consta o nome do também produtor Nuno Bernardo. Enfim… sem muitas informações concretas até agora.

E para finalizar, o britânico será o responsável pela adaptação de “O Homem Formiga” para os cinemas. O projeto da MARVEL foi anunciado oficialmente na Comic-Con 2012, mas a boataria já rolava há anos. O filme ainda não tem data para ser lançado.

Bom, tenho certeza que você já assistiu algum dos trabalhos deste cara, não é? Se ainda não assistiu, está perdendo um precioso tempo de sua vida (provavelmente dentro de uma bolha). Então faça um favor a si mesmo: vá até ao museu mais próximo… digo, a locadora de filmes mais próxima de você… e alugue todos estes, certo? Você não vai se arrepender!

 


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