Independência… ou Morte?

Ronaldo D'Arcadia

  terça-feira, 16 de outubro de 2012

Independência… ou Morte?

O cinema independente americano é um dos mais prolíferos atualmente. Sua criação, além de necessária, foi uma jogada de mestre da máquina capitalista de Hollywood. Hipocrisia ou simplesmente "é a vida"?

A indústria moderna de filmes independentes dos EUA surgiu da coragem e disposição de alguns diretores que financiaram seus próprios projetos – que outrora haviam sido esquecidos e renegados pelos grandes estúdios. A tentativa arriscada resultou em uma visível aceitação da audiência, realidade nada mais que óbvia diante do profissionalismo e qualidade das fitas. De mentalidade quixotesca, a vertente iniciava então sua caminhada contra a corrente dos altos custos hollywoodianos.

E em meio ao capitalismo selvagem instaurado nas produções em geral, foi possível perceber que a necessidade de obras diferenciadas se fez ouvir. Este é talvez um dos maiores trunfos do mercado cinematográfico americano, que mesmo com seu cenário competitivo, conseguiu se bifurcar e gerar outra indústria, voltada para temas mais pensantes e sem expectativas milionárias. Desde então o cinema independente cresceu muito, e festivais foram criados para premiar os melhores trabalhos. Ser agraciado com uma estatueta no Festival de Sundance, em Park City, Utah, é sinônimo de qualidade e principalmente integridade artística. Patrocinado pelo Instituto Sundance, fundado em 1981, o festival tem como seu criador o premiado ator e diretor Robert Redford.  Não podemos esquecer também do relevante Independent Spirit Awards, o mais independente dos prêmios independentes (isso pode ser tornar um ciclo sem fim).

Apesar de aparentemente separadas, as duas linhas de produção possuem diversos pontos em comum. Muitas figuras do alto escalão constantemente participam de independentes, como George Clooney com seu “Boa Noite e Boa Sorte” (2005), filme em que atua, dirige, e que foi muito bem recebido pela crítica mundial, se tornando um exemplo de sucesso dentro do cenário de pouca verba (ele custou míseros US$ 7 milhões e concorreu ao Oscar em diversas categorias).

Muitas vezes também, seguindo o caminho contrário, atores e diretores que se revelaram em festivais “menores” acabaram se envolvendo em grandes produções. Montou-se então uma funcional reciclagem do cinema americano e de seus personagens fundamentais. Uma reciclagem que ocorre de maneira natural em meio a todo o processo obrigatoriamente necessário da indústria – acima de tudo – capitalista. Mas criteriosamente, os fatores que separam as duas realidades ainda são: o orçamento e os temas propostos.

Nos anos 40 e 50, seria impossível nos EUA alguém ter a chance de conferir, ao mesmo tempo, dois longas tão distintos (um blockbuster e um independente). A única forma de se apreciar um trabalho diferenciado e de baixo orçamento, seria assistindo fitas estrangeiras, que são, em sua maioria, baseadas em dramas mais relevantes, optando sempre pelo realismo explícito – podemos dizer que são independentes por natureza, por isso nem devem ser contabilizadas nesta equação. Vale lembrar que nessa época o cinema europeu era sinônimo de sucesso absoluto, sendo que a Era de Ouro da América apenas se “engatilhava” – um trocadilho mórbido, se pensarmos que o setor cultural da Europa foi severamente afetado pela devastação da Segunda Guerra Mundial, que deixou os EUA dominante em todos os setores.

E foi John Cassevetes que surgiu como um dos grandes propulsores do cinema independente americano. Com seu espetacular “Sombras” (1957), ele já vislumbrava o caminho a se percorrer. Sua influência foi tão grande que o festival Indepedent Spirit Awards batizou um dos prêmios com seu nome.

Mas apesar da influência de Cassevetes, muitos concordam que “O Retorno dos Sete Rebeldes”, (1980), dirigido por John Sayles, foi o primeiro marco do gênero. Com o custo de US$60 mil – que saíram do bolso do próprio diretor -, a obra teve uma arrecadação final de US$ 2 milhões (um lucro mais que positivo para a época). Então aquela máxima do cenário pós-1975 (“Star Wars”, “Tubarão” – ou seja, os pais do blockbuster) começava a ser questionada pela primeira vez. Estava provado que era viável fazer um bom dinheiro gastando muito pouco, e também era possível um projeto existir sem fazer parte do cartel de estúdios de Hollywood.

Para fortalecer ainda mais a causa, o longa “Sexo, Mentiras, e Videotape” (1989), de Steven Soderbergh, ganhou a Palma de Ouro no renomado Festival de Cannes. “Pulp Ficiton – Tempo de Violência” (1994), de Quentin Tarantino, fez ainda melhor, pois além de levar a Palma de Ouro, foi o primeiro filme de baixo orçamento (US$ 8 milhões) a faturar mais de US$ 100 milhões nas bilheterias. Ambos os títulos citados foram distribuídos pela produtora autônoma Miramax, dos irmãos Harvey e Bob Weinstein. Anos depois, a Disney World compraria a empresa, que viria a quebrar posteriormente. Fatalidades necessárias da mistura capitalista – você acredita que o comunismo funciona?

Só que o fato mais relevante desta história é: o filme de Tarantino provou, acima de tudo, que sempre haverá algum gênio produzindo obras de valor artístico incomparável, e ainda sim de maneira rentável. Devido a isso, muitos dos grandes estúdios estenderam seus braços independentes rumo a esta fatia do mercado. Estas divisões especiais incluem a Fox SearchLight, Warner Independent Pictures, Universal Focus e a emblemática Sony Pictures Classics.

Sendo assim, ironicamente, a indústria se mostrou lúcida mediante ao valor artístico de seus trabalhos, tendo de assumir um papel de vilã, dando autonomia para os estúdios independentes. Mas no final, lucro é lucro. Os projetos realizados por estas divisões especiais de renome são os mais bem produzidos da vertente, com orçamentos ligeiramente inchados, e astros de grande porte (ou seja…). Estas divisões existem simplesmente para que peças do gênero dramático possam ver a luz do dia, pois a grande Hollywood não trabalha com esta linha de “produtos”.

É possível perceber então como as ramificações da indústria americana de cinema são versáteis e orgânicas. Quando taxada de dominadora, alienada, pouco artística ou pró-capitalista, a mesma vê uma possibilidade, paralela ao seu império, de produzir longas que satisfaçam as necessidades dos mais críticos, daqueles que buscam profundidade e variedade de temas. Com esta atitude, ela solidifica seu status quo, praticamente se concedendo o direito honroso de continuar vendendo suas fitas lucrativas, enquanto produz pequenas obras de arte, que no final também se mostram rentáveis. É a máquina perfeita do capitalismo cinematográfico – “This is what pays for the whole party”.

Creio que o importante diante dessa análise seja entender que rótulos e preconceitos são atos tolos e simplesmente desnecessários. A verdade é que tudo faz parte do mesmo quadro, e sendo milionário ou independente, bons filmes estão aí para serem apreciados, e isso é o que realmente importa. Qualquer tipo de arte precisa de dinheiro para existir, está é uma verdade que nunca vai mudar.


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