Corra, Lola, Corra – Crítica

Ronaldo D'Arcadia

  quarta-feira, 27 de março de 2013

Corra, Lola, Corra – Crítica

“A bola é redonda e o jogo tem 90 minutos... Todo o resto é pura teoria.”

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“Corra, Lola, Corra” é o exemplo perfeito de obra cinematográfica que surge de maneira escassa ao longo dos anos. Mas veja bem, não estou falando apenas da criatividade visionária do diretor alemão Tom Tykwer, mas sim do filme unir diversas características distintas de maneira formidável, alcançando um resultado singular.

Em primeiro lugar, o fato da produção ser Européia já oferece mais profundidade autoral. Mas é na mescla de influências americanas que seu peculiar estilo narrativo floresce –temos então um híbrido cult pronto para ser degustado.

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Em segundo vem a parte técnica que, mesmo alicerçada por uma verba ínfima, oferece uma  incrível produção, edição e montagem. As opções de Tykwer foram infinitamente criativas, misturando elementos de animação à trama, inserindo atitude e personalidade diretamente na veia do longa. A trilha sonora auspiciosa, fundamentada basicamente por ritmos eletrônicos, fortalece o conceito “andamento frenético”, mantendo alta a adrenalina de Lola… e também da audiência.

O elenco foi outro fator importante para o sucesso do filme. A atriz Franka Potente, em um de seus primeiros papéis no cinema, entrega uma interpretação de naturalidade absurda, mesmo quando a intensidade dos argumentos ganha contornos surreais. Um trabalho excepcional, de fato.

Mas sem dúvida alguma é no roteiro de argumentos filosofais e na direção apurada de Tykwer que “Corra, Lola, Corra” mostra seus grandes trunfos. A história de sacrifício de Lola, em sua essência, é bem simples: ela tem pouco menos de 14 minutos para juntar o montante de 100 mil euros e assim salvar a vida de seu namorado. No entanto, é na fragmentação deste plote – em três universos diferentes – que reside o grande barato da fita. É na repetição, e consequentemente nas alterações de detalhes contidas nesta repetições, que surge o fator chave de “Corra, Lola, Corra”: as coincidências e acasos do destino, que dão luz a um humor diferenciado.

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E em meio a estas realidades distintas, temos este toque de classe do roteiro, aquele elemento que de tão criativo se torna único, nasce e morre por ali mesmo, pois é impossível de ser copiado – seria simplesmente plágio (no momento eu realmente não me lembro de ter visto algo parecido com isso em outro lugar). Toda vez que Lola tromba ou interage com algum personagem secundário, uma rápida montagem de fotos revela o futuro desta pessoa, e como a história toda se repete três vezes, temos três realidades paralelas em que o futuro dessas pessoas se tornam aleatórios. Em um deles alguém se torna um suicida, no outro, o mesmo alguém encontra o amor de sua vida  ou ganha uma bolada na loteria. Simplesmente genial.

Em resumo: como já foi dito, “Corra, Lola, Corra” é uma fita singular, algo que surge apenas de décadas em décadas. A união de diversos fatores extraordinários faz do filme uma experiência alucinante e também obrigatória para aqueles que apreciam um cinema inventivo e pronto para transgredir convenções. A construção da protagonista é perfeita, com poucos minutos de filme já temos sua personalidade exposta de maneira clara. Mas nada é tão icônico como sua imagem, que se tornou algo simbólico, memorável – os cabelos extremamente vermelhos de Lola, que se revoltam devido ao ritmo acelerado da personagem, fazem com que a mesma pareça uma espécie de Fênix Cyberpunk. Um visual atraente e ao mesmo tempo pesado. “Corra, Lola, Corra” pode ser considerada uma pequena obra prima do sétima arte, cuja influência ainda não foi reconhecida totalmente.

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